Fifa bane pelo resto da vida o presidente da federação haitiana, que abusava sexualmente de jogadoras

Presidente da federação de futebol do Haiti, Yves Jean-Bart foi banido pelo resto da vida de atividades relacionadas ao esporte, em decisão anunciada pela Fifa nesta sexta. O dirigente foi considerado culpado pelo comitê de ética da entidade, após denúncia de que ele usava sua posição para assediar e abusar sexualmente de jogadoras do país, inclusive menores de idade. Além do banimento, Jean-Bart precisará pagar uma multa de 1 milhão de francos suíços – equivalente a R$5,9 milhões, na cotação atual.

Segundo uma investigação publicada pelo jornal The Guardian, Jean-Bart coagia jogadoras em atividade no Centro Técnico Nacional a terem relações sexuais com ele, em denúncias feitas pelas vítimas e pelas famílias. Os casos vieram à tona em maio, com a Fifa determinando duas suspensões temporárias, até que o comitê de ética da entidade concluísse suas próprias investigações. Nesta sexta, veio o posicionamento final. A FIFPro, entidade que representa os futebolistas profissionais ao redor do mundo, vem oferecendo assistência às atletas. As vítimas receberam ameaças de morte após as revelações.

Jean-Bart, de 73 anos, presidiu a federação do Haiti desde 2000. Médico e jornalista, ele se promoveu no futebol através do principal time feminino haitiano nos anos 1970. O dirigente esteve envolvido em momentos importantes do futebol local, como o chamado “Jogo da Paz”, que contou com a visita da seleção brasileira ao país. Dadou, como é conhecido, também chegou a presidir a União de Futebol do Caribe. Também foi membro do comitê permanente da Fifa. Em 2016, o cartola foi reeleito ao seu quinto mandato à frente da federação.

“A câmara de julgamento do comitê de ética independente considerou Yves Jean-Bart culpado por ter abusado de sua posição e assediado e abusado sexualmente de várias jogadoras, incluindo menores, em violação ao código de ética da Fifa. Os procedimentos éticos fazem parte de uma extensa investigação sobre Jean-Bart, bem como sobre outros funcionários da federação, que foram identificados por um suposto envolvimento (como participantes, cúmplices ou instigadores) com os atos de sistemático abuso sexual de jogadoras entre 2014 e 2020. O processo está pendente em relação aos outros dirigentes da FHF”, concluiu a Fifa.

O presidente da FIFPro, Jonas Baer-Hoffmann, destacou: “Essa decisão da Fifa é a prova de força e bravura das jogadoras que arriscaram muito para proteger as futuras gerações de meninas e meninos, defendendo sua dignidade e o direito de jogar futebol livre de abuso. Estamos em seu apoio e de todos os jogadores que lutam por justiça. O mundo do futebol tem uma grande dívida com esses homens e mulheres, e precisamos pagar não apenas vendo a justiça sendo feita no Haiti, mas também assegurando uma mudança sistêmica no mais alto nível. O banimento de Jean-Bart deve ser apenas o início. Continuaremos apoiando as investigações da Fifa para assegurar que todos aqueles que abusaram de suas posições no Haiti sejam responsabilizados”.

Jean-Bart promete recorrer da decisão e acionar o Tribunal Arbitral do Esporte. Segundo seu porta-voz, a decisão da Fifa é uma “caricatura de justiça e um movimento político para evitar mais polêmica depois de uma série de escândalos na entidade”. Jean-Bart também foi investigado pelo sistema jurídico do Haiti, que inocentou o dirigente, em decisão anunciada nesta quinta – segundo o Guardian, uma tentativa de esvaziar a denúncia à Fifa. A embaixada dos Estados Unidos, contudo, lamentou publicamente a posição tomada pela justiça haitiana.

Uma das testemunhas do julgamento da Fifa foi Antoine Doret, que trabalhou por 12 anos como diretor técnico do centro de formação haitiano. Ele afirmou ter presenciado Jean-Bart abusando sexualmente de jogadoras menores de 18 anos. “Dadou tira proveito da pobreza delas. Essas garotas e suas famílias são muito pobres. O futebol muitas vezes é a única maneira de conquistar algo na vida”, declarou. Conforme a Deutsche Welle em outubro, Jean-Bart seguiu comandando a federação, apesar da suspensão temporária da Fifa. O veículo também recebeu denúncias de que ele continuava frequentando os dormitórios das jogadoras.