“Woo-hoo, When I feel heavy metal / Woo-hoo, And I'm pins and I'm needles / Woo-hoo, Well I lie and I'm easy / All of the time but I'm never sure why I need you / Pleased to meet you”. Os mais aficionados pelo futebol virtual — e, claro, os amantes da música — fatalmente conhecem esse refrão. Trata-se da música “Song 2”, parte do quinto álbum da banda inglesa de rock alternativo Blur, divulgado em 1997. Canção essa que se consagrou na Europa e na América graças ao game futebolístico de maior impacto até então, responsável por mudanças na maneira de se produzir um jogo desse calibre e, de quebra, arrasando a concorrência existente até então. Claro que o game em questão é o famoso FIFA 98.

Uma das provas de que o jogo da EA Sports foi revolucionário está justamente na escolha da trilha-sonora. Tratava-se do primeiro jogo da série a contar com músicas oficiais e licenciadas. Atitude essa que seria repetida nos demais jogos da série e, posteriormente, em outros games do ramo — vide participação da banda Queen, no Winning Eleven 6, como recorda o colega jornalista Alexei Barros. Ainda assim, foi em FIFA que essa utilização ficou marcada, especialmente nessa versão 98, visto que, por exemplo, em FIFA 99, a música “Rockfaller Skank”, do Fatboy Slim, já era conhecida quando o jogo chegou às lojas. De lá para cá, bandas e cantores, alguns até desconhecidos do público em geral, já fizeram parte das trilhas de algum FIFA, pela expansão que o jogo e a série tiveram ao longo dos anos.

Mas é óbvio que não foi a música que bombeou FIFA 98 ao topo, e sim as mudanças que o jogo sofreu e que o tornaram um dos mais populares — quiçá o mais popular — da franquia. Mudanças essas que atingiram a parte gráfica, a jogabilidade, a Inteligência Artificial (IA) do computador e a base de dados do produto. No Brasil, o sucesso foi avassalador, o que pode ser medido em algumas conseqüências para o FIFA 99, que, pela primeira vez, tinha o idioma Português — do Brasil —, entre os selecionáveis, além de uma versão especial com mais clubes brazucas além dos oito que estavam nas versões iniciais (que remetiam aos oito primeiros colocados do Brasileirão de 1998).

As alterações visuais foram as mais perceptíveis. Agora, podia-se escolher um estádio oficial, dentre 16 disponíveis — inclusive o Maracanã. Além disso, para o modo amistoso, há também o divertido ginásio para futebol de salão, melhorado em relação a versão 97 (que, na verdade, mais parecia um campo de hóquei adaptado). Ao mesmo tempo, nota-se também que os traçados dos jogadores são muito mais bem feitos e tridimensionais que os das versões antecessoras. Juntando ambos os fatores, o visual que o jogador teria na tela de seu vídeo-game ou computador era muito mais aprazível e próximo da realidade que o usual. O que, por si só, já aumentava a gana para se divertir.

Mas um jogo, para fazer sucesso, não pode apenas ser bonitinho. Os FIFA anteriores, apesar de ter gráficos mais evoluídos, decepcionavam em suas possibilidades de gameplay. O nível de desafio não era muito trabalhado, visto que, anteriormente, o game possuía apenas os usuais modos de jogo, como liga e campeonato. E só. FIFA 98, apesar de não fugir muito disso, modificou ambos os tipos de disputa. Se o modo liga, agora, permitia apenas competições entre clubes (as versões anteriores tinham liga de seleções), foram instituídas outras miscelâneas, visando tornar essas ligas mais interessantes, como uma tabela de artilheiros e a possibilidade de contratar e vender jogadores ao longo do torneio.

Mas espere! Isso já não estava disponível em FIFA 97? Sim, mas com ressalvas. Em FIFA 97, podia-se fazer a contratação que se desejasse, sem controle. Ocorre que a navegação nos menus era sufocante, e restrita ao pré-jogo. Na edição 98, o menu está mais objetivo, e, para tornar o jogo mais interessante — e trabalhar com a criatividade e com o raciocínio do jogador —, cada equipe passou a ter um valor “xis” inicial para transferências. Vale um comentário, no entanto, para destacar como o futebol inglês estava desvalorizado. Afinal, o Manchester United tinha em caixa 6 mil libras para torrar. “Apenas” o dobro, por exemplo, do São Paulo, que tinha cerca de 3 mil. É mole?

E nos campeonatos? O que mudou? Aí está uma das principais alterações do game, e que aumentaram seu desafio. Agora, ninguém tinha mais vaga garantida no usual modo Copa. Se quisesse jogar o Mundial, teria que passar o sufoco do time de Dunga (na verdade, de Zagallo, mas que, na “vida real”, não disputou a seletiva pelo fato de o Brasil ser o então campeão do mundo) para conquistar uma vaguinha na França. Instituiu-se, então, o modo “Road to the World Cup”, e que reunia, simplesmente, TODAS as seleções afiliadas ao órgão máximo do futebol internacional, de Brasil a San Marino, de Argentina a Ruanda, e por aí vai.

Com a sua cara

Como se sabe, em uma eliminatória normal, é comum que o treinador faça muitos testes, em busca do onze ideal. Em FIFA 98, isso pode ser feito, e é mais um ponto positivo a favor do game (que, curiosamente, não se repetiu nos seguintes). Dando mais poder a seu usuário, o jogo da EA Sports permitia que o próprio jogador fizesse a sua relação de convocados. Obviamente, uns países com mais opções, outros com menos. Tudo dependia de quantos atletas, à ocasião, atuavam nas ligas disponíveis pelo game. O Brasil estava privilegiado, com uma lista que ultrapassavam os 100 nomes. Portanto, se você não queria ver Dunga, Bebeto ou Edmundo no time, mas estava interessado em dar uma chance a Dodô, Pachequinho ou Caio (ex-Santos), divirta-se!

A adequação do game ao bel prazer do jogador não diz respeito apenas a seleção dos cyberatletas a usarem a camisa amarela do Brasil. Amarela? Por que não vermelha? Ou verde? Outra iniciativa diz respeito justamente à customização total das equipes, variando desde o nome, passando cor do uniforme e mesmo pelo design do traje, chegando também às cores. Além disso, também pode se modificar o nome e a aparência dos jogadores, permitindo, porque não, ver a você mesmo marcando um gol no San Siro, pelo Milan, em um clássico contra a Juventus, por exemplo.

Mas, é claro, nem todo o jogo, por mais querido que seja, é perfeito. E FIFA não foge a regra, devido a alguns bugs bizarros que o jogo, especialmente em sua versão para Nintendo 64 (quem já jogou pode lembrar muito, mas muito bem), possui. Quem nunca viu o goleiro sofrer um gol do meio de campo, com a bola passando entre suas pernas ou mãos, após um chute medíocre? Ou então, quando o arqueiro se estica para agarrar a bola, e o faz totalmente fora da área, dando direito a um tiro livre – aliás, um dos lances mais perigosos e propensos a bugs (esse último, principalmente na versão para PCs)?

Esses pequenos defeitos, apesar de, por muitas vezes, parecerem cômicos, já foram bastante criticados. E corrigidos, já que, ao que parece, a EA Sports acordou. Afinal, a versão 99 de FIFA e mesmo o World Cup 98, lançado em meio à preparação para a Copa do Mundo, já tinham isso bastante reduzido.

Mercado

O conjunto de novidades em relação às versões anteriores derrubou os rivais — inclusive o saudoso International SuperStar Soccer, que, mesmo nos consoles da Nintendo, penou para se igualar ao jogo da EA Sports. Curiosamente, a partir de 98, a Konami, produtora de ISS, investiu forte em seus jogos futebolísticos para Playstation (onde FIFA reinou com ampla folga em relação aos jogos da empresa japonesa), de olho na concorrência. Seria a partir daquele momento, inclusive, que a Konami daria real início à rivalidade com a produtora de FIFA. Outra prova desse sucesso? Ainda no Natal de 1997, o jogo foi campeão de vendas na Europa, superando, por exemplo, Tomb Raider II, com 135 mil vendas.

Além disso, em 1998, em artigo publicado no site Gamasutra (sim, é isso mesmo), especializado no mercado de games, David Jenkins conta que, na Inglaterra, FIFA estava começando a ser deixado para trás pela série Actua Soccer, e que, na ocasião do lançamento de sua versão 98, a EA Sports mandou poucas provas do game para a imprensa. A Gremlin Interactive atacou, dizendo que a empresa americana estava com medo de ficar frente a frente com Actua Soccer 2. Nada ficou provado, mas é fato que, como supracitado, FIFA 98 “goleou” os rivais e deu gás para a série se destacar nos anos seguintes. Já Actua Soccer viu sua segunda versão ser a última de sucesso, e disse adeus ao mercado.

Rivalidade

Como se viu, a série FIFA, por ser a mais tradicional do futebol virtual, já reuniu várias rivalidades. Uma das mais interessantes é, certamente, fruto dos primeiros “embates” com a Konami, nos 16-bits. Para a próxima coluna, o assunto será o histórico International SuperStar Soccer. Os mais saudosos que se cuidem!