O Figueirense atravessa dias extremamente incertos – e, sobretudo, angustiantes. O clube encara o caos político e econômico, que resultou na histórica greve do elenco há pouco mais de um mês. Empresa responsável pela “gestão” do Furacão, a Elephant acumulou ingerências, incluindo atrasos salariais e calotes nos fornecedores. Diante da falta de perspectivas, o Figueira rompeu unilateralmente a parceria na última sexta, o que não encerrou seu pesadelo. Segundo a repórter Gabriela Moreira, mesmo depois de perder o poder, a Elephant acionou a CBF e comunicou que o clube abandonou a Série B. Enquanto o tumulto acontece nos bastidores, sob risco de uma suspensão futura, o time entrou em campo nesta terça pela Segundona. E terminou abraçado pela única certeza: sua torcida, que lotou o Orlando Scarpelli e ofereceu uma noite de esperança em meio às trevas. Foi emocionante o engajamento dos alvinegros numa ocasião tão simbólica.

Desde o W.O. contra o Cuiabá, em agosto, o Figueirense enfrentou outros tantos problemas. A Elephant até pagou os salários atrasados, mas vários entraves ao redor da parceria se mantiveram. Cinco membros do Conselho Administrativo abandonaram seus cargos, enquanto o técnico Vinícius Eutrópio terminou demitido. Também houve uma debandada de jogadores, por mais que a Elephant tenha garantido empréstimos paralelos. O elenco profissional e também os times da base não contavam com alimentação, transporte ou plano de saúde bancados pelo clube. Já os investimentos prometidos pela parceira seguiam sem cair na conta.

Uma nova tensão aconteceu há pouco mais de uma semana, dentro do próprio Orlando Scarpelli. A derrota para o Sport em 15 de setembro completou o jejum de dois meses sem triunfos e colocou o Furacão pela primeira vez na zona de rebaixamento da Série B. Revoltados, alguns torcedores depredaram os vidros que circundam o gramado. Além disso, as vaias e as cobranças, principalmente à diretoria, ecoavam no estádio. O pandemônio parecia se ampliar.

(Matheus Dias / Figueirense FC)

O rompimento do contrato com a Elephant se tornou o passo natural e necessário. A decisão foi anunciada pelo clube na última sexta-feira. Desde então, o Figueirense efetivou o técnico Márcio Coelho, enquanto dispensou os diretores Antônio Lopes e Luiz Greco. Além disso, também começou a convocar sua torcida à chamada “Retomada”. Jogadores históricos participaram de uma campanha para que o Orlando Scarpelli voltasse a se encher nesta terça-feira, rumo ao duelo contra o líder Bragantino. Além disso, a diretoria colocou os ingressos a R$5 para atrair o público. Deu certo, apesar das reviravoltas.

O centro dos problemas, mais uma vez, foi o empresário Cláudio Honigman, mandatário da Elephant que também presidia o Figueirense. Durante a rescisão do contrato na última semana, ele exigiu o pagamento de R$3 milhões em indenização e a quitação de dívidas. Sem que a proposta fosse aceita, o rompimento executado pelo clube aconteceu de maneira unilateral, com o apoio de uma decisão judicial. Descontente com o processo, Honigman resolveu acionar a CBF (onde seu cargo ainda permanece válido) e anunciou a desistência do Figueira na Série B. O STJD, entretanto, ainda avaliará a validade do comunicado emitido pelo cartola. Caso o documento seja aceito, os catarinenses seriam suspensos por dois anos. Enquanto o limbo perdura, restou aos torcedores realizarem sua corrente nesta terça.

Mais de 12,7 mil fiéis estiveram presentes no Orlando Scarpelli – que, até então, não havia apresentado públicos superiores a 5 mil presentes em 2019. O apoio começou desde a chegada do ônibus do clube ao estádio, num clima que mais parecia de final. Centenas de alvinegros cantaram, pularam, agitaram bandeiras e acenderam sinalizadores para transmitir sua energia ao time. Já nas arquibancadas, o ambiente desde a entrada das equipes era espetacular, com uma vibração intensa dos catarinenses e uma longa queima de fogos. Algo que não foi atrapalhado nem mesmo pelo resultado, com a vitória do Red Bull Bragantino por 3 a 0.

(Matheus Dias / Figueirense FC)

O Figueirense deu azar de enfrentar o melhor time da Série B nesta ocasião emblemática. O Bragantino sobrou em campo e aproveitou muito bem os cruzamentos para abrir sua vantagem. Durante o primeiro tempo, Matheus Peixoto e o infernal Claudinho balançaram as redes. Já no segundo tempo, Léo Ortiz concluiu a vitória. No entanto, quando o apito final soou, até parecia que o Figueira tinha goleado. A torcida seguiu cantando alto durante todo o duelo. E guardou a melhor parte do show para o fim, com uma comunhão com o time, sem arredar o pé das arquibancadas. Muitos jogadores estavam visivelmente emocionados.

A missão do Figueirense segue dura. Após 24 rodadas, o time ocupa a última colocação na Série B e acumula 15 partidas sem vencer. Ao menos, a distância para sair da zona de rebaixamento não é grande, a dois pontos de respirar. Mais árdua será a batalha nos bastidores. Enquanto o STJD avalia a situação do documento enviado pela Elephant, Cláudio Honigman é acusado de se apropriar indevidamente do dinheiro nas contas do clube. Além disso, o empresário não entregou os registros relativos à sua gestão e o Figueira sequer sabe o tamanho do rombo atual. O clube também corre riscos de ser punido com a perda de pontos, por causa das infrações ao Fair Play Financeiro da CBF. Os problemas serão administrados por uma diretoria que se reconstrói e que, afinal, havia justamente aberto as portas à Elephant.

Diante de tudo isso, o futuro do Figueirense é um enorme ponto de interrogação. Depende de inúmeras variáveis e, mesmo que o time permaneça na Série B, tende a enfrentar um pesado fardo de dívidas. A única coisa na qual o Furacão pode se agarrar é em seus torcedores. Foram eles que estenderam a mão nesta noite inesquecível, que se transformou em uma grande declaração de amor. Independentemente do que aconteça, serão eles os responsáveis por reerguer um dos maiores clubes de Santa Catarina. São o maior patrimônio e os verdadeiros condutores do Figueira.