Luis Figo desistiu, e então, restaram apenas dois: o príncipe jordaniano Ali bin al-Hussein e o suíço Joseph Blatter. Era natural que isso acontecesse antes do pleito presidencial da Fifa, no próximo dia 29, porque a oposição teria que ser pouquíssimo inteligente para enfrentar dividida um candidato de situação tão forte .

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Figo caiu atirando no processo eleitoral da entidade. Principalmente a ausência de um debate público sobre os programas de governo. Aliás, Blatter nem apresentou um para poder debater, o que também foi notado pelo português. Ele criticou a trairagem de dirigentes que criticam o suíço nos bastidores e o elogiam em público. E ainda reclamou de ter sido impedido de dar discursos em congressos da Fifa nos quais o presidente falou.

Sem o mesmo espaço, fica mesmo difícil convencer corações e mentes, mas, se isso tudo, da candidatura à desistência, não foi apenas uma estratégia midiática de Figo, ele mostrou um pouco de ingenuidade se esperava que fosse diferente.

De qualquer maneira, é bom ficar bem exposto detalhes de como Blatter não permite que a eleição da Fifa seja, de fato, um processo eleitoral democrático, e ao menos esse serviço o português nos prestou. O texto que ele publicou no Facebook foi um pouco grande, o famoso “textão”. Resumimos ao essencial:

“A minha candidatura à Presidência da FIFA resultou de uma decisão individual, depois de ouvir muita gente relevante no universo do futebol internacional.

(…)

O universo de um desporto que me deu tudo o que sou e a quem me predispus a devolver agora, fora de campo, está sedento de mudança. A FIFA precisa de uma mudança e eu entendo que essa mudança é urgente.

(…)

Viajei e conheci gente extraordinária, que reconhecendo o valor de muitas das coisas que foram feitas, também se identifica com esta necessidade de mudança, que limpe a FIFA do selo de organização obscura e tantas vezes olhada como espaço de corrupção.

Mas nestes meses não assisti apenas a esta vontade, assisti a episódios consecutivos, em diversos pontos do planeta, que devem envergonhar quem deseja um futebol livre, limpo e democrático.

Vi eu presidentes de federação que num dia comparavam os líderes da FIFA ao Diabo e no outro subiam ao palco a comparar as mesmas pessoas a Jesus Cristo. Ninguém me contou. Fui eu que presenciei.

Os candidatos foram impedidos de se dirigir às federações em congressos enquanto um dos candidatos discursava sempre sozinho do alto de uma tribuna. Não houve um único debate público sobre os programas de cada um.

Haverá alguém que ache normal uma eleição para uma das mais relevantes organizações do planeta decorrer sem um debate público? Haverá alguém que ache normal que um candidato não apresente sequer um programa eleitoral para ser sufragado no dia 29 de Maio? Não deveria ser obrigatória a apresentação desse programa para que os presidentes de federações conheçam aquilo que vão votar?

Seria normal, mas este processo eleitoral é tudo menos isso, uma eleição.

Este processo é um plebiscito de entrega do poder absoluto a um só homem – algo que me recuso a caucionar.

É por isso que, após ter refletido de forma individual e partilhando opiniões com dois outros candidatos neste processo, entendo que o que vai acontecer dia 29 de Maio em Zurique não é um ato eleitoral normal.

E não sendo, não contam comigo.

(…)

Eu, de minha parte, continuo comprometido com as ideias que deixo escritas e divulgadas, mantenho a minha vontade de participar ativamente numa regeneração para a FIFA e estarei disponível para ela sempre que me demonstrem que não vivemos em ditadura.

Não receio eleições, antes não pactuo nem cauciono um processo que se concluirá dia 29 de Maio e do qual o futebol não sairá a ganhar.

A minha decisão está tomada, não disputarei aquilo a que chamaram ato eleitoral para a Presidência da FIFA.
Agradeço profundamente a todos os que me apoiaram e peço que mantenham a vontade regeneradora que pode tardar, mas chegará.”