A fênix renasce: Como foi a marcha triunfal do Parma, da falência ao retorno à Serie A com três acessos seguidos

A cada entrada em campo no Estádio Ennio Tardini, o ritual se repete. Os alto-falantes da casa do Parma soam a marcha triunfal da ópera Aida, composta por Giuseppe Verdi, gênio da música clássica e prócer da unificação italiana no Século XIX. As batidas marcantes concedem ares épicos à atmosfera na arena, e durante anos embalou as grandes ambições dos gialloblù, entre títulos e craques renomados. A partir de 2015, entretanto, o Parma passou a enfrentar as suas maiores penúrias. A crise financeira gravíssima levou o clube à falência e ao rebaixamento à quarta divisão italiana. Mas nem por isso a marcha deixou de tocar. E, desde a Serie D, ela embalou uma epopeia inédita nos gramados do país. Divisão após divisão, os crociati conquistaram três acessos. Até que a apoteose acontecesse nesta sexta. Jogando fora de casa, o Parma não teve a ópera para o empurrar, mas fez sua parte contra o Spezia. Já na outra partida que o interessava, um gol aos 44 do segundo tempo tirou o Frosinone de seu caminho. Três anos após a derrocada, os emiliani voltam à Serie A. Aida certamente ecoará por muitas horas nesta noite, triunfalmente.

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A angústia do Parma, vale lembrar, ia muito além da mera questão esportiva. Em 2015, a situação era degradante. Os funcionários não recebiam salários e faltavam itens básicos no centro de treinamentos. Para melhorar o balanço financeiro, a diretoria chegou a botar a leilão alguns bens, incluindo os próprios troféus. A instituição chegou a ser comprada pelo valor simbólico de €1, buscando alguém que sanasse as dívidas que alcançavam os €220 milhões. Entre as várias trocas de donos, aventureiros chegaram e, prometendo mundos e fundos, não trouxeram qualquer solução. A declaração da falência, por mais dolorosa que fosse, parecia a única esperança cabível. O caminho para o clube conseguir se reerguer, após já ter enfrentado sérios problemas econômicos na década anterior, com a quebra da Parmalat.

O processo falimentar significava relegar o Parma à quarta divisão do Campeonato Italiano. Refundados, os gialloblù contaram com aqueles que realmente se importavam em seu renascimento. Nevio Scala, técnico mítico do timaço dos anos 1990, tornou-se presidente. Luigi Apolloni, ícone em seus tempos como defensor, chegou o comando técnico. Um grupo de empresários assumiu o controle do clube, permitindo uma reconstrução mais consciente, auxiliado também pela prefeitura. E o principal apoio veio das arquibancadas. Mesmo três divisões abaixo, o Ennio Tardini continuou se enchendo. O clube vendeu oito mil carnês de temporada antes que a Serie D começasse, um número que se aproximava da média de público de 11,9 mil em seu ano de despedida na elite.

O primeiro passo do Parma em sua redenção foi seguro. O time sobrou em seu grupo regional na Serie D, estabelecendo o novo recorde de pontos da quarta divisão. A hegemonia valeu o acesso, um dos nove times a alcançá-lo. O protagonista do feito era Alessandro Lucarelli, no clube desde 2008 e capitão durante os últimos anos na elite. O veterano decidiu permanecer, independentemente das dificuldades, e ajudar os gialloblù a se reerguerem. Terminou a competição bastante festejado pela torcida, em meio à convulsão coletiva que tomou as ruas da cidade na Emilia-Romanha.

O segundo passo do Parma em sua redenção foi dramático. A Lega Pro, como era chamada até então a Serie C, possuía um funil muito maior. São apenas quatro clubes ascendidos entre 57 postulantes. Os gialloblù tinham uma estrutura superior à da maioria dos concorrentes, assim como fizeram um mercado reforçado, trazendo jogadores experientes. Entretanto, a irregularidade prejudicou, culminando até mesmo na demissão de Apolloni. Dez pontos abaixo do Venezia, campeão de seu grupo regional e promovido à segundona, os crociati precisariam brigar nos temíveis playoffs de acesso, que reuniam nada menos que 27 equipes por uma mísera vaga na divisão acima. Pois aí é que os emiliani se superaram. Nos mata-matas, eliminaram Piacenza e Lucchese, até semifinais cardíacas contra o Pordenone, com a classificação definida nos pênaltis – e graças a uma cobrança de Lucarelli. Já na decisão, novo regozijo, quando o triunfo por 2 a 0 sobre a Alessandria valeu o acesso.

Por fim, o terceiro passo do Parma em sua redenção foi épico. A Serie B impunha uma exigência mais pesada aos gialloblù. Sua estrutura não faria tanta diferença contra clubes igualmente mais estabelecidos. A permanência na segundona seria uma meta realista; os playoffs, algo já a se comemorar; e o acesso direto, um feito inimaginável por tudo o que havia acontecido naqueles últimos três anos. Não que fosse algo impossível, considerando outras equipes que emendaram duas promoções consecutivas, a exemplo do Benevento. Contudo, escalar três divisões em sucessão se tornava uma façanha inédita no Calcio.

No meio do caminho, ocorreram mudanças sensíveis. O Parma ganhou novo fôlego financeiro. Dono de Chongqing Dangdai Lifan e Granada, além de também ter participação minoritária no Minnesota Timberwolves, o empresário chinês Jiang Lizhang comprou 60% da propriedade dos gialloblù, tornando-se acionista majoritário e também presidente – com o adeus do lendário Nevio Scala, mas o retorno de Hernán Crespo no posto de vice-presidente e embaixador. O grupo de empresários locais, que promovera o reerguimento nos dois anos anteriores, permaneceu com uma fatia de 30%. Já os 10% restantes estavam nas mãos daqueles que nunca abandonaram o Ennio Tardini: os torcedores. Iniciava-se uma nova empreitada, esperando ao menos o restabelecimento na Serie B.

O Parma seguiu confiando em Roberto D’Aversa, treinador que substituiu Apolloni e conquistou o acesso na Lega Pro. Em campo, apesar da possibilidade de se aposentar em 2017, Alessandro Lucarelli decidiu ficar e honrar a braçadeira, aos 40 anos de idade. Contratado no ano anterior, o veteraníssimo Emanuele Calaiò permaneceu como artilheiro e referência ofensiva. E embora boa parte da base na terceirona tenha se mantido, a diretoria buscou os seus reforços, principalmente jovens sem tanto espaço nos clubes de elite. Entre estes, trouxeram Roberto Insigne, irmão mais novo de Lorenzo, emprestado pelo Napoli. Também vieram protagonistas em acessos recentes, como Riccardo Gagliolo e Antonio Di Gaudio, ambos ex-Carpi; e Fabio Ceravolo e Amato Ciciretti, que defendiam o Benevento.

A Serie B 2017/18 atravessou suas 42 rodadas em equilíbrio. Vários clubes se alternaram na zona de acesso, ainda que o Empoli tenha sido o mais constante entre as duas primeiras colocações. O Parma, depois de vencer os seus dois primeiros jogos, acumulou apenas um triunfo nas sete rodadas seguintes, o que indicava o rótulo de ameaçado pelo descenso. Todavia, o time se encaixou e uma ótima sequência até dezembro o colocou na primeira colocação. Empolgação que se alternou com uma nova baixa, até se estabilizar na zona dos playoffs durante a virada dos turnos.

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Entre tantas alternâncias, o Parma ganhou consistência a partir de fevereiro. Raras eram as derrotas e, dentro do Ennio Tardini, os gialloblù pareciam imbatíveis. A concorrência, porém, também pegava embalo. E os crociati precisaram escalar posições semana após semana. No início de abril, assumiram a quarta colocação; no final do mesmo mês, a terceira; e depois de uma efêmera passagem pela vice-liderança em março, a derrota para o Cesena na antepenúltima rodada jogou a equipe para o quarto lugar. Teriam que se superar nos dois compromissos finais e contar com um bocado de sorte. Exatamente o que aconteceu.

Dentro do Ennio Tardini, o Parma recobrou a confiança no penúltimo compromisso. Em confronto direto com o Bari, derrotou os biancorossi por 1 a 0, gol de Gagliolo. O empate do Palermo, até então terceiro colocado, deixou os rosaneri para trás, em chances remotas. Com o Empoli já garantido na Serie A, o principal empecilho aos gialloblù era o Frosinone, que havia passado 25 rodadas no G-2 e, depois de alguns deslizes, acumulava três vitórias consecutivas na reta final. Os canarini fecharam a penúltima rodada na segunda posição, dois pontos à frente. Para que os emiliani tomassem a vice-liderança (e, consequentemente, confirmassem a promoção), precisavam vencer o seu jogo derradeiro e torcer para ao menos um empate do Frosinone, que atuaria diante de sua torcida. A vitória dos crociati por 2 a 0 em abril, dois tentos de Di Gaudio no Ennio Tardini, garantia a vantagem no confronto direto, caso os dois times terminassem com o mesmo número de pontos.

Lucarelli, do Parma

O Parma não demorou a cumprir sua parte. Mesmo jogando fora de casa, abriu o placar contra o Spezia aos 11 minutos, graças a Ceravolo. Já aos 29, aconteceu um momento de tensão, quando o árbitro assinalou um pênalti para os anfitriões, após lance confuso dentro da área. O tarimbado Alberto Gilardino partiu à cobrança. E não dá para saber se o coração gialloblù pesou, em gratidão ao clube que o projetou à seleção italiana e o tornou melhor jogador da Serie A em 2004/05. O centroavante chutou mal demais, mandando a bola por cima do travessão. A antiga torcida não precisaria virar as costas ao velho ídolo. Os emiliani mantinham a dianteira no placar.

E os céus se abriram ainda mais ao Parma aos 35 minutos. Sem mais interesse na competição, o tradicional Foggia ajudava os gialloblù, calando a torcida do Frosinone com um gol de Fabio Mazzeo. Neste momento, os canarini perdiam a vice-liderança e precisavam de dois gols para tirar os crociati da segunda colocação. O segundo tempo nas duas partidas guardariam emoções.

Aos 16 minutos, o Parma se tranquilizou ainda mais quando abriu 2 a 0 sobre o Spezia, em gol de Ciciretti, aproveitando rebote dentro da área. A partir de então, os ouvidos colavam no radinho para saber o que acontecia no Estádio Benito Stirpe. O Frosinone começava a reagir. Aos 23, Luca Paganini empatou. Cinco minutos depois, um gol contra bisonho de Matteo Rubbin garantia a virada. Ironia do destino, Rubbin era ex-jogador do Parma, com uma curta passagem pelo Ennio Tardini em 2011. Tornava-se vilão. Com isso, os canarini voltavam à segunda colocação, assegurando o acesso direto, e relegando os gialloblù à terceira posição – e, assim, aos playoffs.

O Frosinone, entretanto, foi ganancioso. Preferiu não segurar o resultado e tentar anotar um terceiro gol, que sacramentasse o acesso. Partiu com tudo ao ataque. E, quando o relógio se aproximava dos 44 minutos do segundo tempo, permitiu o contragolpe fatal. Roberto Floriano invadiu a área com liberdade e, na saída do goleiro, deu um sutil toque por cobertura. O empate por 2 a 2 voltava a colocar o Parma na Serie A, com os mesmos 72 pontos do Frosinone, e os anfitriões tinham pouquíssimo tempo para reagir. Em meio ao bombardeio, o goleiro Andries Noppert salvou os rossoneri (e os gialloblù) com uma defesaça, buscando cobrança de falta que ia em direção ao ângulo. Segurou o empate, que provocou uma cena de desolação no Estádio Benito Stirpe. Os canarini jogavam fora o acesso que estava em suas mãos, e pela segunda temporada consecutiva. Há um ano, o mesmo Fabio Ceravolo que consagrou o Parma foi o carrasco na penúltima rodada, em derrota custosa contra o Benevento. Na saída de campo, os jogadores do Frosinone não escondiam sua raiva e frustração.

As cenas eram bastantes distintas do que se viu em La Spezia. Por lá, o que prevalecia era a euforia do Parma, por conseguir o terceiro acesso consecutivo. E a comemoração dos jogadores em campo foi apenas parte da festa. Certamente estavam ansiosos para chegar à Emilia-Romanha, onde as ruas logo começaram a ser tomadas por uma multidão ensandecida, entre azul e amarelo. Superado o sofrimento de 2015 e permanecida a perseverança que ajudou nos dois últimos anos, os crociati completam a ascensão sonhada.

Não seria exagero dizer que esta Serie B, na história do clube, se torna tão importante quanto qualquer uma das Copas da Uefa ou das Copas Itália que os emiliani faturaram em seu passado. De maneira diferente, mas igualmente definitiva a se recontar a epopeia que se vivencia no Ennio Tardini. Alessandro Lucarelli, sem dúvidas, se transforma num herói eterno. O capitão de três acessos. O símbolo do renascimento, ao lado do atacante Yves Baraye, que chegou para a Serie D e foi o único a compartilhar o feito triplo. O zagueiro, de qualquer forma, experimentou a bonança anterior à falência e ficou puramente por idealismo. Cumpriu o seu desejo de recolocar o Parma na Serie A.

A marcha triunfal de Verdi bem que poderia receber os jogadores em seu retorno jubiloso ao Estádio Ennio Tardini, para ouvirem os merecidos aplausos pela façanha. Uma das voltas por cima mais espetaculares do futebol se cumpriu. Ainda há um caminho a se percorrer e, tendo em vista a ameaça aos novatos nas últimas temporadas da Serie A, a permanência na elite será uma batalha ao clube. Mas, tal qual uma Fiorentina, um Napoli ou ainda outras instituições tradicionais do Calcio que faliram, os crociati renascem como uma fênix. Torcedores e ídolos têm uma parte fundamental nisso, pela maneira como se uniram. O futebol se torna mais apaixonante com um enredo de redenção feito o do Parma.


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