Podiam ser Guarani, Ponte Preta, Inter de Limeira, São José, XV de Piracicaba, São Bento, Botafogo de Ribeirão Preto ou Ferroviária. Mas eram Bragantino e Novorizontino que entravam em campo naquele 26 de agosto de 1990 para decidir quem era o melhor time de São Paulo. Duas equipes relativamente novatas no estadual. O Leão de Bragança tivera uma rápida passagem na década de 1960 e voltara ao convívio dos grandes apenas em 1989. O Tigre de Novo Horizonte era desconhecido até 1986, quando estreou na primeira divisão.

Por isso, São Paulo não sabia direito o que achar de sua primeira final do interior. Havia um certo orgulho de ver duas equipes de pouca tradição chegarem à decisão estadual, como se isso reforçasse a crença de que a pujança do futebol bandeirante (não há nada mais paulista que colocar “pujança” e “bandeirante” na mesma frase, mesmo sem ser em ano eleitoral) se deve sobretudo à força dos pequenos. Ao mesmo tempo, ficava uma sensação de que os grandes estavam decadentes, um pensamento que fazia todo o sentido há 25 anos.

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Considerando o cenário geral, o Rio havia sido, de longe, o estado mais vencedor no futebol brasileiro nos anos anteriores. Entre 1980 e 89, o Flamengo conquistou o Brasileirão três ou quatro vezes (depende da versão da história que cada um adota) e o mundo, enquanto Vasco e Fluminense levaram um título nacional cada. Além disso, cruzmaltinos e tricolores tiveram momentos especiais no Carioca, os botafoguenses saíram de 21 anos de fila, os banguenses chegaram a uma final nacional e o América ficou entre os quatro melhores do Brasil.

A situação não parecia tão diferente no primeiro semestre de 1990. O São Paulo, que havia sido vice-campeão brasileiro no ano anterior, foi eliminado na repescagem do Paulistão e caiu no grupo dos times mais fracos para a edição de 1991. O Santos havia sido inócuo. Corinthians e Palmeiras dominaram o campeonato no começo, mas perderam fôlego na reta final. Para piorar, o fim de semana anterior ao da Final Caipira teve a primeira rodada do Brasileirão (sim, o calendário encavalou) com uma hecatombe para os grandes: o Corinthians tomou 3 a 0 do Grêmio, mesmo placar da derrota da Portuguesa para o Fluminense, o São Paulo caiu em casa para o Atlético Mineiro e o Santos perdeu do Náutico nos Aflitos (o Palmeiras teve seu jogo adiado). Os únicos paulistas a pontuarem foram São José (1 a 1 com o Goiás) e a Inter de Limeira (2 a 1 no Bahia).

Tudo isso estava vivo na cabeça dos torcedores quando Bragantino e Novorizontino decidiram o Paulistão de 1990. Duas equipes que fizeram boas campanhas, mas que pareciam estar ali por aproveitar as circunstâncias. Não era bem assim. Na época, o Bragantino até havia mostrado força em 1989 (semifinalista do estadual e campeão da Série B nacional), mas pareciam times do interior como tantos outros: uma reunião de desconhecidos com refugos procurando oportunidade e um ou outro nome realmente promissor. Eram mais que isso.

Juntas, as duas equipes tinham dez jogadores que teriam passagem pela seleção brasileira nos anos seguintes: Paulo Sérgio, Márcio Santos, Odair e Maurício (esse último só foi convocado, não entrou em campo) no Novorizontino e Mauro Silva, Gil Baiano, Mazinho, Sílvio, Robert e João Santos pelo Bragantino. Três deles, Paulo Sérgio, Márcio Santos e Mauro Silva, fariam parte do elenco que levou o Brasil ao tetra na Copa de 1994. No banco, os técnicos Nelsinho Baptista e Vanderlei Luxemburgo tinham a oportunidade de mostrar ao Brasil seu trabalho.

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Ninguém podia adivinhar que tantos nomes da Final Caipira teriam futuro. Por isso, a reação imediata dos grandes foi se organizar (para os padrões da época). Eles ainda aproveitaram a onda de capitalização do futebol brasileiro – entrada de investidores e aumento dos valores pagos pela TV e pelos patrocinadores – para reverter a lógica da década anterior. Entre 1990 e 2008, só houve um Brasileirão (o de 1992) sem nenhum representante de São Paulo entre os dois primeiros colocados.

O curioso é que muito do sucesso paulista passou pelos nomes da decisão interiorana de 1990. Após atingir o fundo do poço naquele Paulistão, o São Paulo fez uma limpeza em seu elenco e deu espaço a garotos. Em uma formação bastante ofensiva, Telê Santana precisou de jogadores que topassem carregar o piano no meio-campo, casos de Pintado, ex-Bragantino, e Luiz Carlos Goiano, ex-Novorizontino. Essa fórmula levou o Tricolor a ganhar quase tudo nos três anos seguintes. O Corinthians foi buscar Nelsinho, técnico do Tigre, para conquistar seu primeiro título nacional já em 1990. O Palmeiras saiu dos 17 anos de fila tendo o comando de Luxemburgo, técnico campeão pelo Bragantino. Até as glórias do Santos tiveram alguma ligação com a final caipira, com o meia Robert participando da campanha do vice brasileiro de 1995 e do título nacional de 2002.

Outros personagens da Final Caipira estão em posição de destaque no futebol pernambucano. Nei, zagueiro do Bragantino, é executivo de futebol do Sport. O goleiro Marcelo, também do Bragantino, é o técnico do Santa Cruz. Franklin, atacante do Alvinegro, inventou a comemoração “Nana, neném” em 1991, fez carreira na Alemanha e é pai de Leonardo Bittencourt, destaque da seleção alemã nas categorias de base.

Esses nomes mostram o enorme legado deixado pela Final Caipira. Por isso, o Bragantino x Novorizontino não deve completar seu 25º aniversário apenas como uma curiosidade. De alguma forma, aqueles dois times deram uma mão na mudança de rumos do futebol paulista – e, por consequência, do brasileiro – na década seguinte.

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