De um lado, um Real Madrid fragmentado, com a alma frágil e buscando a sua nova identidade após vender dois dos jogadores mais importantes do título europeu. Do outro, o mesmo Atlético de Madrid brigador e organizado que vimos na temporada anterior, reforçado pontualmente pelo comandante Diego Simeone. A lógica apontava para uma vitória colchonera, mesmo que o Atlético historicamente tenha problemas no Santiago Bernabéu. Mesmo que o primo pobre cada vez mais rico da capital nunca tivesse vencido o maior rival fora de casa em duas edições seguidas do Campeonato Espanhol.

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Como dizem, tabus e jejuns existem apenas para serem quebrados, e o futebol, embora frequentemente ignore a lógica, também consegue apresentar o que esperamos dele. Com uma atuação quase impecável, o Atlético venceu o Real Madrid por 2 a 1, gols de Tiago e Arda Turan, e aprofundou a crise que vive o time dirigido por Carlo Ancelotti.

O apostador prudente estuda o retrospecto dos times que vão se enfrentar antes de arriscar o seu dinheiro, e a aposta mais segura nessa partida era que o Real Madrid sofreria um gol de bola aérea. Essa foi, afinal, a principal arma do Atlético de Madrid na última temporada, e o Real mostrou muita fragilidade em bolas cruzadas na rodada anterior, quando sofreu uma virada vexatória da Real Sociedad. Naquele mesmo final de semana, o Atlético mostrou que continua afiado na bola parada e venceu o Eibar graças às cabeças de Miranda e Mandzukic. Logo aos 10 minutos do dérbi no Bernabéu, Koke cruzou fechado na primeira trave, e Tiago desviou para o fundo das redes.

Diante da perspectiva de agravar uma crise de tamanho espantoso para quem foi campeão europeu há quatro meses, Carlo Ancelotti perdeu o pudor de apelar. Como aquele garotinho que só usa golpes especiais no jogo de luta do fliperama, juntou seus dois principais valentões para intimidar o lateral esquerdo do Atlético de Madrid. Guilherme Siqueira, 28 anos, brasileiro de Florianópolis, viu-se frente a frente com Gareth Bale e Cristiano Ronaldo. Koke, o meia pela esquerda da segunda linha de quatro de Simeone, precisou limitou a sua capacidade de armar o jogo para ajudar o companheiro na marcação. Não foi o suficiente.

Cristiano Ronaldo fez jogada clássica de ponta direita, pedalando e buscando a linha de fundo, e foi derrubado por Siqueira. Cobrou perfeitamente, sem chances para Moyá. E provavelmente, se tivesse uma chance, Moyá defenderia. Esteve seguro e afiado o primeiro tempo inteiro. A melhor defesa veio depois de novo lance de Cristiano Ronaldo pela direita, quando o cruzamento encontrou a cabeça de Benzema, à queima-roupa, e o goleiro espanhol espalmou para o lado. Mesmo longe do seu habitat natural, o lado esquerdo, o português era o melhor em campo.

Parecia claro que o roteiro levaria o Real Madrid à virada e a mais uma vitória no Santiago Bernabéu sobre o rival, que ficou 14 anos sem vencê-lo pelo Campeonato Espanhol. Mas houve uma reviravolta no filme. O time da casa baixou a intensidade e entraram personagens novos nos lugares de dois que já estavam desgastados. Raúl Jiménez e Gabi foram substituídos por Griezmann e Arda Turan.

O Atlético melhorou bastante e voltou a equilibrar a partida. Em pouco tempo, era o melhor. E não poderia ter sido mais simbólico o gol da vitória de uma equipe organizada e coesa sobre outra que esteve nesse mesmo patamar há pouco tempo e decidiu se desmontar. Uma troca de passes pela direita deixou Coentrão desnorteado e Juanfran livre. Veio o cruzamento rasteiro, e Raúl García iludiu todo mundo com um corta-luz espetacular. O chute no canto direito de Turan foi quase uma tacada de sinuca.

Apenas o tempo de trabalho e a maturidade de jogadores que atuam juntos há alguns anos explica uma jogada tão bem coreografada e uma vitória com tanta autoridade. Simeone manteve a sua filosofia e usou o dinheiro da venda de Diego Costa para ganhar elenco. Os resultados estão parecidos. Florentino Pérez vendeu Di María e Xabi Alonso, dois pilares do título europeu, para colocar o clube nas manchetes. Conseguiu, mas os resultados desapareceram.

Destaque do jogo

O goleiro Jan Oblak parecia ter sido contratado para ser o titular, mas as atuações de Moyá nas primeiras partidas da temporada impediram Simeone de fazer essa substituição. E essa aposta mostrou-se acertada. O espanhol fez pelo menos duas ou três grandes defesas contra o Real Madrid e mostrou segurança a partida inteira.

Moyá foi o destaque da vitória do Atlético de Madrid (Foto: AP)
Moyá foi o destaque da vitória do Atlético de Madrid (Foto: AP)
Momento chave

Aos 39 minutos do primeiro tempo, Cristiano Ronaldo caiu pela ponta direita e cruzou na cabeça de Benzema. A finalização foi boa, para baixo e no canto, mas Moyá estava esperto para espalmar. Tivesse conseguido a virada antes do intervalo, o Real Madrid teria mais tranquilidade para controlar o jogo e dificilmente o Atlético de Madrid conseguiria reagir.

Os gols

10’/1T – GOL DO ATLÉTICO DE MADRID! Escanteio. Koke cobra fechado na primeira trave, e Tiago desvia para o fundo das redes.

26’/1T – GOL DO REAL MADRID! Cristiano Ronaldo entra na área pela ponta direita, pedala e busca a linha de fundo. Guilherme Siqueira dá um toquinho nas pernas do português e o derruba. A cobrança do camisa 7 foi perfeita, na lateral da rede.

31’/2T – GOL DO ATLÉTICO DE MADRID! Juanfran cruza rasteiro, Raúl García faz o corta-luz e Arda Turan completa no canto direito de Casillas.

Curiosidade

Foi a primeira vez na história que o Atlético de Madrid conseguiu vencer o Real Madrid em duas temporadas seguidas do Campeonato Espanhol no Santiago Bernabéu.

Ficha técnica

Real Madrid 1 × 2 Atlético de Madrid

Local: Estádio Santiago Bernabéu, em Madrid (ESP)
Árbitro: Mateu Lahoz
Gols: Tiago (10’/1T), Cristiano Ronaldo (26’/1T) e Arda Turan (31’/2T)
Cartões amarelos: James Rodríguez, Arbeloa, Javier Hernández e Luka Modric (Real Madrid); Diego Godín, Guilherme Siqueira, Mario Mandzukic, Gabi, Miranda, Mario Suárez e Koke (Atlético de Madrid)
Cartões vermelhos: Nenhum

Real Madrid
Iker Casillas; Álvaro Arbeloa (Raphael Varane, 32’/2T), Pepe, Sergio Ramos e Fábio Coentrão; Toni Kroos, Luka Modric, James Rodríguez, Gareth Bale (Isco, 27’/2T) e Cristiano Ronaldo; Karim Benzema (Javier Hernández, 18’/2T). Técnico: Carlo Ancelotti

Atlético de Madrid
Moyá; Juanfran, Miranda, Diego Godín e Guilherme Siqueira; Tiago, Gabi (Arda Turan, 16’/2T), Raúl García e Koke; Raúl Jiménez (Antoine Griezmann, 19’/2T) e Mario Mandzukic (Mario Suárez, 33’/2T). Técnico: Diego Simeone

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