Luiz Felipe Scolari voltou à seleção e tratou de adotar o discurso de união que o caracterizou na primeira passagem na seleção, que acabou sendo chamado de “Família Scolari”. Tanto o técnico quanto o coordenador, Carlos Alberto Parreira, afinaram o discurso para fazer a sua primeira convocação: a da torcida. E mais do que isso: Felipão deixou claro que o Brasil tem obrigação de ganhar a Copa do Mundo de 2014.

“Nós temos obrigação sim de ganhar o título em casa. Não somos favoritos ainda, mas vamos chegar como favoritos. E vamos trabalhar para isso”, disse Felipão, em sua primeira entrevista como técnico da seleção. Ele lembrou aos jornalistas presentes que já tinha declarado intenção de dirigir uma seleção em 2014. “Calhou de ser aqui, na seleção brasileira”, disse o treinador.

O tom patriota foi resgatado por todos na entrevista. O presidente da Confederação Brasileira de Futebol, José Maria Marin, deixou claro esse tom ao abrir a entrevista e especialmente no seu fechamento, pedindo respeito aos profissionais ali escolhidos. A escolha de Luis Felipe Scolari trouxe repercussão, exatamente o Marin esperava. O presidente da CBF ainda justificou a escolha dos dois nomes consagrados para dirigir a equipe na competição que o Brasil será sede.

“Algumas sugeriram um treinador estrangeiro. Lembrei essas pessoas que apesar do treinador estrangeiro merecer nosso respeito e termos que reconhecer suas inegáveis qualidades, é um treinador de clube, não um treinador de seleção, que é completamente diferente”, declarou.

“Os cinco títulos que nós conquistamos foram obtidos graças ao trabalho dos nossos técnicos, técnicos brasileiros. Muitos deles levaram seus conhecimentos além das nossas fronteiras”, disse ainda o presidente. “Felizmente o nosso país tem um número muito grande de técnicos competentes”, disse Marin, que citou Tite, do Corinthians, Muricy Ramalho, do Santos, Vanderlei Luxemburgo, do Grêmio e Abel, do Fluminense. “Mais do que nunca, temos que valorizar o que é nosso”, continuou.

“Deixamos o destino da nossa seleção nas mãos competentes, na capacidade reconhecida, na experiência já testada, atestada por títulos”, disse Marin. “Essa será a dupla que, se Deus quiser, e contando com o apoio dos senhores e das senhoras, e contando com o apoio da torcida, chegar ao sonho do nosso país ser mais uma vez campeão do mundo”, continuou Marin.

Felipão vai aproveitar a base de Mano

Apesar da sua diferença de estilo com o antecessor, Mano Menezes, Felipão disse que pretende aproveitar a base deixada na seleção. “Claro que não vamos começar do zero, isso não existe”, afirmou o técnico. “Vamos pegar uma seleção que foi trabalhada e analisar alguns nomes”, continuou. “A ideia é fazer um ambiente em que haja envolvimento entre a Seleção e a população”, convocou o treinador, mais uma vez expressando o seu desejo de unir os torcedores em torno da seleção, algo que Marin parece dar muita importância.

Felipão ainda comentou sobre o seu sucesso em competições de mata-mata. Para ele, é mais algo de fora e ele mesmo disse não ter nenhuma predileção especial pelo formato de disputa. “Não tem nada de especial em jogo mata-mata. Não tem nada de especial. Vocês da imprensa acham que eu gosto desse estilo. Eu gosto de jogar pontos corridos”, declarou o treinador.

Questionado sobre usar o sistema tático 3-5-2, que usou na Copa do Mundo de 2002, o treinador justificou que foi um caso pensado apenas para aquela ocasião. “O 3-5-2 foi uma adaptação ao grupo que eu possuía”, disse Felipão. “Quando assumi a seleção, nunca pensei em jogar com três zagueiros. Quando trabalhei por mais tempo com o grupo, percebi que poderia usar esse sistema e deu certo”, explicou ainda o ex-técnico do Palmeiras. “Não existe uma fórmula e sim características dos atletas que a gente vai ter que escolher e colocar em campo”.

Com Mano Menezes, o time brasileiro vinha jogando no 4-2-3-1, variando para um 4-3-3, esquemas mais utilizados por Felipão desde que deixou a seleção brasileira. O técnico armava o Palmeiras com um esquema similar ao de Mano na seleção, ainda que com diferenças.

Felipão responde a críticas por desempenho nos últimos anos

Um dos questionamentos para Felipão foi pelo seu retrospecto recente como técnico. Desde que deixou Portugal, em 2008, o técnico passou sem sucesso pelo Chelsea, foi campeão nacional no Uzbequistão, mas fracassou na competição continental e voltou ao Palmeiras em 2010, onde conseguiu o título da Copa do Brasil, em 2012, mas contribuiu para o rebaixamento do clube no Campeonato Brasileiro.

“Trocaria qualquer título pelo que vivi em Portugal nesses quases seis anos que fiquei lá. O que vivi lá vale mais do que dez, 20 títulos”, justificou o técnico. “Essa não é uma preocupação que eu tenho”, disse o treinador, que defendeu o período ainda citando o seu trabalho no Uzbequistão, onde ganhou título com 28 vitórias em 30 jogos.

Jogadores experientes devem ser chamados

Uma das preocupações em relação à seleção é a falta de experiência do time, algo que Mano Menezes teve que conviver desde o início do trabalho. Apesar da seleção ser muito jovem, Felipão considera que esse não é um problema e fez elogios ao grupo. “Quando se é jovem, há a virtude da vontade. Estamos muito bem servidos sim”, disse.

Com jogadores com potencial como Lucas, do São Paulo, Oscar, do Chelsea, e principalmente Neymar, do Santos, a seleção de Mano melhorou quando o experiente Kaká, do Real Madrid, foi chamado. Antes, o técnico já tinha chamado Ronaldinho Gaúcho, então no Flamengo. E a indicação que Felipão deu é que deve apostar nesses jogadores. “Tem outros jogadores experientes que podem voltar à seleção e dar sua contribuição aí”, disse.

Parreira vai participar das convocações

O papel de Parreira ainda não está claro, mas Felipão deixou claro que o técnico da seleção brasileira na Copa de 1994 participará sim das convocações. “Ele vai emitir opinião, nós vamos discutir nomes. Estamos aqui para isso”, afirmou. Parreira disse que pretende ajudar, mas que deixará a decisão final para Felipão. “Quero ajudar, mas é bom ficar claro. A decisão final caberá sempre ao treinador”.

Parreira foi outro a invocar o nacionalismo e pedir o apoio do torcedor à seleção. “A Seleção tem que se sentir em casa. O torcedor tem que estar com a gente”, disse. “Sempre ganhamos em cima da qualidade e da técnica, desta vez tem que ser assim também”, continuou.

Estilo de jogo: “O torcedor irá apoiar”

A pressão para ganhar a Copa do Mundo existe e o técnico deixou isso claro. O estilo de jogo do time não ficou claro, mas para Felipão, o torcedor irá apoiar. “Não sei se será bonito ou feio, mas será um estilo de jogo que deixará a todos satisfeitos e com o qual o torcedor nos apoiará”, afirmou.

“O futebol não muda tanto para que haja pressão maior ou menor”, afirmou. “Não me sinto pressionado no momento”, continuou Felipão, que brincou: “Quem não quer pressão, que vá trabalhar no Banco do Brasil (risos)”.

O primeiro jogo de Felipão será contra a Inglaterra, no dia 6 de fevereiro, contra a Inglaterra, em Wembley.  “Não tinha uma estreia melhor do que estrear contra a Inglaterra”, disse o técnico.

Discurso nacionalista e exaltado de Marin

Marin fez questão de defender a suas escolhas e justificar a presença de Felipão e Parreira na comissão técnica da seleção brasileira. O discurso, exaltado, lembrou os presidentes militares da época da ditadura brasileira – da qual Marin fez parte. E o presidente aproveitou para justificar a antecipação do anúncio dos nomes.

“Foi sugerido, pelo prestígio internacional de Carlos Alberto Parreira e do Felipe, era muito importante que a notícia fosse divulgada o mais depressa possível. E tem a reunião dos técnicos em São Paulo e nós não queríamos que essa cadeira ficasse vazia, por isso antecipamos”, declarou.

“Outros nomes foram cogitados, como o Tite do Corinthians, que tem um grande desafio pela frente”, disse ainda Marin, que então passou a fazer um discurso exaltado em defesa dos profissionais brasileiros. “Lamento profundamente que nós brasileiros não reconhecemos o trabalho, o idealismo de brasileiros. Nós precisamos dar valor às nossas coisas, aos nossos patriotas e a nós mesmos. Se um Felipe Scolari, se um Carlos Alberto Parreira são conhecidos e respeitados no mundo inteiro, mesmo aqueles que não concordem, ao menos respeitem o passado e os feitos realizados pelos dois homens escolhidos pela Confederação Brasileira de Futebol”, disse.

Marin: “Recebi apoio pela decisão”

Se a escolha de Felipão foi questionada por comentaristas, Marin disse que recebeu muitas manifestações de apoio da base de apoio da CBF. “Pelos telefonemas e telegramas que recebi, tenho total apoio dos presidentes de federações e presidentes de clubes”, afirmou.

Para o dirigente, o torcedor brasileiro apoia a decisão de levar Felipão e Parreira ao comando da seleção. “Posso merecer algumas críticas, mas a maioria esmagadora do torcedor brasileiro está aplaudindo nossa decisão”, disse.

Por fim, Marin ainda comentou sobre Mano Menezes e Andrés Sánches, que deixaram a CBF. “As portas da CBF estarão sempre abertas aos dois”, disse, apesar das rusgas conhecidas entre o presidente e o técnico e o ex-diretor de seleções.