Seja como lateral ou como volante, Fernando Ricksen sempre teve sua carreira caracterizada pelo espírito de luta. O holandês não era propriamente um craque, mas se tornou ídolo de grandes torcidas por sua interminável garra. Com 12 aparições pela Oranje, ele atravessou os melhores momentos da carreira no Rangers, onde foi até capitão. Também jogou por Fortuna Sittard, AZ e Zenit. Já em 2013, Ricksen precisou transferir sua luta a outro campo: recém-aposentado, o jogador revelou ter Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença degenerativa que ataca o sistema motor. A partir de então, o veterano se colocou como um símbolo da conscientização sobre o mal e recebeu diversos tributos por sua força. Nesta quarta, depois de seis anos de batalha, Fernando descansou. Aos 43 anos, ele faleceu na Escócia.

Ricksen começou sua carreira profissional em 1994, com a camisa do Fortuna Sittard. O volante despontou pelos alviverdes e ganhou uma chance de se juntar ao AZ em 1997. Foram três temporadas em Alkmaar, ajudando o clube a retornar à primeira divisão. Destaque da equipe, Ricksen viveu sua melhor temporada em 1999/00, com direito a nove gols pela Eredivisie. Ganhou suas primeiras convocações para a seleção holandesa pouco tempo depois, assim como se transferiu ao Rangers. Faria história no Estádio Ibrox a partir de 2000.

Ricksen não se firmou de imediato no clube e teve problemas disciplinares, inclusive com alcoolismo. Porém, o meio-campista conquistou a torcida com sua vontade contagiante. Virou um xerife dos Teddy Bears e recebeu a braçadeira de capitão. Deixou uma memória vitoriosa nos seis anos em que passou em Ibrox. Ricksen conquistou dois títulos do Campeonato Escocês, dois da Copa da Escócia e três da Copa da Liga Escocesa. Também foi eleito o melhor jogador do país em 2005. Foram mais de 200 partidas com a camisa dos Gers. Que não tivesse muitas chances na seleção, o clube escocês se transformou em sua nova nação.

A saída de Ricksen aconteceu em 2007, aos 30 anos, quando assinou com o Zenit. O volante permaneceu no banco dos celestes durante a maior parte de sua passagem, mas ainda assim deixou sua marca. Conquistou o Campeonato Russo e também a Copa da Uefa em 2007/08. Disputou três partidas naquela campanha, inclusive a semifinal contra o Bayern de Munique, mas não entrou no encontro com o próprio Rangers durante a decisão. Seu adeus ao clube aconteceu em 2010, quando retornou ao Fortuna Sittard para encerrar a carreira. Jogou até 2013, meses antes de revelar sua luta contra a ELA.

Um ano depois, Ricksen foi introduzido no Hall da Fama do Rangers. O veterano aproveitou sua visibilidade para encabeçar iniciativas de apoio a outros portadores de sua doença. Através da Fernando Ricksen Foundation, o holandês levantou fundos para a pesquisa sobre o tratamento da ELA. Em janeiro de 2015, aliás, a homenagem também se transformou em solidariedade. O Rangers organizou uma partida beneficente para o antigo capitão. As bilheterias foram divididas a diferentes causas, inclusive à filhinha de Fernando, nascida em 2011.

“Eu não estou certo sobre o quanto poderei conter as minhas emoções, mas estou tentando me manter forte e positivo, lutar contra essa doença. Será muito duro, mas a última coisa que quero é simpatia. Tive uma vida incrível e, quando entro em Ibrox, eu faço com minha cabeça erguida. Você precisa viver o agora e hoje eu quero aproveitar essa ocasião especial com tantos amigos e os melhores torcedores do mundo”, afirmou Ricksen, na época. Terminou carregado nos braços pelos antigos companheiros, numa emocionada volta olímpica.

Através de sua fundação, Ricksen doou mais de £1 milhão a pesquisas para combater a ELA. No último mês de junho, com a capacidade de interação limitada ao movimento dos olhos, ele enviou uma mensagem à ITV News: “O mundo do esporte pode colocar mais pressão sobre as companhias farmacêuticas. Essa doença não é lucrativa o suficiente, por isso não tem prioridade. Se amanhã houvesse uma epidemia, teríamos a cura em uma semana. É decepcionante, mas a realidade”.

Havia um interesse especial na história de Ricksen e o veterano continuou nos noticiários, sobretudo da Escócia, onde passou seus últimos anos. Já nesta quarta-feira, o seu falecimento gerou diversas manifestações. Todos os seus antigos clubes publicaram notas de condolências. Mesmo o Celtic deixou a rivalidade de lado e declarou seu luto. Os alviverdes haviam feito doações na época do jogo de homenagem ao holandês, em 2015. Além disso, os torcedores do Rangers criaram um memorial nos portões do Estádio Ibrox. Passaram a levar flores, cachecóis e outros objetos para exaltar a memória de seu antigo capitão.

“Fernando era um jogador fantástico. Ele teve uma carreira condecorada. Penso que ele jogava com o coração, ele era desse tipo. Isso foi demonstrado quando ele ficou doente em 2013. Recebeu 18 meses de vida e lutou muito até esse momento, então o que o resume é o seu caráter: foi um guerreiro dentro e fora de campo. Ele certamente merece todos as exaltações, não apenas pela maneira como se portou como jogador, mas, mais importante, como ser humano”, declarou Steven Gerrard, atual treinador do Rangers.

O Rangers entrará em campo nesta quinta-feira, no Estádio Ibrox. Pegará o Feyenoord, em sua estreia na fase de grupos da Liga Europa. Os escoceses solicitaram à Uefa que um minuto de silêncio seja respeitado em homenagem a Ricksen, enquanto o próprio elenco do Feyenoord levou flores nesta quarta ao memorial criado em Glasgow. Os tributos serão massivos. A idolatria que Ricksen experimentou em seus anos no Ibrox, afinal, se ampliou graças ao exemplo de vida que ofereceu depois de sua aposentadoria. Foi um gigante.