A Atalanta conseguiu um feito que pode ser descrito quase como um milagre nesta Champions League. Depois de perder seus três primeiros jogos, conseguiu a classificação na última rodada, com uma vitória por 3 a 0 sobre o Shakhtar Donetsk na Ucrânia, que leva o time às oitavas de final na sua primeira participação no torneio. É a primeira vez que um time consegue o feito desde que a Champions League passou a ter o formato atual, em 2003.

O fato de ter entrado na última rodada como lanterna e ter conseguido a classificação de forma emocionante fez os torcedores delirarem e nos ajuda a dimensionar que mais do que apenas camisas pesadas e times ricos, a principal competição da Europa também traz muito significado em cada jogo, em cada vitória, em cada pequeno sucesso.

O único clube que tinha conseguido algo similar foi o Newcastle, em 2002/03, quando também perdeu os três primeiros jogos, mas conseguiu a classificação. Só que naquela época, a fase de grupos classificava para uma nova fase de grupos. Foi para esta segunda fase de grupos que o Newcastle se classificou, e não para o mata-mata (os dois primeiros da segunda fase de grupos iam para as quartas de final, não havia oitavas de final).

“Foi uma luta dura e muito difícil no primeiro tempo, já que nós tivemos algumas boas chances e nós falhamos em aproveitarmos”, afirmou o técnico Gian Piero Gasperini na coletiva depois da partida. “Então, o Shakhtar criou suas oportunidades também, já que eles possuem muita qualidade e velocidade, mas felizmente foi tudo bem”.

“Estou muito feliz pelos rapazes, pela abordagem que eles tiveram. Nós sabíamos que se nós chegássemos à hora final e ainda estivéssemos no jogo, nós poderíamos conseguir. O time está completamente diferente da primeira partida, nós melhoramos em todas as áreas”, continuou o treinador, ressaltando a melhora do time ao longo dos primeiros seis jogos.

Gasperini foi perguntado quando ele começou a acreditar que a Atalanta poderia reverter o quadro totalmente negativo para se classificar. “No meio da campanha, nós acreditávamos, porque houve um empate no outro jogo [entre Shakhtar e Dinamo Zagreb]”, contou. “Quando nós empatamos com o Manchester City, o time estava claramente melhorando. Nós sentimos que o fato do Shakhtar ter marcado para empatar com o Dinamo Zagreb no minuto 98 foi um sinal do destino. É claro, o resultado do Manchester City esta noite em Zagreb também foi muito importante”.

Um dos problemas que o técnico precisou encarar ao longo de toda a fase de grupos foram os desfalques. Duván Zapata se machucou em outubro e ficará por meses afastado dos gramados, com uma lesão muscular no adutor. Nesta partida, a Dea ainda estava sem o meia Josip Ilicic e Rafael Tolói.

“Esta foi uma vitória do time da Atalanta como um todo no total. Nós podemos estar sem jogadores importantes, mas mantivemos essa crença em nós mesmos, esta qualidade na nossa abordagem. Nós somos sólidos, não importa o que aconteça”, disse o técnico.

“Eu também posso explicar que Simon Kjaer não estava machucada, a única razão que ele não veio hoje foi por minha decisão. Ele é um excelente jogador, mas tem dificuldades para interpretar nosso estilo de futebol. Ele tem outras características e eu o testei, mas não estava convencido”.

O treinador ainda falou sobre a entrada do brasileiro Roger Ibañez, ex-Fluminense. “Eu escolhi Ibañez para vir do banco porque eu não tinha outras opções, mas ele foi bem, exceto pela hesitação inicial”, afirmou o treinador.

Perguntado sobre quem Gasperini queria enfrentar nas oitavas de final, o técnico preferiu elogiar todos os adversários. “Eles todos são muito fortes, não importa contra quem jogaremos. Nós não podemos cair com Juventus e nem Manchester City, mas todos os outros são excelentes também”, avaliou o técnico. “Honestamente, nós apenas estamos felizes em estarmos aqui e levarmos nossos torcedores a uma bela cidade para o jogo fora de casa”.

“Ficará na história do futebol e deste clube”

O capitão da Atalanta, o meia argentino Alejandro Gómez, mais conhecido como Papu Gómez, estava empolgado com a classificação do time. “É apenas incrível, não há palavras para essa sensação única que estou sentido neste momento”, afirmou Papu à Sky Sport Italia.

“Ficará na história do futebol e deste clube. Eu também acho que ficará muito tempo na memória de todos que estavam no estádio hoje à noite”, disse ainda o argentino. “Todos nós aqui na Atalanta vieram de origens humildes, ninguém aqui pode ser chamado de um jogador de classe mundial ou uma superestrela, mas nós atingimos este resultado com trabalho duro e sacrifício”.

“É similar à Atalanta dos anos 1990, quando a Dea estava sempre desafiando na Europa. Isso vem sendo construído, desde que terminamos em quarto na Serie A, este grupo tem uma abordagem muito precisa de futebol”, avaliou o camisa 10 da Atalanta.

“Pensavam que estávamos mortos e enterrados”

O goleiro Pierluigi Gollini foi um dos jogadores com atuação de destaque pelo time, importante para os resultados conseguidos na reta final que, em última instância, classificaram a equipe para as oitavas de final. “Foi uma partida incrível, nós estamos muito felizes e cansados”, disse o goleiro à Sky Sports Italia.

“Este tipo de alegria é difícil de descrever. Tudo parecia muito mal depois da nossa derrota por 5 a 1 em Manchester, todo mundo pensou que estávamos mortos e enterrados, mas nós dissemos a nós mesmos para apenas chegar a esta última partida ainda no páreo”, contou Gollini.

“Nós fizemos algo espetacular, uma noite mágica. Foi uma grande bagunça nos três primeiros jogos, nós fomos massacrados pelo Manchester City, mas ainda percebemos que podíamos competir neste nível. Nós não perdermos a nossa confiança, como indivíduos e como coletivo”.

“Esta classificação significa o mundo para a cidade de Bergamo, é única, é histórica. A ligação que o time tem com os torcedores e a cidade é verdadeiramente rara no futebol e esta classificação é uma recompensa para eles também. Nós estamos muito orgulhosos e felizes”.

“O dia mais importante na história da Atalanta”

A empolgação da Atalanta foi expressa não só pelos jogadores, mas também pelo CEO do clube, Luca Percassi. “É difícil acreditar, ainda não consigo entender o que alcançamos”, afirmou o dirigente.

“As chances estavam realmente contra nós, tínhamos uma chance muito pequena de avançar, e ainda assim conseguimos graças a um desempenho extraordinário”, continuou Percassi. “Foi emocionado assistir a Atalanta vencer em uma situação tão difícil. Eu estou muito feliz pelo meu pai Antonio, o presidente do clube, que é um torcedor da vida toda da Atalanta, e começou nas categorias de base do clube”.

A festa em Bergamo não tem hora para acabar. Uma das coisas mais emocionantes de quando lidamos com futebol e com clubes que não estão sempre na lista dos mais ricos do mundo é que eles entendem o valor de uma vitória, porque sabem o quanto significa cada uma das derrotas que sofreram antes.

Uma classificação às oitavas de final da Champions League pode não significar muito para o Barcelona, o Bayern de Munique ou até mesmo o Manchester City, atualmente – ainda que este último seja um membro mais recente desta elite europeia. Para a Atalanta, chegar às oitavas de final é colocar o seu nome na história. É competir com os gigantes, com orçamentos que são uma fábula perto do seu, e ainda assim chegar entre os 16 melhores da Europa. E na sua primeira participação na Champions.

Apreciar cada vitória, cada gol, cada pequeno triunfo, é uma das coisas que o sucesso de times menores mais nos ensina. Nem sempre se trata de título. No futebol, há muito o que comemorar em cada passo. Perdemos a nossa capacidade de apreciar isso quando estamos só olhando os times grandes. Que bom que temos uma Atalanta para nos lembrar de descer desse pedestal que olhamos competições como a Champions League.