A Fifa publicou sua visão para os próximos anos e as medidas que pretende tomar para torná-la realidade entre 2020 e 2023. E uma delas dialoga com demandas de treinadores e clubes do mais alto nível, embora, segundo o documento, ainda não esteja claro como isso será feito: revisar o calendário do futebol internacional.

O excesso de jogos e competições de seleções têm sido alvos frequentes de reclamações de nomes como Pep Guardiola e Jürgen Klopp porque prejudicam o descanso dos jogadores. No entanto, a Fifa pretende fazer a revisão com o objetivo de “garantir uma abordagem realmente global”, a essência por trás de todos os passos que pretende tomar, e quando essa justificativa é dada, seus torneios costumam aumentar e não diminuir.

“O calendário internacional de jogos tem um papel central no crescimento sustentável do futebol em todas as regiões do mundo e em todos os níveis. Por essa razão, o atual sistema precisa, de uma vez por todas, ser discutido minuciosamente entre todos os acionistas e revisto de acordo com suas necessidades, em um esforço coletivo para garantir uma abordagem realmente global”, escreveu a Fifa.

O presidente da entidade, Gianni Infantino, destaca que o futebol é jogado “das ruas de Kinshasa às praias da Nova Caledônia” e que a Fifa precisa torná-lo “cada vez mais inclusivo” até um dia ter “pelo menos 50 seleções nacionais e 50 clubes em todos os continentes no mais alto nível competitivo”.

Ao especificar seus 11 objetivos para o período 2020-2023, a Fifa, por exemplo, fala em “adotar formatos globais e inclusivos” e em criar “mais oportunidades de jogo em nível global”, duas promessas que dialogam, por exemplo, com uma Copa do Mundo expandida para 48 seleções ou o novo Mundial de Clubes. Também fala em “criar mais oportunidades para nossos membros sediarem um torneio da Fifa”.

“Participar de competições de alto nível permite que jogadores, seleções e clubes melhorem seus desempenhos, elevando o nível de competitividade global para novos patamares. É por isso que, após uma análise minuciosa, a Fifa deve trabalhar para reformar o atual cenário das competições e oferecer oportunidades de jogo em um nível global para seleções e clubes, mantendo em mente o bem-estar dos jogadores e os interesses dos acionistas”.

“As competições da Fifa devem refletir o conceito de inclusão mais extenso possível. Por isso, os formatos dos torneios vem garantir que garotos e garotas, homens e mulheres – por clubes ou seleções – tenham a chance de enfrentar adversários do mundo inteiro mais regularmente”, disse.

Pela linguagem do documento e pela experiência de como a Fifa costuma trabalhar, eu ainda não ficaria muito animado se fosse o treinador de um clube que vê meus jogadores exaustos pelo excesso de partidas.

Grana e futebol feminino

Megan Rapinoe com seus troféus (Foto: Getty Images)

A Fifa anunciou que teve faturamento de US$ 6,42 bilhões no ciclo 2015-2018, 28% a mais do que o orçamento de US$ 5 bilhões aprovado no congresso de 2014. Isso ajudou a levar as reservas da entidade ao nível mais alto da história, em US$ 2,74 bilhões. “O valor de US$ 1,25 bilhão das nossas reservas será reinvestido no desenvolvimento do futebol, com uma parte significativa alocada para o futebol feminino”, prometeu o documento.

Segundo a Fifa, há um total de investimento previsto em US$ 1 bilhão para o futebol feminino até 2020, cuja Copa do Mundo teve 1,2 bilhão de espectadores em 2019, pouco menos de um terço dos 4 bilhões que assistiram ao Mundial masculino da Rússia.

Um dos 11 objetivos a serem concretizados até 2023 será “acelerar o crescimento do futebol feminino”, por meio de quatro passos:

  • Reformar competições, com a “introdução de novos evento, incluindo competições femininas e de categorias de base regulares”
  • Melhorar o valor comercial do jogo, “cuja identidade de marca precisa ser criada e sublinhada por uma inovadora estratégia digital, considerando as necessidades específicas do jogo das mulheres”.
  • Modernizar os programas de desenvolvimento, “revisando e melhorando os programas existentes, assim como projetando novos modelos, talhados para as necessidades e especificidades não apenas do jogo, mas também das nossas associações membros”.
  • Melhorar a profissionalização do futebol feminino dentro e fora de campo, com “políticas promovendo a inclusão de mulheres em posições de liderança em escala global e construindo programas dedicados para acelerar a profissionalização”.

A Fifa também promete políticas adicionais anti-discriminação na tentativa de combater o racismo e todas as formas de preconceito, promover o fair play e o respeito mútuo e proteger os direitos humanos, o que é curioso porque a Copa do Mundo do Catar, alvo de diversas acusações de violação de direitos humanos e trabalhistas, acontecerá exatamente no meio do ciclo em que a entidade pretende fazer isso.

Tecnologia e regras

O monitor do VAR em Anfield (Foto: Getty Images)

O uso da tecnologia ganhou um objetivo próprio, com a Fifa comemorando a implementação do assistente de vídeo em seus torneios, mas também prometendo melhorá-lo e disseminá-lo. “Devemos focar particularmente em melhorar a comunicação em torno de incidentes do VAR, tornando a tecnologia acessível para todas as nossas associações, independentemente de seu tamanho ou recursos financeiros”, escreveu.

Também afirmou que, com “os avanços da tecnologia em um ritmo tremendo”, não há motivo para o futebol não explorar tecnologias emergentes que possam causar “impacto positivo ao jogo”, como inteligência artificial e tecnologia de sensores. E também utilizar “análises em tempo real e aplicativos de celular dedicados para melhorar a experiência geral de torcedores de futebol e no fim mudar o valor de entretenimento do jogo”.

Com o VAR, surgiram novas discussões em torno das regras do futebol, como mão na bola e impedimento, e a Fifa prometeu manter a mente aberta. “O futebol continua evoluindo, e as Leis do Jogo devem ser analisadas continuamente e otimizadas de acordo, respeitando as tradições do futebol. A promoção de táticas ofensivas deve guiar o processo, com o objetivo de melhorar a experiência do futebol – do ponto de vista esportivo e do entretenimento”, afirmou.