Felipão lembra de conselho de Murtosa na primeira convocação de Cristiano Ronaldo: “Leva aquele menino”

Em 2003, como técnico da seleção, Murtosa convocou o jovem Cristiano Ronaldo, ainda nem titular do Sporting

Luiz Felipe Scolari foi técnico da seleção de Portugal e dá para dizer que foi muito bem no comando da equipe. Ele assumiu logo depois da conquista do título mundial com o Brasil, em 2002, e levou os portugueses a uma campanha importante na Eurocopa 2004, sediada em Portugal. A derrota na final para a Grécia, porém, é uma marca dolorida.

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Dois anos depois, na Alemanha, Felipão comandou uma seleção portuguesa que fez bonito na Copa do Mundo, chegando à semifinal e só perdendo para a França de Zinedine Zidane, destaque do torneio. Nas duas competições, tinha um garoto, Cristiano Ronaldo. Foi ele, Felipão, que o convocou pela primeira vez para vestir as cores de Portugal. Em entrevista ao Fox Sports, Felipão lembrou como foi a primeira convocação do jogador.

“O titular do Sporting era o Ricardo Quaresma e não o Ronaldo. O Cristiano estava a crescer, já estava a mostrar o que tinha condições para vir a ser, mas o titular era o Quaresma, que é um tremendo jogador também”, afirmou Felipão em entrevista à Fox Sports. “Num determinado momento, o Murtosa foi ver um jogo do Sporting e disse: ‘Felipe, está na hora de você convocar o Cristiano. Leva aquele menino’”.

A estreia de Cristiano Ronaldo foi no dia 20 de agosto de 2003, em um amistoso com o Cazaquistão. Ele tinha acabado de trocar o Sporting pelo Manchester United, em uma transferência de € 19 milhões (€ 25 milhões atualmente, corrigido pela inflação). Ele jogou por 45 minutos naquela partida, que já servia como preparação para a Eurocopa de 2004, no ano seguinte. Ainda jogaria pela seleção sub-21, mas logo seria incorporado definitivamente no time principal com Felipão, que via nele um potencial imenso.

Cristiano Ronaldo ganhou espaço, passou a ser um jogador a entrar sempre nos jogos e jogar muitos minutos. A Eurocopa de 2004 foi o seu passo definitivo para entrar no time titular e nunca mais sair. Depois de dois jogos na fase de grupos entrando no time ao longo do jogo, contra Grécia e Rússia, contra a Espanha já foi titular de vez, e assim passou a ser a partir de então.

“E aí começámos a dar oportunidades a ele e já naquele tempo, o Ronaldo mostrava como era. Tinha uma vontade de trabalhar enorme, tinha de o retirar de campo. E uma pessoa espetacular fora de campo também. Uma pessoa maravilhosa em todos os sentidos”, recordou Scolari.

“O Quaresma também jogava muito bem, continuaram os dois, e depois foram campeões da Europa, com o Fernando Santos. Duas crias muito boas da formação da base do Sporting”, apontou o técnico brasileiro.

Passados 16 anos, o Cristiano Ronaldo acumula cinco Bolas de Ouro, 164 jogos pela seleção portuguesa, 99 gols e o título da Eurocopa 2016, na França. Justamente o país que eliminou o time na semifinal da Copa do Mundo de 2006, 10 anos antes. E na casa do adversário. Ronaldo, consagrado, tem 35 anos, está na Juventus, mas já quis saber de outros lugares anos atrás.

O treinador ainda conversou com Ronaldo sobre a China, onde trabalhava na época. O atacante perguntou ao seu ex-treinador sobre o futebol do país. “Ele ligou, me perguntou como era o futebol na China. Eu falei: ‘Tu vens para a China, vai vender sua imagem, tudo aquilo que faz de propaganda para milhões de pessoas, mas deve saber que o futebol chinês não é tão badalado. Não vai ser mais o melhor do mundo. Se é isso que quer fazer, venha para a China e vai ser o rei por cinco anos’. Ele entendeu e seguiu a vida”, relatou Felipão.

Felipão não vê problemas em Jorge Jesus ser técnico da seleção brasileira

“Técnico bom e com qualidade não tem nacionalidade. Se o Jesus for escolhido para ser o técnico da Seleção Brasileira, ele o será com muito trabalho, boa vontade e dedicação, como fez e faz nos seus clubes, lá em Portugal e aqui no Flamengo. Acho que o técnico bom pode trabalhar em qualquer parte do mundo”, disse Felipão

“Eu trabalhei em sete países e sempre fui muito bem recebido e espero que os meus colegas, se tiverem alguma pequena rusga ou manifestação um pouco diferente com os estrangeiros, que deixem de lado. Nós, brasileiros, quando saímos somos muito bem recebidos em qualquer parte do mundo. Então deveremos dar como exemplo também a receptividade à essa situação. Todos os técnicos, sendo portugueses ou de qualquer outra nacionalidade, sendo bons, têm espaço em qualquer ambiente”, afirmou o treinador.

“Eu penso que o Jesus fez um trabalho (no Flamengo) baseado no que fazia em Portugal. Nas equipes em que trabalhava, sempre foi cooperativo. Quando eu trabalhava na seleção (portuguesa), e em determinado momento eu tinha um jogador trabalhando na Rússia, que seria convocado, mas que estava deixado de lado pelo seu clube, fui ao Belenenses-POR e pedi ao Jesus que o treinasse junto com os jogadores que ele tinha lá, para que me ajudasse em relação à seleção e foi solícito”, contou.

“O Jesus colocou a nós, técnicos do Brasil, que tem uma qualidade no brasileiro ou em qualquer treinador que tenha esse bom relacionamento com os atletas. Soube trabalhar com os atletas do Flamengo, soube montar a equipe como queria e, outro detalhe, os jogadores o entenderam, aceitaram aquela ideia buscando uma afirmação de todos. Foi o que levou ao Flamengo a campeão do Brasileiro, Libertadores e fazer todos aqueles jogos muito bem”, analisou ainda o treinador.

“Foi organizado pelo Jorge e posto em prática pelos jogadores. Empregou os seus métodos, que não são diferentes dos métodos de alguns técnicos brasileiros, mas empregou de uma forma tal que surtiu um efeito que ninguém esperava. Ajudou a todos nós técnicos que procurássemos entender de que forma ele tem trabalhado para colocar em prática no futuro”, declarou Felipão.

O jogo inesquecível da Libertadores

“O jogo mais marcante da Libertadores? Acho que pela história, que ficará marcada até que o Palmeiras consiga novamente uma Libertadores, foi nosso jogo final que ganhamos nos pênaltis pelo Palmeiras. No começo das penalidades, nós, com nosso melhor batedor que era o Zinho, acertando a trave, e o Marcos caindo nos cantos errados”, começou por afirmar.

“Nós havíamos combinado aonde os jogadores iam bater, mas trocaram. Fomos até a quarta bola, que eu assisti esses dias de novo, ela deu na trave, passou pelas costas do Marcos para entrar, e depois, no último pênalti, ganhamos. Essa ficou mais marcada como a melhor de todas, vai ser a Libertadores que eu vou me lembrar como a mais difícil, a melhor de todas”, finalizou.

Nada de aposentadoria

Em entrevista à rádio Transamérica, no último dia 18, Felipão comentou sobre o seu futuro, as propostas que recebeu, inclusive do Boca Juniors, e também deixou claro: ainda não está na hora da aposentadoria, nem para ele, nem para outros profissionais que trabalham com ele.

“Hoje em dia tenho recebido algumas propostas de clubes brasileiros e da Ásia. Tenho pensado, conversado, se há possibilidades. Nesse momento a possibilidade de os clubes investirem e contratarem é mais remota, por conta do vírus. Eu não tenho predileção em trabalhar no Brasil ou fora, trabalhei em sete países e tenho liberdade para dizer que sou bem aceito fora do país. Mas se fosse uma boa equipe daqui, trabalharia”.

“Não tenho nada definido, depende da oportunidade. Se tiver um bom projeto, uma coisa definida, que possamos conhecer e trabalhar, claro que eu trabalharia em qualquer lugar do Brasil ou do mundo. Pretendo continuar por mais uns dois, três anos, dentro do futebol como técnico. Isso sim eu vou continuar”.