Quando se fala nos principais candidatos a título em todo o mundo, ainda mais na Europa, um fator que é crucial é o financeiro. É impossível não olhar para esse aspecto. Os times mais fortes, não por acaso, são também os mais ricos, com pequenas variações entre eles, mas que, de maneira geral, dá para dizer que um time entre os mais ricos irá se sagrar o campeão, com uma dose bastante grande de possibilidade de acerto. Nesse aspecto, quando olhamos para Tottenham e Liverpool, finalistas da Champions League, o que vemos é que os dois clubes vivem ótimos momentos. A ascensão financeira de ambos casa com o bom desempenho esportivo que os clubes vivem em campo.

Tottenham

Galo do Tottenham no novo estádio (Foto: Getty Images)

O Tottenham chega à sua primeira final de Champions League da história em uma situação muito saudável, financeiramente falando. Teve o maior lucro da história de um clube, £ 138,9 milhões (€ 157 milhões) na temporada 2017/18 (os balanços da atual temporada só serão publicados ao longo da próxima), com uma receita de £ 380,7 milhões (€ 430 milhões).

O Tottenham já tinha conseguido na temporada 2013/14, com £ 103 milhões, fomentado pela enorme venda de Gareth Bale, mas se tornou um clube que consegue esse lucro operacional mesmo sem ter uma venda enorme como essa para entrar nas contas. Isso mostra que o clube que vendeu Bale para o Real Madrid em 2013 não é o mesmo que chega à final da Champions League em 2019.

Dois fatores contribuem muito para esse aumento do lucro. O novo contrato com a Nike de fornecimento de material esportivo e também o aumento de público, com muitos jogos tendo sido realizados em Wembley, um estádio com alta capacidade de público (acima de 90 mil pessoas). Isso se vê pela receita chamada de Matchday, ou dia de jogo, que subiu de £ 45,3 milhões para £ 71 milhões – 57% de crescimento. A média de público já indicava isso: o time foi de 31.639 para 67.953, só possível pelo uso de um estádio muito maior.

O aumento das receitas de TV também contribuiu. O salto foi de £ 188,2 milhões para £ 200,7 milhões. O aumento veio por causa da Champions League, já que o clube foi até as oitavas de final, o que não tinha conseguido na temporada anterior. Ainda nesse aspecto, a premiação da Uefa também aumentou de £ 38,4 milhões para £ 53,1 milhões, 38% a mais. O dinheiro de TV da Premier League caiu, de £ 150 milhões para £ 147,6 milhões, porque o time caiu uma posição na tabela, algo que deve refletir também na próxima temporada, já que o time terminou em quarto e tinha terminado em terceiro na temporada anterior.

O lucro foi enorme, ainda mais perto do total de receita, ainda muito menor que as principais potências do futebol europeu. E essencial, porque o Tottenham precisa de recursos para pagar o seu novo estádio, avaliado em £ 1 bilhão, e que está financiado por empréstimos do HSBC, Goldman Sachs e Bank of America Merril Lynch. O pagamento do estádio está previsto para ser concluído em maio de 2022.

A melhora do Tottenham significa muito. O relatório da consultoria KPMG, que avalia as finanças dos clubes, coloca os Spurs em nono lugar na edição 2019 (que leva em conta os balanços fiscais fechados, da temporada 2017/18), à frente, por exemplo, da Juventus, entrando no top 10.

Um dos itens elaborados pelo relatório é o Enterprise Value, ou valor da empresa, em português, que leva em conta a soma do capital dos donos, somado com a dívida total. É um indicativo do valor do negócio, independente da estrutura de capital usada para financiar as operações. E nesse aspecto, o Tottenham foi um dos destaques: em três anos, o Valor da Empresa, segundo o relatório, aumentou 110%. Considerando a grande temporada, é provável que siga melhorando.

O relatório coloca o Tottenham como o clube com maior ROS (“Return on sales”, ou retorno de vendas) entre os clubes avaliados, com 36%. Isso se explica, segundo a KPMG, porque os Spurs possuem um grande controle de custos. Apenas 39% das receitas do clube é gasta com salários, a menor porcentagem entre todos os 32 clubes analisados pela consultoria.

Um dado que mostra a crescente evolução do Tottenham é quando olhamos as receitas ao longo das últimas três temporadas. Em 2015/16, o clube fechou com €279,9 milhões; em 2016/17, chegou a € 359,5 milhões; em 2017/18, alcançou o patamar de € 428,3 milhões.

Isso é crucial se pensarmos em quanto o time aproximou-se dos outros clubes mais ricos da Inglaterra, notadamente Manchester United, Manchester City, Liverpool, Chelsea e o rival Arsenal. Enquanto o Tottenham sobe de receitas, o Arsenal tem caído. Em 2015/16, tinha € 468,5 milhões; em 2016/17, € 487,6 milhões; por fim, em 2017/18, € 439,2 milhões. A aproximação em relação ao rival é importante para que o clube mantenha a sua curva de crescimento.

Para termos a dimensão do que é o patamar do Tottenham em termos financeiros, o time ainda está significativamente atrás dos mais ricos da Europa, como os dois times de Manchester, que tiveram receitas cerca de £ 150 milhões a mais. Só que o Tottenham, ao mesmo tempo, tem receitas quase £ 200 milhões mais altas que o Everton, por exemplo, que é um time do meio da tabela na Inglaterra. Isso coloca o clube em uma situação única nesse sentido. Aproximou-se dos mais ricos, que ainda estão um pouco distantes, mas ao mesmo tempo se distanciou muito dos médios.

As receitas tendem a aumentar porque o time chega à final da Champions League e isso significa uma soma maior de dinheiro da TV e principalmente premiações. Portanto, a situação do clube é muito positiva.

Liverpool

John Henry, principal executivo do FSG, dono do Liverpool, dá autógrafos para torcedores em Anfield (Foto: Getty Images)

O Liverpool vive um grande momento não só em campo, mas quando falamos em finanças. Desde que o Fenway Sports Group (FSG) assumiu o clube, em 2010, as finanças da equipe melhoraram significativamente. Um dos responsáveis é o diretor esportivo Michael Edwards.

Apenas quatro times ingleses conseguiram superar a barreira de £ 100 milhões em lucro na história, com dois deles conseguindo na temporada 2017/18: Arsenal, € 120 milhões, e Chelsea, £ 113 milhões. Os Reds tiveram lucro operacional de £ 125 milhões, menor apenas que o do Tottenham, £ 138,9 milhões, com receitas totais de £ 455 milhões.

O time ultrapassou o Arsenal no relatório produzido pela KPMG de valores dos clubes de 2019. É o sétimo na Europa, atrás de Real Madrid, Manchester United, Bayern de Munique, Barcelona, Manchester City e Chelsea. Logo depois, vem o Arsenal e, então, o Tottenham.

Um dos itens que o Liverpool se destaca em termos financeiros, segundo o relatório da KMPG, é justamente algo que o adversário da final da Champions é o melhor: Retorno sobre vendas. É o terceiro nesse quesito, com 26%, atrás do Tottenham (36%) e Lazio (32%). O sucesso internacional do time, chegando à final da Champions League em Kiev, em 2018, fez com que o time conquistasse ótimos números.

As receitas comerciais também aumentaram na temporada, o que tem a ver com o bom desempenho em campo, especialmente na Champions League também. Há a expectativa também que as receitas desse setor aumentarão por um novo contrato de fornecimento de material esportivo. O atual fornecedor é a New Balance, mas há rumores de outras empresas dispostas a substituí-la – entre ela as Nike. O acordo atual vai até 2010, mas é possível, até provável, que o próximo acordo seja assinado em breve.

Uma receita que aumentou é a de matchday, dia de jogo. Os £ 81 milhões são £ 7 milhões acima do ano anterior. E o aumento em relação a quando o FSG assumiu o Liverpool é significativo. Essa receita era de £ 43 milhões ali em 2010, mas essa receita aumentou muito. Tem a ver com uma melhor exploração desse setor, a melhora de desempenho esportivo e também o aumento da arquibancada em Anfield. A média de público em Anfield na temporada foi de 53.049 pessoas em um estádio com capacidade para 54.074. Significa estádio cheio em todos os jogos.

O Liverpool gasta mais com salários de funcionários também. O gasto subiu de £ 208 milhões para £ 264 milhões na temporada 2017/18. É a segunda maior folha de pagamento da Premier League e deve aumentar ainda mais com as contratações feitas na temporada, com Alisson, Fabinho, Naby Keita e Xherdan Shaqiri. Foi o maior aumento de folha de pagamento entre os times do chamado Big 6.

O clube aumentou muito o gasto com jogadores, chegando a £ 195 milhões, mas é apenas o quinto na liga que mais gastou nesse quesito, atrás até mesmo do Everton, com £ 215 milhões. Ao mesmo tempo, a dívida do clube diminuiu em £ 27 milhões, fechando em £ 155 milhões, a sexta maior dívida da Premier League, mas significativamente menor do que a maior dívida, do Manchester United, que é de £ 496 milhões.

Os progressos que o Liverpool tem feito em campo significarão um aumento de receitas na próxima temporada, especialmente quando falamos em Premier League, com o clube subindo duas posições. A Champions League, com a chegada à final, também mantém as premiações altas – mais ainda se vencer.

O relatório da KPMG já mostrou que o clube teve um aumento do Valor de Empresa de 33% em relação à edição de 2018. Os pontos cruciais para isso foram o aumento do valor de direitos de TV recebidos, especialmente pela Premier League (38%) e o aumento do valor de mercado do elenco (90%).

Um dos pontos que o Liverpool também se destaca nas suas finanças é a venda de jogadores. Os clubes que mais faturaram nesse aspecto, na temporada 2017/18, foram Monaco (€ 316 milhões), Barcelona (€ 208 milhões), Paris Saint-Germain (€ 145 milhões) e Liverpool (€ 139 milhões). Logo depois vem o Arsenal (€ 135 milhões). Por isso, o clube, por mais que tenha gasto mais em transferências, também teve mais lucro, o que mostra uma boa gestão de recursos.

A final inglesa é mais do que de dois times que ganham muito dinheiro pelos lucrativos acordos de TV do Reino Unido. É de dois times que conseguem gerir bem esses recursos, mesmo sem estar entre os maiores na Europa em arrecadação. Ganhar muito dinheiro, como o Manchester United mostra, não é suficiente. É preciso saber como ser eficiente. O Tottenham e o Liverpool simbolizam muito bem a eficácia no uso dos recursos financeiros. Melhor, nesta temporada, que Barcelona, Bayern e Real Madrid, sempre muito ricos, e da Juventus, que não conseguiu manter o mesmo nível de desempenho nem em campo, nem em termos financeiros.