Exceto por uma temporada em que jogou com José Mourinho no Chelsea, Filipe Luís passou seus últimos oito anos na Europa sendo treinado por Diego Simeone, em um estilo de jogo bastante defensivo e precavido. No Brasil, encontrou no Flamengo de Jorge Jesus o contrário disso. Mesmo afirmando que não há verdades absolutas no futebol e que é preciso se adaptar às necessidades, o lateral admite: como jogador, é mais divertido jogar em uma equipe como a rubro-negra de 2019. Ainda assim, para alguém que pretende ser treinador depois de pendurar as chuteiras, os estilos complementares representam o melhor dos cenários.

Em entrevista ao jornal espanhol El Mundo, Filipe Luís falou sobre sua saída da Europa e a readaptação ao futebol brasileiro. O lateral afirma que voltou ao Brasil “esperando o pior”, sobretudo por causa da adaptação, mas que tudo vem dando muito certo.

“Está sendo um sonho, porque, com o lado esportivo indo tão bem, tudo é mais fácil. A verdade é que eu não esperava isso. Vivi os melhores anos da história do Atleti e agora chego e, em cinco meses, estou vivendo em um dos melhores momentos da história do Flamengo. E no meu ano no Chelsea, vencemos a Premier League. Coloquei meu grãozinho de areia, mas tenho muita sorte”, avaliou Filipe Luís.

O veterano não esconde que temia o retorno, especialmente por achar que sentiria falta da vida na Europa. Chegou a pensar que poderia ser um passo atrás, mas vive hoje uma experiência positiva, da qual não se arrepende.

“Voltei ao Brasil preparado para o pior. Pensava que iria sofrer muito e que a mudança seria complicada de se assimilar. Ainda que tenhamos aqui uma grande equipe, com jogadores muito importantes, eu vim convencido de que sentiria falta da Europa, que talvez fosse um passo atrás. Mas me obriguei a ser positivo, e, desde o começo, as coisas saíram bem. Tudo está perfeito agora, até os gramados ruins em que jogamos ou a torcida, que é tão exigente que nos vaia a qualquer momento.”

Os europeus que olham para o Brasil querem entender a diferença de nível entre o futebol daqui e o do Velho Continente. Sabem que o Flamengo de Filipe Luís vai muito bem, obrigado, mas é difícil colocar isso em contexto em relação ao nível europeu. Para o lateral, a questão é simples: o talento é parecido, o que muda é o estilo.

“O jogador de futebol é igual em todos os lugares. É uma questão de se adaptar ao meio. Assim como quando vai na Inglaterra você sabe que não pode se jogar porque não vão apitar a falta, no Brasil você sabe que o jogo é de qualidade, mas menos intenso. Vindo de um trabalho com o Simeone, a princípio isso é difícil, mas também não é física quântica, você se acostuma. É muito diferente, sem dúvida, mas os jogadores não são piores. Muda o estilo, não o talento”, analisa.

Filipe Luís tem um histórico de demonstrar inteligência em suas entrevistas. A maneira como vê o jogo nos faz pensar que poderia se tornar um bom técnico, e esse é na verdade o passo que o lateral gostaria de dar assim que terminar sua carreira como jogador. Portanto, poder trabalhar com estilos tão diferentes e complementares como os de Diego Simeone e Jorge Jesus é a melhor das situações.

“Não é fácil essa mudança, porque são ideias totalmente diferentes. Mas, ao mesmo tempo, é útil para mim, porque tenho 34 anos e meu plano é ser treinador. Quanto mais coisas eu aprender, melhor. Passei nove anos com a ideia de jogar recuado, não avançado. Fechar espaços e esperar o momento. Na minha idade, descobrir outro futebol é fenomenal, para colocar no meu currículo: aprendi com o Cholo, com Mourinho e agora com Jorge Jesus. Os melhores professores para ser um treinador mais completo”, comemora.

“Todo jogador gosta de propor, de sair jogando, ter a posse… Isso é o que fazemos no Flamengo e me encanta, claro. Mas o futebol não tem verdades absolutas. Como jogador, isso me diverte mais. Como treinador e vencedor, seria estúpido discutir o modelo do Cholo.”

Ele avalia que seria estúpido discutir o modelo de Simeone, tendo em vista o que ele conquistou com o Atleti e o patamar a que alavancou os colchoneros. Ainda assim, quando questionado sobre qual estilo de jogo mais lhe agrada, pendeu para o lado de Jorge Jesus: “Todo jogador gosta de propor, de sair jogando, ter a posse… Isso é o que fazemos no Flamengo e me encanta, claro. Mas o futebol não tem verdades absolutas. Como jogador, isso me diverte mais”.

Há quatro meses no Flamengo, Filipe Luís estava no radar de grandes equipes do futebol europeu, mas mesmo assim decidiu pelo clube da Gávea. Perguntado sobre por que o Brasil tem atraído jogadores de alto perfil, respondeu sem meias-palavras: “dinheiro”.

“No Brasil, tem dez ou 12 equipes grandes, das quais exigem no começo da temporada que sejam campeãs. Elas têm uma quantidade de sócios descomunal, e a maioria dos times saneou suas contas nos últimos anos. Por exemplo, o Flamengo tem 150 mil sócios. Essas equipes podem pagar no nível da Europa ou mais, em alguns casos. O São Paulo trouxe Dani Alves e Juanfran. Tem Corinthians, Palmeiras… Se você tem dinheiro, você vai atrair jogadores.”

De qualquer forma, ainda que esteja prestes a jogar a final da Libertadores, aponta algo que lhe faz falta: a Champions League: “Todos os jogadores querem jogá-la, mesmo que estejam perdendo dinheiro. Não é para menosprezar a Libertadores, é claro, mas é a melhor competição do mundo, de longe. Isso nunca vai mudar”.