A maior novela da janela de transferências chegou ao fim sem um final feliz para o seu protagonista. Neymar queria sair do PSG, fez força para isso e deixou clara a sua intenção aos dirigentes, como já tinha feito para o técnico. O Barcelona tentou, realizou algumas propostas e nenhuma delas foi aceita. Tudo, no fim, parecia uma estratégia dos donos do clube francês: estabeleceram um preço impagável e tornaram a transferência impossível. Ao fim do dia, a janela se fechou e Neymar ficou, mas isso não precisa ser ruim. Aliás, ao contrário: seguir em Paris é uma oportunidade que o craque brasileiro tem e que deveria aproveitar.

Desde que chegou ao Parc des Princes, Neymar pinta e borda. Jogou muita bola, inegavelmente, mas não conseguiu fazer o clube chegar ao seu principal objetivo, porque nos dois anos o brasileiro estava machucado no momento da onça beber água, na Champions League. Isso, porém, ele não tem controle. O que ele tem controle é a forma como ele agiu e, desde o começo, pareceu sentir-se maior que o clube, colocando-se não como um craque que puxa o time para cima, mas como um astro que quer ser tratado como dono do pedaço.

Foram vários episódios polêmicos: a briga com Edinson Cavani pela cobrança de um pênalti que não faria qualquer diferença para ele, mas que era importante para o uruguaio, prestes a quebrar um recorde de gols pelo clube; o desdém quando se machucou e voltou ao Brasil para se tratar, enquanto os companheiros se matavam em campo para tentar classificação na Champions League; o lamentável episódio da agressão ao torcedor na final da Copa da França, em maio de 2019, no último jogo da temporada, depois de uma atuação soberba em campo, apesar da derrota; disse, nas férias, que seu momento mais marcante no futebol foi a vitória sobre o PSG, nos 6 a 1 que eliminaram o time de Paris na Champions 2016/17, e a lista segue.

Em todo esse tempo, o PSG sempre pareceu dar tudo o que Neymar queria. Pagou € 222 milhões para tirá-lo do Barcelona, um dos clubes mais desejados em todo o mundo e onde o brasileiro tinha uma excelente relação com outros jogadores, tal como Lionel Messi e Luis Suárez, seus grandes amigos. Quebrou assim o recorde anterior de transferências, de € 105 milhões, pagos pelo Manchester United para levar Paul Pogba de volta a Old Trafford e saindo da Juventus.

O clube francês aceitou bancar a ele um salário exorbitante, que o transformou em um dos mais bem pagos jogadores do mundo. Deu a ele um poder descomunal – e que se estende, claro, à sua equipe. Montou um time forte, levando um nome tão pesado quanto Kylian Mbappé para atuar ao seu lado na capital. Nada disso foi o bastante e Neymar decidiu voltar para Barcelona. Querer, claro, ele pode. Realizar, porém, é outra história.

Neymar fez força. Pediu para ser negociado, se dispôs a colocar uma parte do dinheiro do bolso, algo que é especulado ser € 30 milhões, e aceitou ganhar muito menos para voltar a Barcelona. O Barça fez as propostas que tinha ao seu alcance, oferecendo jogadores para completar os € 222 milhões – que se tornaram € 300 milhões ao longo da negociação. Não houve acerto.

O PSG se recusou a negociar o seu jogador e tomar um prejuízo apenas para atender a um desejo do brasileiro. Os donos do PSG, da família real do Catar, se sentiram humilhados pelo comportamento de Neymar de forçar a sua saída. Quiseram, então, tornar o jogo duro. Mantiveram o brasileiro em Paris, a contragosto.

Para o PSG, é um reforço. Neymar é um craque e deve continuar ajudando o time. O brasileiro, por sua vez, pode ficar insatisfeito. Pode, mas não deve. Não só pelos motivos óbvios de ter um contrato em vigor até 2022, de receber um dos maiores salários do mundo do futebol e morar em uma capital europeia que é das cidades mais badaladas. Listamos motivos que podem transformar toda essa situação em uma oportunidade para Neymar se tornar um jogador maior, eventualmente até melhor.

Melhorar sua imagem dentro e fora do PSG

A janela está fechada e, na melhor das hipóteses para o brasileiro, Neymar terá que ficar no clube até janeiro de 2020. Se não quiser ficar parado até lá, precisa encontrar um caminho para voltar a jogar. E voltar a jogar pode ser um movimento pragmático, de alguém que continua querendo sair, mas entendeu que entrar em uma disputa com os donos do PSG é uma missão ingrata e que talvez acabe de forma amarga. Se a ideia for sair do clube na próxima temporada, Neymar precisa mudar completamente a relação horrível que tem com a diretoria depois desse episódio e mostrar serviço em campo.

O primeiro aspecto é tomar uma dose de humildade. Entender que os contratos assinados não são pedaços de papéis inúteis. Ir para o PSG foi escolher ser o principal astro de um projeto de Estado rumo à Copa do Mundo de 2022. Neymar se tornou o principal jogador do clube que é um símbolo do Catar e da sua gestão. Se divorciar disso não é tão simples e precisa convencer as pessoas com poder de liberá-lo. Ele nunca fez isso. Achou que sua vontade bastaria. Então, o primeiro aspecto será voltar a campo e tentar dar às pessoas que o contrataram o que elas queriam ao levá-lo para lá.

Para retornar de vez, Neymar terá que se concentrar no que melhor sabe fazer: jogar futebol. Ninguém duvida que ele é um craque. Mas ele terá que tomar cuidados extras: desviar de toda e qualquer polêmica, dentro ou fora de campo. Precisa retomar o trabalho com o grupo do PSG, deixando claro que está com a cabeça em Paris e que está disposto a jogar o que sabe em prol do time, e não de si mesmo. Para convencer a todos, sobretudo diretoria e torcedores, Neymar antes precisa melhorar sua relação com os companheiros.

Conseguir jogar, e jogar bem, ser importante para o time e não ter ataques de estrelismo, ou tomar atitudes que prejudiquem o time, fará Neymar reconquistar uma parte do respeito dos catarianos, que estão de saco cheio do brasileiro e seus caprichos. Só contornando essa péssima impressão atual que a diretoria do PSG pode, daqui a pouco menos de um ano, estar mais disposta a negociá-lo, em termos que sejam mais viáveis. Além disso, também pode tornar a sua contratação mais desejada, porque nesta janela, embora o Barcelona quisesse, havia uma enorme nuvem de desconfiança na Catalunha, seja entre os dirigentes, seja entre os torcedores.

Neymar conquistou o vestiário em Barcelona, que o queria de volta. Mas para voltar, ele precisará conquistar muita gente no PSG. A começar pelo elenco. E aqui vamos para o segundo ponto.

Elenco reforçado

O elenco do PSG melhorou nesta temporada. Chegaram os goleiros Sergio Rico, do Sevilla, que deve ser o reserva de Keylor Navas, trazido do Real Madrid. O costarriquenho já mostrou alto nível defendendo os espanhóis e, sendo titular na França, pode elevar o patamar do clube.

Na defesa, o PSG mantém um núcleo forte, com o capitão Thiago Silva e Marquinhos, dois brasileiros e seus companheiros também de seleção. Ainda há Thilo Kehrer na reserva, assim como Presnel Kimpembé, jogadores de potencial. Chegou ainda Abdou Diallo, do Borussia Dortmund, que também tem potencial, aos 23 anos.

O meio-campo, um setor que precisava de reforços, ganhou bons nomes. Vieram Idrissa Gueye, do Everton, um volante com índice de desarme muito bom e que chega para tomar a posição. Também aportaram Ander Herrera, que veio do Manchester United depois do fim do seu contrato, um meio-campo central que tem qualidade técnica de marcação e saída de bola para o ataque. Além deles, desembarcou também Pablo Sarabia, um meia ofensivo, que tem experiência e bons atributos técnicos. O time ainda conta com Marco Verrati, Leandro Paredes e Julian Draxler.

Por fim, no último dia da janela de transferências, Mauro Icardi foi a cereja do bolo, após outra das grandes novelas deste período. Ele trocou Milão por Paris para ser uma opção de extrema qualidade a Edinson Cavani, que está machucado no momento. Se une a uma lista de bons jogadores, como Ángel Di Maria e Kylian Mbappé, que pode justamente ser considerado um dos melhores atacantes do mundo no momento.

O elenco comandado pelo técnico Thomas Tuchel se tornou muito mais forte, com mais opções para tratar qualquer problema como solucionável. Até mesmo a ausência de Neymar, se for o caso. E, até por isso, o brasileiro precisará convencer os seus companheiros que pode ser alguém que agrega ao grupo, que pode elevar o futebol de todos eles. Pode ser o jogador que dá dezenas de assistências para Cavani, Mbappé e Icardi. Pode ser o grande craque de um time que é muito forte. Aquilo, afinal, que muitos esperavam que ele fosse em Paris. Conquistando o vestiário, será um excelente primeiro passo.

Reconquistar a torcida

A torcida precisará ser reconquistada e é absolutamente justo que assim seja. Você aceitaria no seu clube alguém que faz o que Neymar fez? Os torcedores olharão qualquer atitude do atacante com bastante desconfiança, também com todos os motivos. Por isso, ele precisa evitar qualquer problema que possa mostrar que ele não está comprometido com o clube. Nada de polêmicas em campo, discussões, pedidos de dispensa fora de hora. Será preciso falar menos e jogar mais.

Boas atuações farão com que os torcedores vejam que Neymar pode ser um jogador extremamente útil, mesmo que pense em sair do clube. Aliás, já se falava isso na temporada passada e ele foi bem em campo, teve atuações destacadas. Se mostrar mais disposição em jogar pelo time, reconquistará os torcedores para, assim, tornar também mais fácil que a diretoria também sofra menos pressão para mantê-lo a qualquer custo, como foi nesta janela.

Se voltar a ser querido (ou ao menos aturado) pelos torcedores, a situação diante da diretoria melhora. O clube pode se planejar para perdê-lo, mas também recebendo uma alta quantia por ele, fazendo um negócio que o Paris sinta que faz sentido para si, e não algo apenas para atender ao capricho do craque. A sua saída precisará ser diferente de todas as outras e, para isso, a torcida precisará ter outra opinião sobre o jogador daqui até o final da temporada, para que também não afete o valor no mercado.

Champions League

A Champions League segue sendo um objetivo do PSG, que está mais forte para isso. Caso Neymar consiga levar o time longe, eventualmente até mesmo ao título, poderá ganhar o aval para, enfim, seguir o seu caminho para onde quiser. Mais do que isso: estará valorizado para isso, poderá fazer com que a diretoria do Barcelona não seja pressionada apenas pelos líderes do elenco catalão, mas também por torcedores que veem no craque brasileiro uma possibilidade real de fortalecer o time. Sua imagem como atleta estará melhor, porque ele terá se destacado pelo que fez em campo, não por qualquer polêmica.

Ambição pessoal

Cristiano Ronaldo e Messi estão chegando à reta final das suas carreiras. Neymar está no seu auge, fisicamente, e pode, com uma grande temporada pelo PSG, se tornar novamente alguém visto como o próximo vencedor da Bola de Ouro. Podemos discutir a importância do prêmio, ou a sua supervalorização, mas de qualquer forma, pode ser um reconhecimento que ele espera ter, se assim quiser.

Tornando o PSG uma potência europeia, conquistando grandes vitórias e fazendo uma campanha de respeito, pode alçar o jogador a um novo patamar. Ainda é tempo e, se Neymar entender isso, poderá alcançar o nível mais alto do futebol mundial. Quem sabe, assim, conquistar um lugar na história como craque, e não como uma superestrela, uma celebridade que foi contemporânea de outros craques.