Ferrán Torres tem apenas 20 anos e só está começando no futebol, mas parece não ter problemas em tornar públicas quaisquer querelas que tenha nos bastidores. Depois de acertar com o Manchester City, o garoto, revelado pelo Valencia e que acaba de se despedir dos Murciélagos, deu uma entrevista controversa ao Marca, atirando para todos os lados em seu ex-clube e jogando o holofote até mesmo sobre o capitão da equipe, Dani Parejo.

“Depois de três anos, estou mais maduro e, mentalmente, mais forte. Porém, com 17 anos, não era o caso. Ele é um grande jogador, mas nunca tive uma relação com ele. Quando fui para o time profissional, com 17 anos, passaram duas semanas antes que ele dissesse um simples ‘bom dia’ para mim. Ele não foi um bom capitão comigo”, disse Torres, sem comedimento.

O novo jogador do City afirma que a situação apenas piorou depois da saída do técnico Marcelino García Toral, em setembro de 2019. Em sua fala, Torres faz referência ao período em que o treinador se desentendeu com o proprietário Peter Lim, e uma das razões seria que os alvos de transferências do comandante iriam brecar o desenvolvimento de duas jovens estrelas do conjunto valencianista, Kang-in Lee e o próprio Torres.

“O pior de tudo veio depois da saída do Marcelino, quando o Kang-in (Lee, outro jovem talento dos Ches) e eu fomos vistos como os culpados no vestiário, e eles pararam de falar conosco por semanas.”

Em sua versão mais detalhada daquele período antes do início da temporada, Torres afirma que aquele momento foi crucial para que ele começasse a visualizar seguir sua carreira em novos ares.

“Comecei a pensar sobre isso no verão passado, quando voltei cheio de esperanças depois de ganhar o Campeonato Europeu Sub-19 e o clube me disse pessoalmente, e ao meu empresário, que não contava comigo. Disseram-me literalmente que eu era o quinto ponta da equipe, que os reforços estavam chegando e que outros colegas de outras partes do campo estariam à minha frente. Foi um golpe muito duro para mim, embora o pior tenha sido que o clube também me colocou no mercado. O Valencia me ofereceu a todas as equipes da Espanha, e 12 clubes da primeira divisão, incluindo o Levante, além de um clube da segunda divisão, nos ligaram. Quando o clube me colocou no mercado, foi quando comecei a pensar em partir.”

Um outro ponto de contenção nesta saída de Torres do Valencia é o seu vínculo. Embora tivesse uma cláusula de € 100 milhões, o clube vendeu o jogador por apenas € 25 milhões, além de € 12 milhões em bônus. Isso porque seu contrato ia apenas até o fim da temporada 2020/21, e Torres poderia assinar de graça com outra agremiação a partir de janeiro de 2021. As tentativas de renovação aconteceram, embora tenham sido poucas – e, na visão de Torres, insuficientes.

O jogador revela que havia feito três exigências e que estaria satisfeito se duas delas fossem atendidas, “mas nenhuma foi”.

“Uma (das exigências) era que o Peter Lim (proprietário do Valencia) estivesse envolvido, para que eu soubesse que era importante para o clube. Outra era ser capitão, do mesmo modo como vi outros clubes fazerem com seus jovens, como o Oyarzábal (na Real Sociedad) ou o Fernando Torres (no Atlético de Madrid) para mantê-los. A terceira era que eu tivesse um dos maiores salários no clube.”

Embora afirme que suas demandas não estivessem acima da capacidade financeira do clube e ainda que fique claro que a tentativa ao falar sobre tudo isso é limpar um pouco sua imagem na saída do lugar em que foi formado, Torres acabou saindo um pouco mal na foto. Não só por expor problemas de relacionamento com um colega jogador, mas também pela aparente desconexão da realidade em sua demanda. Citando exceções, tentou ganhar no contrato o que normalmente se conquista por liderança e exemplo, a braçadeira de capitão.

A transferência que conseguiu no fim, para um clube do calibre do Manchester City, em uma liga poderosa como a inglesa e com um técnico que fala sua língua e costuma tirar o melhor de seus atletas como Guardiola, dificilmente poderia ser melhor. Mas agora Torres trouxe para si um desafio extra. A impressão que deixa na imprensa espanhola é de um jogador-problema. A solução, é claro, está em seus pés, dentro de campo.