Foram muitos os problemas que a Fifa enfrentou com o Comitê Organizador da Copa de 2010, 2014 e já vem sendo assim com as próximas também, 2018 e 2022. Com a pressão que a entidade passou a sofrer em 2015, depois do escândalo Fifagate, a gestão de Gianni Infantino vem tentando mostrar-se mais transparente e promover as mudanças que eram pedidas. Uma delas é organização da Copa do Mundo. E, por isso, não haverá mais o COL a partir de 2026. Será a própria Fifa que assumirá o controle da organização da Copa do Mundo.

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Sempre houve um conflito com os COLs, sem falar em relações difíceis com os governos. O tal do padrão Fifa – que, diga-se, é superfaturado, incompetente e também elitista – foi colocado goela abaixo e os comitês locais aproveitaram para colocarem os governos na ponta da espada, ameaçando que sem isso a Copa não sai.

A Fifa muitas vezes se eximiu de responsabilidades que eram atribuídas a ela, como o Brasil querer ter 12 cidades na Copa. A Fifa queria entre 8 e 10, mas o COL da Copa 2014 queria 12, disse que era imposição da Fifa, mas não era. Era só uma forma de Ricardo Teixeira e o COL terem mais capital político para negociarem.

Depois que o Brasil foi escolhido como sede da Copa de 2014, Ricardo Teixeira se tornou mais popular entre políticas que Lula, o então presidente da República. As suas visitas às cidades candidatas a sediarem a Copa eram dignas de chefe de Estado.

É esse poder que parece perigoso demais. Aqui no Brasil, a coisa ficou ainda pior e a Fifa, que já tinha sentido a chapa esquentar na Copa de 2010, na África do Sul, percebeu que precisava ter mais controle. Bom, percebeu depois, porque Blatter não estava muito preocupado com isso.

Tanto que o Comitê Executivo escolheu, em dezembro de 2010, Rússia e Catar para sedes das Copas de 2018 e 2022, escolhas muito questionadas e que indicavam a política da entidade de negociarem a organização da Copa em lugares “menos democráticos”, como, certa vez, deixou escapar Jérôme Valcke, então secretário-geral da Fifa, falando sobre a Copa no Brasil. “Vou dizer uma coisa que é loucura, mas menos democracia às vezes é melhor para organizar uma Copa do Mundo”, foi a frase do francês.

Ainda não sabemos o quanto Gianni Infantino e a nova Fifa estão de fato comprometidos em reformar a entidade e tornar os processos mais transparentes de fato, como diz o discurso. Algumas mudanças são positivas, como a transformação do Comitê Executivo em Conselho da Fifa, mais amplo, mais diverso e, assim, também mais difícil de ser alvo de corrupção. Foram criados comitês de governança, finanças e desenvolvimento. Veremos ainda os resultados disso. Houve também a escolha de uma mulher negra e africana, de vasto currículo em organizações do porte da Fifa para ser a secretária-geral: Fatma Samoura, de quem falamos aqui.

Foi justamente a secretária-geral que falou sobre as mudanças de organização da Copa a partir de 2026. “Nós iremos organizar a Copa de 2026 por nós mesmos”, disse a secretária-geral da Fifa, Fatma Samoura, em entrevista ao diário russo Vedomosti. A dirigente fez questão de ressaltar, porém, que nada mudará em relação às Copas de 2018 e 2022, que já têm sedes definidas e, mais do que isso, Comitês Organizadores Locais que estão trabalhando nas Copas.

Para isso, a Fifa pretende criar um Comitê permanente de organização da Copa, com pessoas que são chave trabalhando nele, adicionando conhecimento local eventualmente. O núcleo, porém, será de funcionários do Fifa. Para isso, será feita uma transição começando entre as Copas de 2018 e 2022 para que, logo após a Copa do Mundo do Catar, os profissionais já comecem a trabalhar pensando na Copa seguinte.

“Nós não queremos criar uma nova estrutura do zero [para cada Copa do Mundo]”, afirmou Samoura. Segundo a dirigente, o processo será “difícil e custoso”. “Nós queremos ter um time permanente de profissionais que irão ter todas as competências como organização e combinar esta experiência com o conhecimento local”, explicou a secretária-geral da Fifa.

A ideia, segundo Samoura, é aumentar o “controle e efetividade”. Os Comitês Organizadores Locais foram muito criticados nas últimas edições das Copas, seja pela falta de eficiência, com enormes atrasos nos projetos de infraestrutura, seja até por denúncias de corrupção. Faz sentido que a Fifa, querendo fugir do rótulo de uma organização corrupta que existe há décadas – e foi comprovada no Fifagate – tenha mais controle sobre a organização da Copa e, assim, possa evitar problemas.

Fifa irá assumir também a venda de ingressos

Um outro ponto que já causou muitos problemas à Fifa – e deixou muita gente corrupta rica – é a venda de ingressos da Copa do Mundo. É uma dessas coisas que parece estúpido terceirizar, sendo que é altamente lucrativo. Ainda assim, era o que era feito antes. Samoura confirmou na mesma entrevista que a Fifa assumirá o controle da venda de ingressos também para 2026.

A Fifa de João Havelange e Sepp Blatter era mais política do que eficiente e o escândalo da ISL mostrou isso, molhando a mão de dirigentes com suborno para comprar os direitos de TV da Copa e vendê-los às emissoras do mundo todo. Foi nesse escândalo que Havelange e Ricardo Teixeira foram pegos recebendo propinas enormes e foram condenados na justiça suíça a devolver o dinheiro. Aliás, foi justamente esse escândalo que derrubou Teixeira da CBF e do Comitê Executivo da Fifa, e Havelange do COI, do qual ainda fazia parte.

Em um documento de outubro de 2016, a Fifa já tinha indicado que a intenção era trazer para a entidade o controle dessa venda de ingressos. O documento diz que a entidade iria “mudar o modelo atual para ter mais controle direto de operações críticas de negócio, incluindo os ingressos da Copa do Mundo e as atividades de organizar a Copa do Mundo”.