Por Gabriela Chabatura, em Montevidéu

A foto de Felipe Melo que circula a internet depois da batalha campal não reproduz o que, de fato, aconteceu em Montevidéu, na noite da última quarta-feira. Alvo de perseguição dos uruguaios desde a primeira partida em São Paulo, o volante foi vítima de racismo e violência em uma emboscada armada no estádio Campeón del Siglo. Presenciei um time inteiro se revoltando contra um único alvo. Era impossível não revidar qualquer tipo de agressão e agir em legítima defesa. E foi o que aconteceu.

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Embora o presidente do Peñarol, Juan Pedro Damiani, argumente que tudo começou quando o palmeirense acertou um soco no meia Matías Mier, estou aqui para dizer que essa afirmação é uma tremenda falácia. O ato de Felipe Melo foi apenas uma reação à baderna provocada pelos próprios uruguaios. Da tribuna para imprensa internacional, de onde eu acompanhei a partida, vi a covardia dos donos da casa. Tudo estava tão orquestrado que explodiu apenas segundos depois de o árbitro decretar o fim do jogo.

No lado do campo onde o Palmeiras se defendia, o goleiro Fernando Prass pressentiu que uma tragédia se iniciava. Trocou um empurrão com Nahitan Nández na tentativa de avisar o juiz que Felipe Melo, naquele momento, já estava sendo agarrado pelo pescoço pelo zagueiro Quintana. Mas não dava mais tempo. Antes que pudesse perceber, Prass foi agredido com um chute e um soco na boca. Tudo já havia se transformado em uma grande briga generalizada.

Felipe Melo correu. O volante tentou proteger as costas, para não ser atacado de surpresa, e recuou em direção à arquibancada onde estavam os torcedores palmeirenses enquanto Nández e Quintana o apavoravam. A cada passo que o brasileiro dava, mais jogadores do Peñarol se irritavam e iam para cima dele.

A situação só não piorou porque 19 seguranças do Palmeiras, que viajaram junto com a delegação, conseguiram romper o portão de proteção e invadir o campo para controlar os ânimos e retirar os atletas de lá de dentro. Um dos agentes, caiu. Outro, perdeu os óculos. Mas, acima de tudo, foram valentes e evitaram que o pior acontecesse.

Felipe Melo, do Palmeiras
A foto de Felipe Melo, do Palmeiras, que se espalhou pela internet

É óbvio que a briga também se transferiu às arquibancadas. Depois que torcedores do Peñarol arremessaram bombas e pedras, palmeirenses invadiram o espaço da torcida adversária e revidaram. Um uruguaio acabou cercado e espancado. A poucos metros de distância, fiscais de segurança apenas observaram a selvageria. Foi então que, diante da passividade daqueles profissionais, membros da torcida organizada Mancha Verde fizeram uma barreira de proteção e preservaram crianças, mulheres e famílias dos ataques e objetos lançados pelos uruguaios.

Cerca de 30 pessoas acabaram detidas e 18 agentes policiais feridos, além de seis ônibus do efetivo danificados – com os vidros estilhaçados. Para piorar, um policial teve a sua arma Glock 9mm furtada, e uma pessoa acabou baleada. Todos os retidos continuam presos em duas delegacias da cidade.

Muito provavelmente a imagem que me referi no início do texto será utilizada para punir o Palmeiras e o Felipe Melo nas próximas partidas da Libertadores. A Conmebol, no entanto, precisa atuar com responsabilidade e bom senso para não analisar o episódio pela metade. Porque aquela foto não reproduz a verdade e nem contextualiza tudo o que eu acabei de relatar.

Havia temor sobre o esquema de segurança

Antes da partida, alguns torcedores do Peñarol se preocupavam com o esquema de segurança. A operação ainda era uma incógnita, tendo em vista que seria a primeira vez que o Campeón del Siglo receberia uma torcida de clube brasileiro de grande expressão. Diante dos ânimos já acirrados, o temor se dava sobre o possível encontro entre as torcidas na Rota 102 e Avenida Maldonado, que dão acesso ao estádio.

O novo Campeón del Siglo apresentou falhas de segurança, e as câmeras lá instaladas não funcionaram. Todos pareciam compreender a perplexidade daquela noite, exceto a diretoria do Peñarol.