Assim como diferentes nações europeias, os Países Baixos sofreram com manifestações racistas em seus estádios durante os últimos meses. O episódio mais repercutido aconteceu em novembro, quando o atacante Ahmad Mendes Moreira se tornou alvo de cânticos racistas da torcida do Den Bosch. No entanto, as autoridades do país não esperaram de braços cruzados para bater de frente com o problema. No último sábado, ao lado do governo local, a federação neerlandesa lançou um plano extensivo para combater o racismo e a discriminação no futebol.

O projeto da KNVB (a federação dos Países Baixos) inclui 20 medidas para prevenir, detectar e punir o racismo não apenas dentro dos estádios, mas também no ambiente ao redor do esporte. Um dos passos é criar um organismo envolvendo pessoas da administração pública e do futebol, para aconselhar a atuação das autoridades governamentais e esportivas. Poderão gerir crises, assim como fazer propostas mais incisivas ao redor do tema.

Jogadores e árbitros serão instruídos para se manifestar imediatamente, caso percebam algum tipo de racismo ou discriminação. As medidas não se restringem apenas à Eredivisie, mas também se espalharão pelas competições de acesso e até mesmo pelas categorias de base. O investimento da federação e do governo garantirá um programa de treinamento sobre racismo e discriminação para 600 clubes amadores, assim como a 34 agremiações profissionais. Os árbitros e assistentes receberão um curso extra para saber como conduzir esses casos.

A KNVB investirá mais no monitoramento. Com apoio do governo, instalará câmeras em estádios amadores e profissionais. Também haverá a criação de um aplicativo para que os torcedores façam denúncias de qualquer situação discriminatória nas arquibancadas. E, tão importante quanto a detecção, será a punição. Com as provas concretas, a perda de pontos é uma das sanções iniciais ao time que for considerado culpado pelo incidente. Os indivíduos responsáveis enfrentarão um processo criminal. Um promotor especial para discriminações atuará junto à federação.

Além das conversas com o governo, a KNVB também estabelecerá diálogo com entidades que representam minorias nos Países Baixos. O Museu Anne Frank, a Comunidade dos Holandeses de Ascendência Marroquina e o Órgão de Declarações dos Turcos são algumas das instituições parceiras. Quatro vezes por ano, a federação se reunirá com essas organizações para avaliar as medidas e a situação do racismo no futebol neerlandês.

Já o porta-voz escolhido para a campanha é emblemático: Edgar Davids. O veterano costuma participar ativamente das discussões contra o racismo no futebol e, além de sua importância à história do esporte, é reconhecido por colocar o “dedo na ferida”. Por tudo o que envolve, o plano desenvolvido pela KNVB parece muito bom, sobretudo por atuar em diferentes frentes. A teoria, entretanto, nem sempre funciona na prática. Se der certo, será uma iniciativa para servir de exemplo a outros cantos do mundo no combate ao racismo.

* Agradecimento especial ao amigo Felipe dos Santos Souza, que ajudou com as informações.