Entre as principais ligas nacionais da Europa, a Serie A concentra os maiores atritos entre a retomada ou não das atividades durante a pandemia. Os italianos demoraram a dar uma resposta contundente ao aumento no número de casos no país e alguns jogos de futebol acabaram facilitando a transmissão do vírus. O receio neste momento seria natural, mas não é compartilhado por todos. E os responsáveis pela federação italiana prepararam um protocolo para que as equipes retornem aos treinamentos.

As expectativas são de que os treinos possam ser autorizados a partir de 4 de maio, quando o atual decreto do governo italiano expira. Antes disso, a federação reuniu uma comissão de médicos para elaborar o protocolo aos clubes. O documento foi enviado ao Ministro do Esporte e ao Ministro da Saúde. A resposta à ideia deve ser anunciada na quarta-feira, após uma reunião entre representantes da federação e do governo.

“Existem duas correntes de pensamento: aquela em que todas as atividades conectadas ao mundo do esporte devem ser fechadas e a outra que eu carrego, que é continuar. Não posso ser o coveiro do futebol italiano. Tenho a responsabilidade de defender o movimento do futebol e dos esportes. Não estamos preocupados em parar hoje, mas sim com o impacto negativo no futuro”, declarou o presidente da federação, Daniele Gravina, ao programa ‘Che tempo che fa’.

“Peço que seja considerado um movimento de impacto sócio-econômico em nosso país, a par de qualquer outro setor. Falei sobre a volta da Serie A em junho. Espero que tenhamos a oportunidade de experimentar um momento de alívio, diferente do que vivemos agora”, complementou Gravina. “A volta do campeonato é uma responsabilidade que deixo com o governo. Eu gostaria de receber a escolha com alívio. Você pode imaginar o drama que enfrento para travar esta batalha do futebol. O futebol italiano não vive separadamente, mas também temos um sentimento de esperança”.

Ministro da Saúde, Roberto Speranza não aprovou a pressão pública feita por Gravina e também o respondeu antes da reunião, em entrevista à Rádio Capital: “A batalha não está vencida. Devemos insistir na assistência à área de saúde. Digo isso com o maior respeito e como um torcedor apaixonado, mas, com mais de 400 mortes por dia, nosso último problema é o futebol. A vida das pessoas vem primeiro lugar. As prioridades do país são totalmente diferentes hoje. Trabalharemos para que, em algum momento, a vida normal possa ser retomada”. Embora a curva de casos ativos desacelere na Itália, o país registrou 3 mil novos testes positivos neste domingo. São 179 mil infectados no total, com 23 mil mortes.

A Gazzetta dello Sport teve acesso à documentação enviada ao governo e publicou em suas páginas durante o final de semana. A comissão médica da federação admite que os riscos de contaminação continuarão existindo enquanto não houver vacina, mas que é possível reduzir o contágio a partir de algumas precauções. Assim como ocorre na Bundesliga, o ponto principal ao retorno da Serie A será a disponibilização de milhares de testes aos jogadores e funcionários.

Conforme os italianos, os membros dos clubes passarão por exames três dias antes do início dos treinamentos. Já na primeira semana, os testes serão diários para saber se os jogadores contraíram antes a doença e estão imunes. Também manterão as regras de distanciamento social, em atividades separadas dentro de campo e na concentração. Os elencos serão divididos em grupos, entre aqueles que tiveram sintomas graves, os assintomáticos e quem não foi infectado. Depois de duas semanas de quarentena, caso ninguém esteja doente, a rotina normal será permitida.

Outro ponto primordial será o isolamento total dos times. Assim que os treinamentos começarem, eles ficarão fechados na concentração para evitar a contaminação. A rotina será vivida nos centros de treinamento, nos hotéis e nos estádios onde os duelos serão realizados. Permanecerão distantes de seus familiares. Além disso, passarão por exames mais básicos diariamente. Os testes específicos à doença serão reduzidos a cada duas semanas, após a quarentena inicial.

Jogadores infectados anteriormente pelo vírus passarão por um cuidado médico mais específico, já que as consequências da doença são pouco conhecidas. Farão exames regulares no coração, nos rins e nos pulmões – os órgãos potencialmente mais afetados pela doença. O monitoramento cardíaco será constante, já que 25% dos casos críticos da COVID-19 resultaram em danos no coração. Lesão aguda do miocárdio, miocardite e arritmias são algumas das possíveis consequências.

A equipe médica dos clubes precisará usar roupas de proteção durante o trabalho. Os jogadores também vestirão máscaras e luvas enquanto estiverem se locomovendo aos centros de treinamentos, hotéis ou estádios. Se algum membro do clube testar positivo, será imediatamente isolado. Novos testes gerais serão realizados sobre o elenco e os funcionários. Neste ponto, se concentra uma clara preocupação sobre possíveis novos focos de contaminação e, paralelamente, novas interrupções na liga.

A postura de alguns clubes e dirigentes em acelerar a retomada da Serie A gera críticas na Itália. Presidente do comitê olímpico italiano, Giovanni Malagò questionou o futebol por não pensar em alternativas e se colocar à parte dos demais esportes. Em entrevista à Ansa Brasil, Damiano Tommasi, presidente da associação de jogadores, apontou que as esperanças pela retomada da temporada permanecem, mas as dificuldades são muitas. A ele, o futebol só poderia voltar se as outras atividades de trabalho tiverem recomeçado.