Federação Italiana lança boa campanha contra o racismo, mas não mira onde deveria

Projeto voltado para jovens jogadores pode ajudar a amenizar o problema nas gerações futuras, mas os problemas atuais ainda merecem punições mais firmes

Desde fevereiro, a Federação Italiana tem percorrido diferentes lugares do país para espalhar a mensagem de que todos são iguais, independentemente da cor da pele. A campanha é interessante e extremamente necessária, como o histórico de episódios de discriminação racial no futebol italiano evidencia. O problema é o público-alvo da iniciativa. Em vez de se direcionar aos grupos de onde mais partem declarações preconceituosas, resolveram falar a jogadores de categorias de base. Um passo importante, é verdade, mas que não tem efeito prático imediato.

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O projeto, capitaneado por Fiona May, medalhista olímpica italiana, é dirigido a atletas de categorias de base ligadas à federação e abarca jovens entre 10 e 18 anos, seus professores e treinadores. A cada mês até 2016, um encontro de dois dias será realizado em determinada região da Itália, com talk show, coletiva de imprensa e um espetáculo com linguagem jovem para engajar os pequenos atletas como parte da programação.

Fiona May exaltou a importância da campanha e afirmou que, se não é possível esclarecer a mente dos mais velhos, ainda dá para direcionar melhor os mais jovens. “A mensagem que transmito é de que a única cor que importa é a das camisas, que não há diferenças, exceto a de ganhar e perder. Que o respeito é o mais importante. A Itália está 30 anos atrasada em relação a França, Inglaterra ou Alemanha. A mentalidade dos adultos não dá para mudar, mas os pequenos são maduros e inteligentes, e precisamos trabalhar com eles”, comentou, em declaração publicada pelo El País.

May recebeu a incumbência de Carlo Tavecchio, presidente da Federação Italiana. O mesmo Tavecchio que recebeu punição de seis meses de afastamento do futebol, em outubro do ano passado, por comentários racistas. “Na Inglaterra, eles identificam os jogadores que chegam, se são profissionais, podem jogar. Aqui, temos Opti Pobà, que antes comia bananas e agora é titular da Lazio. Na Inglaterra, você precisa demonstrar currículo e pedigree”, disse o dirigente, antes de ser eleito presidente da federação. A ex-atleta, considerando sua tarefa, tem um discurso coerente. O problema é mesmo em relação aos cartolas.

Se o objetivo é combater o racismo, a educação dos jovens é uma boa medida, mas não a única ou a mais importante. É preciso atacar com mais rigor os preconceituosos que causam problemas atualmente também. Até mesmo porque grande parte dos últimos episódios de racismo no futebol italiano veio de declarações de dirigentes, como Tavecchio, de torcedores, como no chocante caso da partida do sub-10 do Milan, ou de treinadores, como o já aposentado Arrigo Sacchi, que reclamou do número de negros nas categorias de base da seleção. Punições brandas não inibem o comportamento, e a campanha que visa os jovens pode render frutos no futuro, mas algo também precisa ser feito de maneira firme para amenizar o problema a curto e médio prazo.