Ousado. Irresponsável. Bonito. Arriscado. Estilo. Loucura. O modo como o Audax joga ganha muitos adjetivos, dependendo de como se desenrola o jogo. Somos acostumados a analisar resultados e quando um time com uma proposta como a do clube de Osasco consegue sucesso, tentamos encontrar o que fez daquilo um sucesso. Depois de derrubar o São Paulo na semana passada, o Audax passou pelo Corinthians, nos pênaltis, em um jogaço em Itaquera. E fica a pergunta: esse é um estilo que pode dar certo em um time maior?

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A resposta não é simples, porque as condições que Fernando Diniz encontrou no Audax são muito particulares. Primeiro, fora de campo. A ousadia começa no presidente, que banca Fernando Diniz no cargo com o seu estilo de jogo, mesmo que em anos anteriores o time não tenha ido muito longe. Não importa, porque ao menos conseguiu manter-se na primeira divisão, o que, para um clube novo como o Audax, já é bastante coisa.

Vale também destacar que a pressão que existe no Audax é quase zero. Claro que há cobranças dentro do clube, mas o time não tem uma torcida numerosa, não é pressionado para ter resultados. Isso cria um ambiente propício para que Diniz, com o seu estilo de jogo, consiga extrair mais dos jogadores. O risco sempre existe, mas um erro em um time grande sempre acaba pesando muito para os jogadores. No Audax, nem tanto.

Assim, temos um ambiente que é favorável. Confiança da diretoria no treinador, que tem total liberdade de atuação, a ponto de poder, por exemplo, afastar o artilheiro do time por considerar que ele não estava fazendo bem ao grupo. Fernando Diniz fez isso neste ano. No dia 23 de março, saiu a notícia que Rodrigo Andrade, então artilheiro do Campeonato Paulista com oito gols, foi afastado e teve o contrato rescindido. O motivo? Uma briga com Fernando Diniz. O meia acabou acertando com a Chapecoense logo em seguida.

Abrir mão do artilheiro do time em meio ao campeonato é uma atitude também ousada. E que foi apoiada pela direção. Mais uma situação que é incomum no universo da maioria dos times. E isso não tira nenhum mérito do Audax, muito pelo contrário. Não ter torcida não é um fator positivo. O clube, então, teve a tranquilidade para permitir que Diniz fizesse o que acreditava.

Audax, em latim, significa “audácia”. Não poderia ser mais adequado. Não por acaso conseguiu bons resultados durante o campeonato. Venceu o Palmeiras, deu trabalho ao Santos e ao Corinthians, ainda que tenha perdido dos dois últimos. No mata-mata, atropelou o São Paulo. Neste sábado, contra o Corinthians, provou que não foi por acaso.

Mesmo jogando contra um time forte como o Corinthians, em Itaquera, onde o alvinegro tem um aproveitamento superior a 80%, o Audax manteve o estilo. Esteve na frente no placar por duas vezes. O Corinthians, mandante, teve que correr atrás para igualar o marcador. E nas duas vezes, o Audax marcou golaços de fora da área.

Nos pênaltis, qualquer um poderia ter vencido, mas foi o Audax que levou. Os jogadores do clube de Osasco mostraram uma tranquilidade imensa para cobrar os pênaltis. Coisa que o Corinthians não teve, com Fagner e Rodriguinho desperdiçando suas cobranças. O Audax do capitão Camacho, do habilidoso Tchê Tche e do técnico Fernando Diniz deixou o campo classificado.

O Audax é o time que mais trocou passes no Campeonato Paulista, com 8.191. O Corinthians, segundo colocado no quesito, trocou 7.950. Os dois jogadores que mais trocaram passes certos são do Audax e são os únicos a passar a barreira de mil: Camacho, com 1.113, e Bruno Silva, com 1.029. Depis vem Victor Ferraz, lateral do Santos, com 907. O quarto colocado? Tchê Tchê, com 864.

O time é também o time que mais finaliza certo, 106, contra 99 do Corinthians, segundo colocado também neste item. O time de Osasco é também quem mais fez assistências para finalização, 197, mais que o São Paulo, segundo colocado com 178. É um time que cria muitas chances no ataque. É também o time com menos faltas no Paulistão, com 188. O São Paulo é o líder em faltas cometidas, 263.

Tudo isso para dizer que o Audax teve uma ideia, bancou essa ideia até nos momentos ruins – há dois anos tomou 4 a 0 do São Paulo com erros na saída de bola – e vê o time enfrentar, de igual para igual, times com o Corinthians. Chega à final como azarão, seja contra Santos ou Palmeiras. E deixa uma ponta de dúvida em todos nós: será que o estilo Audax daria certo em um time grande?

As condições não seriam as mesmas, a pressão certamente seria diferente e sabemos que as diretorias dos clubes são covardes, em geral culpando o técnico por fracassos que são também seus. Seria difícil que houvesse paciência para erros no caminho, durante o processo, como houve no Audax. Mas Diniz também tenderia a conseguir acertar o time mais rápido, não só pela experiência que ganhou, mas pelos jogadores mais qualificados que teria à disposição. Ao menos em teoria. Mesmo assim, seria curioso ver.

Assim como Marcelo Bielsa, “El Loco”, Fernando Diniz faz seu time correr muitos riscos e jogar futebol, custe o que custar. A Bielsa, muitas vezes custou o resultado, a perda de títulos, os campeonatos. Foi assim em diversos times que o técnico argentino passou. Torcedores de um lado apreciam o estilo, mas de outro sentem calafrios ao verem o time correndo tantos riscos. Quanto tempo é possível insistir até dar certo? O Audax de “El Loco” Diniz apostou por três anos. E agora, chega à final do Paulistão.