De vez em quando, a Fifa também acerta. Ela, afinal, precisa, vez ou outra, justificar sua própria existência. O acerto mais recente foi anunciado nesta terça-feira (11): a criação de um fundo de auxílio a jogadores com salários não-pagos. A iniciativa é uma parceria com a Fifpro, uma espécie de sindicato internacional de jogadores de futebol profissionais. Embora seja um bom primeiro passo, ele não vem sem seus poréns.

A Fifa irá destinar US$ 16 milhões a serem gastos até 2022 no fundo. Inicialmente US$ 5 milhões são para pagamentos retroativos, em relação ao intervalo entre julho de 2015 e junho de 2020. Depois, são US$ 3 milhões em 2020, US$ 4 milhões em 2021 e US$ 4 milhões em 2022. Este mecanismo passa a valer a partir de 1º de julho de 2020.

A parceria da Fifa com a Fifpro inclui a criação de um comitê de monitoramento para avaliar os pedidos feitos por jogadores ao fundo. A entidade máxima do futebol alerta, no entanto, que o fundo não irá pagar a totalidade dos salários dos jogadores, o que se dá para presumir com o orçamento destinado ao plano. Ainda assim, afirma a Fifa, ele pode agir como um mecanismo de amparo financeiro importante aos atletas.

A Fifa diz em comunicado que diversos relatórios nos últimos anos apontaram a proliferação de casos de salários não pagos a jogadores profissionais, com destaque especial a clubes que se reestruturam como equipes novas apenas para evitar salários pendentes. Algo que, em teoria, a entidade se encaminhou para resolver em seu último Código de Disciplina, publicado em 2019.

Um dos itens prevê que sucessores esportivos de uma equipe em dívida também assumem a dívida, contanto que alguns critérios sejam observados: sede, nome, forma jurídica, cores do time, jogadores, acionistas e proprietários.

Philippe Piat, president da Fifpro, disse que “mais de 50 clubes em 20 países fecharam nos últimos cinco anos, afundando centenas de jogadores em incerteza e dificuldades. Este fundo irá fornecer um apoio valioso a esses jogadores e suas famílias em maior necessidade. Muitos desses clubes fecharam para evitar pagar salários pendentes, imediatamente se reestruturando como supostos novos clubes. A Fifpro há muito tempo faz campanha contra esta prática inescrupulosa e agradece à Fifa por combatê-la em seu Código Disciplinar”.

A criação do fundo de amparo aos jogadores é um avanço interessante. Embora atletas das principais divisões mundo afora costumem ganhar muito bem, uma parcela muito grande já vive com pouco. No Brasil, por exemplo, a CBF revelou, em fevereiro de 2016, que 82,4% dos jogadores recebiam até R$ 1 mil. Quatro anos se passaram, mas dificilmente o valor mudou significativamente de lá para cá.

Mesmo com este contexto, não deixa de ser curioso observar que uma organização lucrativa como é a Fifa tenha designado um valor relativamente tão baixo a um mecanismo essencial ao futebol – e que já deveria ter sido criado há muito tempo.

O último relatório financeiro publicado pela entidade, abrangendo o ano de 2018, apontou que ela arrecadou, só naquele ano de Copa, US$ 4,6 bilhões, com gastos de US$ 2,8 bilhões e com US$ 630 milhões em caixa.

Além disso, consequências mais efetivas a clubes devedores ainda são bastante bem-vindas, visto que a prática passa longe de ser coisa do passado, mesmo em clubes tradicionais e com condições de se organizar financeiramente a fim de evitar a inadimplência com seus funcionários.