Quando se fala em futebol inglês, o que você imagina? Possivelmente Premier League, a liga mais forte do mundo. Mas se alguém te perguntar qual é o estilo de jogo do futebol inglês, o que você diz? Talvez você pense em um 4-4-2 em linha, bolas longas, chuveirinho, o famoso kick and rush, mas esqueça, porque a Inglaterra não joga assim há muito tempo. Então, qual é o estilo do futebol inglês? É exatamente este questionamento que faz Rio Ferdinand, zagueiro do Manchester United, em entrevista ao jornal inglês Guardian.

Quando uma seleção espanhola joga, mesmo nas categorias de base, é fácil identificar só pelo estilo. Posse de bola, toques incessantes, paciência, pressão na saída de bola. São características comuns a qualquer seleção da Espanha. Rio Ferdinand disse que a Inglaterra vive um problema de identidade justamente por não ter um estilo de jogo e isso faz algum sentido. Se o estereótipo de bola aérea e pontas em velocidade do kick and rush não serve para mais descrever a Inglaterra, como saber qual é o estilo de jogos dos ingleses?

“Qual é a nossa identidade?”, afirmou Ferdinand. “Nós começamos a ver alguma coisa quando Glenn Hoddle estava no cargo (dirigiu a seleção inglesa entre 1996 e 1999), um pouco de identidade, um futebol que fluía, e você podia dizer que nós estávamos começando a ter uma ideia do padrão que nós queríamos no time”, analisou o jogador, que gosta de escreveu no seu Twitter. “Desde então, eu não acho que nós realmente vimos uma identidade que você possa dizer ‘esse é um time inglês’, que você posa olhar para o time sub-21 e dizer ‘esse é um time inglês’”, criticou o jogador.

“Você pode colocar um jogador sub-16 no time principal da Espanha ou Itália. Ele pode não ter os atributos em termos físicos e de velocidade, mas em termos de posicionamento, eu tenho certeza que ele sabe o que fazer, porque eles foram ensinados, dia a dia”, declarou Ferdinand. “Eu não acho que temos essa ligação entre o nosso time principal e os times sub-21 ou sub-17, ou entre o time sub-20 e o time principal. E acho que isso não é bom para a seleção da Inglaterra”, criticou ainda o jogador.

Ferdinand considera que os ingleses precisarão sacrificar o curto prazo para pensar no médio e longo prazo. “Eu ouço que temos um novo sistema sendo colocado em prática e que St. George’s Park (centro nacional de treinamento) é parte disso. O tempo irá dizendo o que está acontecendo”, analisou. “Eu não acho que há uma resposta certa para isso. Será necessário alguém com coragem para pegar essa questão pelo pescoço e dizer: ‘Isso é o que iremos fazer e nós iremos precisar de 10 anos para isso’. Nós talvez não nos classifiquemos para a Copa do Mundo ou Eurocopa, mas eu prefiro não classificar para um ou dois torneios sabendo que em 10 anos nós iremos ter uma identidade que todo mundo poderá identificar e dizer ‘Sim, isso somos nós’ e ficar orgulhoso disso”, disse.

Para Ferdinand, há jovens jogadores talentosos na Inglaterra, mas ele questiona a formação deles. “Há alguns jogadores de qualidade. Se você olhar só para o nosso clube: [Danny] Walbeck, [Phil] Jones, [Chris] Smalling, [Tom] Cleverley. Em outros clubes, você tem [Daniel] Sturridge, Jack Wilshere, [Alex] Oxlade-Chamberlain. Há muitos jogadores talentosos, mas eu acho que há um problema por anos em como colocar todos esses jogadores em um time que funcione”, explicou.

“Eu assisti o Mundial sub-20, tinha um garoto chamado Quintero jogando pela Colômbia, o modo como ele recebe a bola – você não vê jogadores jovens no nosso país fazendo isso. Eu posso nomear muitos outros jogadores, eles recebem a bola com jogadores em volta e manipulam a bola, protegem a bola – nós estamos ensinando esse básico do jeito que outros times estão?”, questionou Ferdinand.

O zagueiro considera que a pressão por resultados imediatos está impedindo o desenvolvimento de jogadores mais jovens. “Os garotos estão ganhando as oportunidades atualmente que nós tínhamos? Harry Redknapp [técnico do West Ham quando Ferdinand se tornou profissional] não tinha medo de me colocar. Seu trabalho não estava em jogo depois de dois ou três jogos se ele não vencesse. Mas as coisas estão muito diferentes agora, é arriscado e um técnico está pensando nele mesmo ‘eu quero continuar no seu trabalho, eu quero ter certeza que ficarei aqui três o quatro anos. Se eu trouxer aquele garoto e ele se atrapalhar algumas vezes… ’”, contou Ferdinand.

“Harry Redknapp me dizia: se você cometer um erro, não se preocupe, só não cometa o mesmo erro no jogo duas vezes. Ele queria que você aprendesse e que continuasse jogando futebol. Os jogadores têm esse tempo agora? Os técnicos têm em seu conhecimento que os técnicos irão demiti-los se eles colocarem um garoto e isso refletir mal nos resultados?  Eu acho que há muitas coisas diferentes que você pode considerar, mas eu acho que esse [o estado do futebol inglês] é provavelmente o acúmulo de todos eles”, analisou o jogador, que se aposentou da seleção em maio.