A Fifa fez um anúncio nesta quarta que tranquilizou muita gente. A entidade comunicou no seu site que desistiu da ideia de antecipar ter 48 seleções já na Copa do Mundo de 2022. Gianni Infantino, presidente da Fifa, forçava para que a ideia fosse adiantada de 2026, como previsto, para 2022, criando uma série de problemas, mas com apoio de várias confederações (como da Ásia, África e até a Conmebol). Felizmente, a entidade desistiu da ideia. Oficialmente, porque concluiu o estudo de viabilidade e viu que não era possível. Na prática, dá para dizer que desistiu porque era uma ideia estúpida e inviável no Catar, ainda mais com a situação política do país com seus vizinhos.

O Catar vive um bloqueio comandado por países vizinhos, especialmente a Arábia Saudita, em um grupo que ainda conta com os Emirados Árabes Unidos. A situação de tensão é grande e o bloqueio já causou muitos problemas. Gianni Infantino teve a cara de pau de dizer que a ideia de expandir a Copa para 48 seleções já em 2022 e dividir a sede do Catar com os vizinhos seria uma forma do futebol tentar intermediar uma melhor relação entre os países. Uma balela inacreditável e, acima de tudo, perigosa. Em março deste ano explicamos como essa ideia não só não ajudaria, como poderia aumentar as tensões.

A Fifa fingiu se importar com as tensões do Oriente Médio porque sabe que uma Copa com 48 seleções tem potencial, a curto prazo, de causar uma melhoria financeira muito grande, que é o grande objetivo. Sem falar em uma proposta conjunta que envolvia o Soft Bank, do Japão, e investidores da Arábia Saudita para gerenciarem a Copa do Mundo, o Mundial de Clubes e criar uma competição baseada na Liga das Nações, da Uefa, mas de caráter mundial. Contamos um pouco dessa suspeita relação entre Fifa e Arábia Saudita neste texto de novembro de 2018.

Vai além disso: a Fifa sabe que a questão da Arábia Saudita ser envolvida causaria um desconforto político que iria muito além do Catar. Isso para falar da maneira mais amena possível. Há outros fatores que a própria Fifa estaria em apuros: a questão de direitos humanos. A entidade incluiu no seu revisado e melhorado caderno de encargos pontos importantes sobre respeito a direitos humanos, uma espécie de garantia para impedir que países, vejam só, como o Catar, conquistem a Copa do Mundo, sendo grandes violadores de direitos humanos.

A Arábia Saudita, nesse sentido, seria ainda mais grave. É só lembrarmos que o jornalista Jamal Khashoggi, saudita e opositor ao regime do país, foi morto dentro da embaixada saudita na Turquia. Morto a mando do Estado Saudita. O país tem diversos problemas nesse sentido, que convenientemente são ignorados por aliados como, vejam vocês, os Estados Unidos. Por quê? Bom, você deve imaginar que deve ter a ver com um certo ouro líquido que é a razão de grande riqueza nos países ali do Oriente Médio.

As palavras da Fifa

“Em consonância com as conclusões do estudo de viabilidade aprovado pelo Conselho da Fifa em sua última reunião, a Fifa e o Catar exploraram conjuntamente todas as possibilidades de aumentar o número de participantes de 32 para 48 equipes envolvendo países vizinhos na Copa do Mundo da Fifa Catar 2022”, diz o comunicado da entidade que dirige o futebol mundial.

“Após um processo de consulta minucioso e abrangente com o envolvimento de todas as partes interessadas relevantes, concluiu-se que, nas circunstâncias atuais, tal proposta não poderia ser feita agora”, continua o texto da Fifa.

“Além disso, a Fifa e o Catar mais uma vez exploraram a viabilidade do Catar sediar um torneio de 48 equipes, em particular, reduzindo alguns dos principais requisitos da Fifa. Uma análise conjunta, a este respeito, concluiu que, devido à fase avançada dos preparativos e à necessidade de uma avaliação pormenorizada do potencial impacto logístico no país de acolhimento, seria necessário mais tempo e não poderia ser tomada uma decisão antes do final do prazo de junho. Por conseguinte, decidiu-se não prosseguir com esta opção”, informa ainda o comunicado.

“A Copa do Mundo da Fifa Catar 2022 permanecerá como planejada originalmente com 32 equipes e nenhuma proposta será apresentada no próximo congresso da Fifa em 5 de junho”, conclui a Fifa em seu comunicado.

O projeto do Catar

Há um fator importante dentro desse contexto todo. O Catar nunca gostou da ideia de dividir a Copa com vizinhos. Não só pelas graves questões políticas, mas especialmente porque não foi para isso que o país se candidatou. A Copa é um projeto do país que levou o Catar a investir bilhões em futebol – não só na Copa, mas em patrocínios de clubes, como o Barcelona, com a Qatar Airways na camisa do clube catalão, ou mesmo a Roma, que também leva a marca da empresa catari no peito, ou a compra do PSG, o maior de todos esses investimentos.

O Catar fez tudo isso porque considera a Copa uma grande oportunidade de vender o país ao mundo, especialmente se distanciando de uma imagem dos países do Oriente Médio. Aliás, essa é uma das reclamações de vizinhos, que consideram que as ações do país são muito em favor do Ocidente, inclusive na atuação dos seus órgãos de imprensa, como a Al Jazeera, que se tornou enorme ao redor do mundo, com coberturas relevantes, jornalisticamente falando, e em inglês.

A beIN Sports, braço esportivo, se tornou um canal relevante também na Europa, onde inclusive comprou os direitos de transmissão da Champions League, principal torneio de clubes do continente. A influência do Catar no futebol atual é enorme, seja direta ou indiretamente. Há vários jogadores e figuras do futebol comprados como embaixadores, como Xavi, ex-Barcelona, que foi jogar por lá, ou mesmo Zinedine Zidane, técnico do Real Madrid. Isso sem falar em Neymar, estrela maior do PSG.

O Fifagate que arrasou a Fifa

Isso tudo sem falar no contexto de suspeição que a vitória para sediar a Copa 2022 causou. Não podemos esquecer que o estopim para as investigações do Fifagate passou pela escolha das sedes para 2018 e 2022 realizada ainda em dezembro de 2010. Foi ali que as coisas começaram a degringolar para os dirigentes da Fifa, que se viram acuados, nos meses seguintes, por muitas denúncias de irregularidades no processo. Irregularidades que não foram provadas, é importante dizer, embora haja uma abundância de indícios suspeitos – o que causou a sensação de uma operação abafa por parte da Fifa.

Não é um acaso que grande parte daqueles dirigentes que faziam parte do Comitê Executivo da Fifa, que escolhia a sede das Copas, tenha saído de cena. Dos 22 membros, 14 foram indiciados por irregularidades de alguma natureza, muitas delas relacionadas ao Catar e recebimentos ilegais de dinheiro ou benefícios ligados ao país do Oriente Médio.

Entre eles algumas figuras bastante conhecidas por nós, sul-americanos, como Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, Nicolás Leoz, então presidente da Conmebol, e Julio Grondona, que morreu, mas foi revelado que participou de esquemas de corrupção depois de investigações do FBI.

O Fifagate causou prisões e muitas revelações importantes no futebol. O ex-executivo da Concacaf, o americano Chuck Blazer, foi arrolado pela justiça americanas por irregularidades de recebimento de propina e lavagem de dinheiro, em investigação da IRS (equivalente à Receita Federal do Brasil). Para amenizar sua pena, fez delações e foi usado pelo FBI e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos para coletar provas contra vários dos dirigentes que acabaram indiciados, julgados e presos.

Entre eles, José Maria Marin, que era presidente da CBF em 2015, além de outros dirigentes sul-americanos, como Nicolás Leoz, ex-presidente da Conmebol, Eugenio Figueredo, também ex-presidente da Conmebol. Marin, inclusive, está preso em Nova York, depois de ser condenado pela justiça americana por crimes de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, usando bancos e o sistema bancário americano.

Dias depois do acontecido, explicamos o que é o Fifagate e como ele aconteceu – e incluindo também um podcast especial com tudo sobre o Fifagate.

Parabéns por nada, Fifa

A ideia de 48 seleções na Copa de 2022 era completamente estúpida, até por toda a situação política e a própria geografia do país, minúsculo em dimensões territoriais. O que a Fifa deveria fazer é repensar toda a ideia de 48 seleções para uma Copa do Mundo, que tem potencial de causar mais problemas do que melhorias.

A curto prazo, a ideia de 48 seleções em 2026 pode parecer atraente, interessante até, comercialmente falando. Será um estouro, ainda mais com uma Copa do Mundo na América do Norte, com alguns mercados tão grandes como México, Estados Unidos e Canadá. É provável que a Fifa faça contratos de transmissão de TV e contratos comerciais com valores absurdos, como nunca fez antes.

Só que isso, a longo prazo, pode ter um efeito negativo. É necessário que a Fifa tenha uma escolha mais sensata de sedes – o que, aparentemente, está melhorado depois do processo de Rússia e Catar, até pelo medo que o Fifagate causou a partir de suas operações, em 2015. A Copa do Mundo pode perder parte do seu charme atual com 48 seleções, perder em nível técnico e até em competitividade. É algo a se pensar também em termos de fórmula do torneio. Até porque estamos falando de um torneio com grupos de três times, o que qualquer adolescente que faz tabelas dos seus campeonatos de videogame sabe que é estúpido.

A médio ou longo prazo, a Fifa pode tornar as Eliminatórias da Copa um produto muito menos atraente (e isso é muito importante para as próprias confederações) e tornar a Copa um produto bem menos atraente do que é hoje. E isso falamos como pessoas que acompanharão intensamente a Copa, seja como for. Só que não significa que deixaremos de falar de ideias que parecem pensar sempre mais no lado comercial e financeiro do que do lado esportivo, sendo que este segundo é que pode alimentar o primeiro, não o contrário.

Portanto, não tem nada de parabéns por terem garantido que a Copa de 2022 terá apenas 32 seleções, um número muito bom e com uma fórmula que parece a ideal para o Mundial de seleções. Não fez mais que a obrigação, Fifa. Vê se pensa no que está fazendo sua Copa com essa ideia de 48 seleções. Ainda dá tempo de mudar. Daria tempo até de mudar a Copa de 2022 do Catar, mas ali é muito rabo preso para mexer, né dona Fifa?