Esta coluna já comentou muito sobre a crise financeira que aflige o Twente, há pelo menos dois anos. Sabe-se que a tentativa do presidente e mecenas Joop Munsterman para tornar famoso o clube de Enschede rendeu frutos – afinal, o time conquistou a Eredivisie 2009/10, participou da Liga dos Campeões e fez boas campanhas na Liga Europa. Mas que a conta tinha chegado: 32 milhões de euros em dívidas, fora o acordo irregular que dera à Doyen, empresa maltesa de investimento, propriedades de jogadores do elenco – medida que rendeu sanções pesadas de Fifa e KNVB, a federação holandesa, com multas e proibição de participações em competições continentais.

Só que o clube tentou a reorganização, dentro e fora de campo. A diretoria fez acordos com empresários da região onde fica a cidade de Enschede, para o pagamento da dívida, além de renegociar os débitos com os ex-presidentes (além do supracitado Munsterman, Aldo van der Laan também tinha dinheiro a receber). E dentro de campo, a equipe se recuperou, e teve no meio-campista Hakim Ziyech um dos melhores jogadores do Campeonato Holandês.

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Enfim, a 13ª posição representara uma salvação honrosa. Isso, ainda tendo o agravante de mais uma punição da federação: em abril, os Tukkers perderam três pontos, por descumprirem etapas do plano de reestruturação financeira apresentado à entidade. Era a terceira vez que tal sanção era aplicada ao clube – que já perdera seis pontos na temporada passada. Pelas regras da federação, o passo seguinte era a perda da licença profissional – o que forçaria o Twente a ter de recomeçar sua história na Topklasse, a quarta divisão holandesa.

E somente agora, com a temporada regular encerrada e o time vermelho garantido na primeira divisão, a entidade máxima do futebol holandês decidiu qual seria a punição pelas persistentes dívidas. Pois bem: a decisão certa (punir o clube) foi tomada do jeito errado. Reconhecendo o esforço, a comissão de licenças da KNVB “premiou” o Twente do pior jeito possível.

Em nota divulgada na quarta, a comissão de licenças da entidade anunciou: “Durante a reunião, a comissão concluiu que o passado do Twente dava a ela o direito de tirar a licença. Por outro lado, a comissão acha que os esforços feitos para ‘limpar a casa’ davam o direito de manter a licença. Com base no regulamento de licenças, a comissão tinha duas opções. A primeira era uma multa de 45.250 euros. Aos olhos da comissão, isso parecia uma pena desproporcionalmente leve. A segunda opção era a retirada da licença, que seria justificada pelo passado do clube.

Com base no bom trabalho [para diminuir a dívida] feito neste meio ano, a comissão acha uma pena desproporcionalmente dura. A comissão, então, cede ao Twente uma nova licença, já que o clube está ‘limpando a casa’. Com essa nova licença, o clube tem o direito de começar na mais baixa divisão profissional, que é a Jupiler League [nome patrocinado da segunda divisão]”.

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Trocando em miúdos: a KNVB mantinha a licença profissional do Twente, mas o rebaixava, contrariando o resultado dentro de campo. Nunca acontecera antes na história profissional do futebol holandês. Não é uma decisão definitiva: a federação indicou tal solução, e o Central Spelersraad (Conselho Central de Atletas, órgão independente da entidade) poderá confirmá-la ou recusá-la. Ainda assim, o processo que levou ao virtual rebaixamento do clube de Enschede teve um final desastrado, que abre possibilidade de imensas complicações para a temporada 2016/17.

A começar pelo play-off contra o rebaixamento. Com a sugestão do rebaixamento do Twente, o Willem II (antepenúltimo colocado da Eredivisie) estará garantido na primeira divisão, ganhe ou perca no placar agregado contra o NAC Breda (que venceu o jogo de ida – 2 a 1, nesta quinta -, e obviamente subirá em caso de vitória). Enquanto isso, De Graafschap e Go Ahead Eagles decidirão a outra vaga. Está certo que o Kowet tem larga vantagem para o acesso (golearam o De Graafschap por 4 a 1 na ida), mas em caso de vitória dos Superboeren, junto de triunfo do Willem II – ambos vindos da Eredivisie -, quem ficaria na divisão principal do futebol holandês seria… o Cambuur, lanterna do torneio, rebaixado diretamente – e que criticou a decisão da federação, dizendo “não ter o direito à salvação, desportivamente falando”.

Sem contar que a KNVB rasgou o próprio regulamento (crítica feita por Edwin Lugt, diretor geral do Go Ahead Eagles): a punição que o Twente deveria receber era a cassação de sua licença profissional. Todavia, isso poderia causar mudanças até no título holandês. Afinal, assim o Twente teria seus resultados anulados. Com duas vitórias sobre os Tukkers nesta temporada do Holandês, o PSV perderia seis pontos – de 84, iria a 78; com uma vitória e um empate contra os Enschedese, a pontuação do Ajax cairia de 82 a 78. E com a pontuação igual, o saldo de gols maior daria o título aos Ajacieden. Só que a possibilidade foi afastada pela federação: segundo um representante comentou à revista “Voetbal International”, o título do PSV está fora de discussão. Então, por que impedir o Twente de precisar recomeçar sua história na quarta divisão?

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Deste modo, somente Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da federação, comemorou a punição dura-mas-nem-tanto: “O Twente é um grande clube, com um grande passado, e a KNVB acha ótimo que o clube tenha uma segunda chance”. De resto, só merecidas críticas, pelo desprezo ao regulamento e pelo péssimo momento do anúncio, um dia antes do início da Nacompetitie que define permanência ou acesso à divisão de elite.

Obviamente, o Twente foi o primeiro a lamentar. Em declaração pública à imprensa, o diretor Onno Jacobs opinou: “Estamos tristes, perplexos e incrédulos. É um duro golpe. Pensávamos que poderíamos participar da próxima temporada [do Campeonato Holandês], não contávamos com essa variante”. E nesta sexta, já anunciou que recorrerá da decisão da federação pelo rebaixamento: “O Twente simplesmente não pode arcar com as consequências financeiras desta nova sanção”. Claro, tudo apoiado pela torcida.

A união dos clubes da Eerste Divisie (segunda divisão) já avisou que discorda da inclusão forçada no campeonato da próxima temporada. De quebra, o diretor da associação, Marc Boele, foi duro na sua opinião: “Ninguém ouviu a Jupiler League [antes de tomar a decisão], não sabíamos de nada. Amanhã traremos uma posição mais concreta, mas não estamos felizes. E os play-offs [de acesso]? Por qual objetivo os clubes jogarão?”.

Agora, é esperar pela decisão do Central Spelersraad, que terá um mês para confirmar ou revogar o rebaixamento do Twente. Ou seja: há uma novela arrastada à vista no futebol holandês. Que poderia ser resolvida com a punição prevista no regulamento: a cassação da licença. Afinal, que o clube merece ser sancionado, parece claro, como lembrou o repórter Sjoerd Mossou, do jornal “Algemeen Dagblad”, em artigo: “O Twente tem a obrigação, consigo mesmo e com o futebol holandês, de se recuperar das perdas sozinho. Levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”. Mas o paternalismo das federações parece não ser exclusividade brasileira, pelo visto. E cabe citar outro periodista holandês, Michel Abbink, do site nu.nl: “Neste verão europeu, todos os outros países assistirão a um torneio entre seleções. Nós assistiremos a uma incompreensível novela sobre o Twente”. Como se não bastasse a ausência da Oranje na Euro 2016…