Prass viveu a consagração como ídolo em noite na qual assumiu a liderança como poucos

Para quem via de fora, a imagem antes do jogo podia não significar boa coisa. Era secar demais, colocar responsabilidade demais. Mas quem pensava assim não era palmeirense. Para o alviverde, aquela homenagem dimensionava pura e simplesmente a confiança depositada. Fernando Prass era uma das figuras representadas no mosaico feito pela torcida, ao lado da taça. E o veterano pagou pela idolatria. Fundamental no jogo de ida, com uma série de defesas importantes, o goleiro não trabalhou tanto durante os 90 minutos no Allianz Parque. Ainda assim, se tornou protagonista na disputa por pênaltis. A capacidade já conhecida em defender se confirmou. E se complementou com a nova, de converter cobranças. Selou a conquista do Palmeiras, ratificando sua importância no Palestra.

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Poucos times brasileiros possuem lembranças tão boas com seus goleiros. Os alviverdes têm a honra de cultuar gigantes. Os tempos pagãos incluem Oberdan Cattani, Valdir Joaquim de Moraes, Emerson Leão, Velloso, até a conversão que a maioria vivenciou em 1999, com os milagres que fizeram todos se tornarem testemunhas de São Marcos. Antes da aposentadoria da divindade, entre os martírios que Marcão sofreu com as lesões, Diego Cavalieri e Sérgio viveram bons momentos. Mas, nos últimos anos, nem sempre o Palmeiras teve um goleiro confiável. Foi preciso voltar ao inferno da Série B para contar com alguém de alto nível. Fernando Prass, o homem trazido não só para dar experiência àquele time, mas também para seguir honrando uma linhagem de grandes camisas 1.

A idade poderia ser um indicativo contra Prass. Aos 34 anos, naquele momento, não aludia longo prazo. Mas o que importava era a forma. E o goleiro demorou pouco tempo para justificar o respeito da torcida. Defesas essenciais que se repetiram em momentos importantes, apesar de algumas contusões atrapalharem. Alçado ao posto de líder desde o início, o veterano também tornou-se protagonista. No acesso em 2013, na manutenção na Série A em 2014, na boa campanha do Paulistão em 2015. Durante o estadual, Prass brilhou no clássico que costuma beatificar os santos alviverdes. Segurou o Corinthians em Itaquera e ainda salvou nos pênaltis. Só que, no fim das contas, não conseguiu ser campeão contra o Santos. Faltava uma taça, e algo maior lhe aguardava contra o mesmo rival.

Se o Palmeiras chegou ao Allianz Parque com chances reais de título, muito se deve ao que Fernando Prass fez na Vila Belmiro. O camisa 1 conseguiu ser o melhor em campo em uma partida na qual o Santos mandou. Foram ao menos três defesas essenciais. E, como costuma dizer o ditado, o bom goleiro ainda contou com a sorte, especialmente no pênalti que Gabigol cobrou na trave e na enorme chance desperdiçada por Nilson nos instantes finais. Deu motivos para ser homenageado no mosaico. O que, no fim das contas, até pareceu premonição.

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Na finalíssima, enquanto a bola rolou, Prass só realizou uma defesa difícil. O destino, no entanto, ainda lhe prometia ser grandioso. Quando a decisão por pênaltis foi confirmada, o palmeirense acreditava na vitória, porque tinha um ídolo sob as traves. E nem imaginava tanto assim, tal foi a surpresa quando o nome de Fernando Prass acabou anunciado como o responsável pela quinta cobrança do time. Demonstrava não apenas a sua importância, mas a maneira como assumia a responsabilidade em um cenário crítico. Certamente o camisa 1 se preparou para o momento. Sobre a linha, fez sua parte ao espalmar o chute de Gustavo Henrique. Pois o destino, caprichoso como só ele, ainda o aguardou no último chute. A diferença entre Vanderlei e “Van der Prass”, como a torcida alviverde gosta de chamar, estava ali. Mais do que primordial, como o goleiro do Santos na final, o veterano ainda se fez decisivo.

Por fim, a comemoração diante do Santos serviu também de desabafo a Fernando Prass. Durante todo o ano, os dois clubes acirraram a rivalidade, e muito por conta de um episódio envolvendo o goleiro. Os desentendimentos com Ricardo Oliveira ganharam diferentes capítulos. Nos finais, o veterano se deu melhor no duelo do velho oeste na Vila, com uma defesa monumental no mano a mano, mas levou dois tiros no Allianz Parque – fuzilado no gol derradeiro e na cobrança calma do rival na disputa por pênaltis. Todavia, sobreviveu e venceu. Desta vez, além de rir por último, quem fez careta por último fez melhor. E, da máscara de Rafael Marques ao rosto dos companheiros na premiação da taça, os palmeirenses apresentaram quem terminou com a glória, depois do menosprezo do artilheiro.

Prass ainda continuou como estrela da noite também na festa do título. Sua vibração em campo representava o espírito da maioria dos palmeirenses, honrando o escudo. Depois, puxou o microfone para comandar a comemoração junto com as arquibancadas. Mais do que uma pessoa influente no elenco, também possui hierarquia junto à massa alviverde. Algo que conquistou graças à postura dentro de campo e às entrevistas fora dele. Algo que não se encontra de modo tão fácil em outros clubes.

Aos 37 anos, o fim pode estar próximo para Prass. Mas o tempo costuma ser relativo. E, aos olhos do Palmeiras, o rei da camisa 1 ainda merece vida longa. Que seja por duas ou três temporadas, o veterano segue em excelente forma, o suficiente para transmitir segurança aos torcedores. O que acaba sendo também mais tempo para ampliar a sua idolatria no Palestra. Afinal, se os goleiros compõem um dos capítulos de maior destaque no passado do clube, Prass escreve uma das histórias mais especiais. Para ser lembrado por muito tempo, em especial pela noite mágica vivida no primeiro título do clube em seu novo estádio.


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