O calendário do futebol inglês atravessa o seu momento mais intenso da temporada. A tradição do Boxing Day e das datas de fim de ano costuma congestionar a agenda dos clubes, em compromissos sobretudo pela Premier League, mas também pela Copa da Liga e pela Copa da Inglaterra. O preparo físico e a profundidade do elenco sofrem as maiores exigências em meio à maratona de partidas, que leva muitos grandes a patinarem. É um desafio diferente ao que se vive na maioria das ligas do mundo, mesmo as europeias.

Felipe Anderson experimenta o final de ano corrido pela segunda vez. O momento do West Ham não é muito favorável, com o time à beira da zona de rebaixamento e encarando uma mudança no comando técnico. Ao mesmo tempo, a intensidade máxima do calendário aumenta a pressão sobre os jogadores. Se no Brasil o excesso de competições não dá muitos meses de descanso durante as férias e compromete o próprio condicionamento dos atletas, os clubes ingleses põem à prova o trabalho realizado na pré-temporada exatamente durante a maratona do Boxing Day.

Em entrevista ao site de apostas online Betway, Felipe Anderson falou sobre as diferenças entre o futebol brasileiro e o futebol europeu, sobre a maneira como precisou adaptar seu estilo de jogo e mesmo sobre as filosofias que podem agregar aos clubes no Brasil. Ainda titular do West Ham, o meia caiu de rendimento junto com o time neste início tumultuado de Premier League. Em 16 partidas, contribuiu com quatro assistências, mas ainda não anotou gols.

Abaixo, a entrevista concedida em conversa com a Betway:

O calendário do futebol brasileiro é geralmente muito criticado pela quantidade de jogos. Na Inglaterra, o calendário também recebe críticas, pela intensidade de jogos na virada do ano. Para você, que já experimentou as duas situações, como isso te afeta? Você tem algum tipo de preferência?

Antes de começar a temporada, a gente gosta de ter tempo para a preparação. Infelizmente, no Brasil, os times não têm esse tempo. Existe um mês de folga e, no máximo, uma semana ou duas para começar as competições. No decorrer do ano, a falta de uma pré-temporada adequada é muito sentida pelos jogadores, sobretudo fisicamente. E isso influencia o ritmo do jogo no futebol brasileiro. Você não pode se preparar e enfrenta muitos jogos – um a cada três dias, com partidas de extrema importância.

Aqui, na Inglaterra, não é assim. A gente tem um tempo maior para se preparar com calma e fazer uma pré-temporada dando atenção a todos os jogadores. Como você falou, em dezembro fica um pouco mais difícil, pela proximidade dos jogos. Mas como temos esse tempo para nos prepararmos antes, o condicionamento supre a correria de dezembro.

Perder o Natal ou o Ano Novo te afeta?

Com certeza, a gente gosta de estar com a família, mas esse é o nosso trabalho. Eu sabia que era assim aqui na Inglaterra e queria vir para cá do mesmo jeito. É sempre bom podermos descansar, mas também fazemos o que amamos, então é motivante jogar. Estamos felizes por jogar em uma data tão importante.

Quando um jogador sai do Brasil e vai a um outro país, existe um aprendizado, taticamente e tecnicamente falando. Por exemplo, às vezes um jogador começa a desenvolver um senso melhor de defesa ou de posicionamento quando deixa o Brasil e começa a jogar na Itália, como você, e agora está aqui na Inglaterra. Quais foram os aprendizados que você teve nesses dois países?

A primeira coisa que muda quando você chega à Europa, vindo do Brasil, é a intensidade dentro dos jogos. Você precisa participar durante os 90 minutos, enquanto no Brasil você tem um tempinho maior para descansar, porque o jogo é mais cadenciado. Aqui, você não tem tempo. Quando perde uma bola, precisa dar seu máximo para voltar e recompor. Essa é a maior dificuldade que eu tive e que vejo muitos jogadores brasileiros ainda tendo.

Mas, nos últimos anos, isso tem mudado. A mentalidade no Brasil está apresentando níveis mais altos de intensidade, principalmente nesse ano, com o Flamengo, com o Santos. O brasileiro também está começando a pegar esse jeitinho europeu de jogar, de ter a constância dentro dos jogos. Como falei, é difícil manter isso no Brasil o ano inteiro, porque tem uma hora que o time começa a sentir fisicamente e as lesões aparecem, sem o tempo de preparação adequado. É difícil um time brasileiro manter uma temporada com o ritmo alto.

Falando especificamente de sua posição, como meio-campista, o que você precisou aprender ou modificar quando foi para a Itália e depois para a Inglaterra? O que adaptou da parte tática e da parte técnica?

Primeiro, na Itália, eu precisei aprender a fazer movimentações sem bola. No Brasil, eu esperava mais a bola no meu pé, ficava mais parado, e tinha espaço para receber, para girar. Isso mudou muito, porque na Itália são linhas compactas contra qualquer time, você vai precisar se movimentar sem a bola para poder achar um espaço. Foi uma dificuldade, pelo fato de ter que ser natural o movimento, e demorei um pouquinho para mudar. Mas quando você aprende e treina bastante, isso acontece de forma automática nos jogos. Essa adaptação me ajudou muito na chegada à Inglaterra, por ser um futebol que tem um pouco mais de espaço em relação à Itália, mas que é muito corrido. Ganhar alguns metros antes que a bola chegue é muito importante. Eu aprendi isso na Itália.

Existe um debate muito quente no Brasil sobre os técnicos estrangeiros e o quanto eles podem agregar ou não. Como você acha que o futebol brasileiro poderia ter realmente um benefício maior com essa onda de técnicos estrangeiros? Eles têm realmente a agregar?

Creio que o técnico brasileiro é muito bom, muito inteligente, sabe lidar com os jogadores jovens. Os europeus também são muito bons, até pelo ritmo, pela forma de lidar, são mais rígidos no extracampo, cobram muito do atleta se cuidar. Pode ser, sim, uma filosofia a ser adotada no Brasil, pelo fato de somar. Soma forças, soma culturas de futebol. O Flamengo começou a ser um espelho, assim como Santos. Eu torço pro Santos, acompanho o time, e vi o trabalho do Sampaoli lá. Com intensidade, ele levou a equipe a uma campanha incrível no Brasileiro. Acredito que é muito importante, sim, estar aberto a receber novas culturas, novos estilos. Se for ajudar o futebol brasileiro, a gente tem que aceitar e estar feliz com isso.

Existe uma competição muito forte para encontrar um lugar na seleção brasileira. Essa concorrência de alto nível te motiva? O que você acha que precisa fazer para voltar e ser parte desse time do Tite para a Copa América de 2020?

Todo jogador gosta de atuar nos níveis mais altos e comigo não é diferente. Se tiver oportunidade de novo, vai ser muito bom, então tenho essa motivação dentro de mim, de poder fazer o melhor, de ter constância nos jogos e estar bem com o time, o que é muito importante para chegar à seleção brasileira. Eu sei disso, tenho trabalhado para melhorar e creio que a hora vai chegar, sim.