O escândalo de corrupção da Fifa estourou em 2015, provocando as prisões de diversos executivos do primeiro escalão no futebol e gerando mudanças na gestão de entidades internacionais. Cinco anos depois, lacunas permanecem abertas e novas informações apuradas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos foram reveladas nesta segunda-feira. Os promotores apresentaram sua acusação num tribunal federal do Brooklyn, apontando para distintas irregularidades. E não é apenas o nebuloso processo de escolha das sedes à Copa do Mundo que, mais uma vez, acaba em xeque. As vendas fraudulentas de direitos de transmissão geram novos indiciamentos, com provas de corrupção em várias frentes.

Três executivos de mídia esportiva e uma empresa de marketing foram os principais acusados nesta segunda. A lista de crimes inclui lavagem de dinheiro, fraude eletrônica e conspiração para extorsão. Os réus teriam subornado dirigentes para obter informações confidenciais de licitações na venda de direitos de transmissão – incluindo as Copas de 2018 e 2022, bem como de competições da Conmebol. A atual acusação, com mais informações, suplanta as duas anteriores apresentadas ao longo do Fifagate.

Entre os novos réus, estão executivos renomados em impérios de comunicação. Hernán López foi CEO da Fox International Channels, supervisionando a compra de direitos esportivos. Já Carlos Martínez, antigo presidente da Fox International Channels, era o principal nome da emissora na América Latina. As acusações contra ambos são amplas, ligados a um sistema de propinas dentro da Conmebol. Conforme os documentos do Departamento de Justiça, eles subornavam cartolas sul-americanos para obter os direitos da Libertadores e promover os interesses comerciais da Fox. Os canais Fox Sports eram tratados como “co-organizadores” da Libertadores, o que garantia privilégios e a compra preferencial dos direitos televisivos.

Outro réu, o espanhol Gerard Romy encabeçava a Imagina Audiovisual SL, que negociava contratos televisivos nos Estados Unidos e na América Latina. O executivo também participou do esquema de suborno, através de suas empresas afiliadas. Já a companhia de marketing apontada pelas investigações é a Full Play Group, administrada pelos argentinos Idjgo Jinkis e seu filho Mariano. Ambos são foragidos desde as primeiras revelações do Fifagate, em 2015. A Full Play se uniu com a brasileira Traffic e com a argentina TyC para a compra de direitos relativos à Copa América. Formando uma nova empresa, as três companhias pagaram US$110 milhões em propinas.

Os privilégios comprados pela Fox

Conforme detalhado pela Sports Illustrated, esses executivos agiam através de empresas de fachada e contratos fraudulentos para ocultar os subornos pagos nos acordos pelos direitos de transmissão das competições. O dinheiro da corrupção era maquiado dentro de transações inicialmente legais. Assim, eles pagavam as propinas e ganhavam privilégios na concorrência pela exibição dos torneios – em especial, a Copa do Mundo e a Libertadores. A investigação revela que o mecanismo era similar ao que ocorre na lavagem de dinheiro, com companhias falsas. Os indícios mostram que tal prática prevaleceu por duas décadas, até 2015 – durante as gestões de Nicolás Leoz, Eugenio Figueredo e Juan Ángel Napout na Conmebol, além de Joseph Blatter e João Havelange na Fifa.

López e Martínez, os dois executivos da Fox, supervisionavam o esquema dentro da Conmebol e garantiam as propinas. Em troca, os dirigentes facilitavam as concorrências pelos direitos televisivos à empresa americana. Através desse esquema, os dois funcionários também conseguiram informações privilegiadas sobre os direitos de TV da Copa do Mundo nos Estados Unidos. Sem qualquer coincidência, a Fox ganhou a disputa sobre a transmissão dos Mundiais de 2018 e 2022, tanto na televisão quanto no rádio. Gerard Romy, por sua vez, atuava em relação aos direitos das Eliminatórias da Copa.

Há uma conexão direta entre a corrupção para determinar as sedes da Copa e a corrupção na venda de direitos de transmissão. Além da influência de dirigentes e executivos, há o uso em comum de instituições bancárias americanas – o que levou à ação do Departamento de Justiça do país. O mecanismo utilizado para as fraudes e revelado pelas investigações mantém um padrão desde o início dos indiciamentos, em 2015, com o uso de subornos e a criação de entidades para lavar dinheiro, na tentativa de ocultar a ilicitude.

Ao longo dos últimos cinco anos, porém, a quantidade de denúncias e provas aumenta. A prisão dos primeiros dirigentes e a mira sobre outros gerou uma cadeia de delações premiadas, a fim de reduzir penas. Assim, o Departamento de Justiça consegue identificar mais claramente outros tentáculos do esquema ilegal. Os executivos das empresas de comunicação, que fornecem boa parte do dinheiro às fraudes, eram alvos naturais do processo e gradualmente foram revelados.

Nesta semana, López e Martínez já se apresentarão à justiça para ouvir as acusações formalmente. A partir disso, se iniciará a defesa dos indiciados. No entanto, considerando as provas e as investigações, é possível que ambos se declarem culpados antes de se iniciar o julgamento, o que poderia até mesmo aliviar as penas.  Outra consequência das acusações pode ser aplicada pelos canais que concorreram aos direitos da Libertadores e da Copa do Mundo, mas perderam à Fox. Há a possibilidade de que eles iniciem um processo pelos prejuízos provocados pela fraude.

Outras fraudes já provadas na venda dos direitos de TV

Anteriormente, as primeiras investigações realizadas pelo Fifagate já haviam identificado ilegalidades em outros processos de vendas de direitos de transmissão. A Traffic e a TyC eram as principais indiciadas. As fraudes envolviam competições como a Copa América, a Copa do Brasil e a própria Libertadores – mas sem a menção direta à Fox. Enquanto a Traffic tinha muita força na negociação com as emissoras no Brasil, a TyC exercia poder parecido na Argentina, com seus próprios veículos de imprensa, além de acordos com o governo e com a federação local.

Dono da Traffic, J. Hawilla se tornou delator do Departamento de Justiça e entrou em acordo para devolver US$ 151 milhões, relativos aos subornos que pagou e às concorrências em que se beneficiou. O brasileiro faleceu em 2018. Já Alejandro Burzaco, dono da TyC, também fez um acordo com a justiça americana para devolver dezenas de milhões de dólares e permanecer em prisão domiciliar. Durante os últimos meses, foi um dos principais delatores do esquema.

Estava claro, desde 2015, que as fraudes relativas à Copa Libertadores poderiam ser mais amplas. Por ser tratada como “co-organizadora” do torneio, a Fox não tinha os valores da compra de direitos televisivos revelados publicamente pela Conmebol. Isso permitia que os valores praticados fossem teoricamente mais baixos e que a confederação pagasse aos clubes prêmios relativamente reduzidos por suas campanhas na principal competição do continente.

Em seus próprios estúdios na Argentina, a TyC era a empresa responsável por produzir o conteúdo do canal Fox Sports Latinoamerica. A partir da prisão de Burzaco, e de suas primeiras delações, era natural que as acusações atingissem outras companhias. As provas contra a TyC no Fifagate encurtaram o caminho para que o esquema de corrupção da Fox também fosse revelado para o Departamento de Justiça. A caixa preta mantida pela Conmebol com seu principal produto, enfim, é aberta.

Em novembro de 2017, Burzaco havia citado outras emissoras além da Fox Sports. O argentino afirmou que a Globo pagava propina para poder transmitir os torneios da Conmebol, assim como Televisa, Media Pro e Full Play. Presidentes da CBF articulariam o esquema. Na época do depoimento de Burzaco, a Globo se defendeu das acusações através de uma nota oficial e negou sua participação nas fraudes. Antes disso, em 2016, quando a Conmebol rompeu parte dos contratos vigentes pela Libertadores, a Globo entrou com processo para manter o seu ativo. A Globo pagaria US$10,8 milhões por ano neste acordo pelos direitos televisivos do torneio. O valor era menor que o desembolsado por ano ao Paulistão.

Após o escândalo, a Conmebol passou a adotar um novo esquema na venda dos direitos de TV para a Copa Libertadores. As licitações agora são abertas e os interessados podem adquirir três faixas distintas de partidas disponíveis. No Brasil, os atuais detentores são Fox Sports, SporTV e Facebook na televisão fechada, além da Globo na aberta. A geração de imagens passou a ser de responsabilidade da própria Conmebol. A licitação envolveu 24 empresas de 10 países, em direitos válidos para o ciclo de 2019 a 2022 da competição.