Depois de entrevistar 75 pessoas ao longo de um ano, o investigador independente Michael Garcia compilou um relatório com vários casos de irregularidades nos processos de candidatura da Rússia e do Catar à sede da Copa do Mundo. Essas informações não tiveram o efeito esperado porque apenas um resumo foi divulgado à imprensa e a Fifa não considera haver evidências o suficiente para abrir uma nova eleição. Ou seja, não deu em nada.

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Mas na última terça-feira, a entidade entrou com um processo na Justiça suíça para apurar casos pontuais de “transferência de capital” em bancos do país. Corrupção, no popular. Isso foi considerado uma mudança de postura e renovou um pouco as esperanças dos que esperam que o processo de candidatura seja reaberto, pelo menos para o Mundial de 2012. O problema é que não é bem assim. No jornal inglês The Independent, o jornalista Tom Peck explicou por que essa manobra da Fifa parece muito mais uma estratégia política do que realmente uma procura legítima e sincera pela verdade.

Michael Garcia criticou bastante o resumo que o juiz de ética da entidade Hans Joachim Eckert liberou para o público. Disse que estava incompleto e não refletia o que ele havia descoberto. Houve uma pressão muito grande para que o relatório completo fosse divulgado, o que chegou a ser considerado “impossível do ponto de vista legal” por Blatter. Na próxima quinta-feira, Garcia se reunirá com Eckert para exigir a publicação integral desse relatório, mas a Fifa ganhou um novo e forte argumento para se recusar: o documento precisa continuar sigiloso para não atrapalhar a investigação em andamento da Justiça.

Sem contar que muito dificilmente esse processo vai chegar a algum lugar. O procurador-geral da Suíça vai estudar os documentos, mas serão necessários muita força de vontade e tempo para ouvir os envolvidos de outros países. Ninguém será extraditado por causa disso. E a Fifa sabe quem são as pessoas citadas por Garcia, e uma possibilidade bem real é que sejam ex-dirigentes que votaram a favor do catar, mas já deixaram a entidade, como Ricardo Teixeira, Nicolás Leoz, Mohamed bin Hamman e Jack Warner.

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Essa atitude da Fifa tem tudo a ver com a forma como Blatter vem “combatendo” a corrupção desde que foi reeleito pela última vez, em um pleito manchado por compra de votos. Ele tenta passar a imagem de que tem um comitê de ética independente e combativo ao mesmo tempo em que garante que membros ativos e importantes não sofram consequências reais pelos seus erros.

Ainda parece muito difícil que o Catar mantenha a sede da Copa do Mundo até 2022, mas essa decisão, um atestado de incompetência da situação, não será tomada antes da próxima eleição presidencial, em 2015, porque poderia energizar a oposição a apoiar Jérôme Champagne ou Harold Mayne-Nicholls, que ainda precisam do endosso de federações. O cenário pode mudar se a Justiça suíça encontrar mais evidências que impliquem cachorros grandes da Fifa. E que essas informações sejam divulgadas para o público.

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