Palco da final da Champions League deste ano, o Wanda Metropolitano representou, ao longo da temporada, um local sonhado, de difícil acesso. Liverpool e Tottenham precisaram consistentemente mostrar estarem à altura do desafio, superando, por fim, adversários tradicionais nas semifinais, em capítulos marcantes em suas respectivas histórias. Agora, voam alto e se dirigem à capital espanhola, onde serão convidados especiais, exceções no restrito espaço aéreo da casa do Atlético de Madrid.

Há 18 anos, Jorge Castaño Romero é o falcoeiro oficial dos Colchoneros. Amigo pessoal de Miguel Ángel Gil Marín e Enrique Cerezo, respectivamente CEO e presidente do Atleti, há duas décadas, recebeu o convite do primeiro para, em 2001, como teste, manter o gramado do antigo Vicente Calderón livre de pombos que se alimentavam das sementes do campo. O trabalho deu certo, e Romero segue como membro importante do clube até hoje, mudando-se junto com a equipe ao Wanda Metropolitano.

Uma matéria do El País em 2011, dez anos após o início do trabalho de Castaño Romero, descreveu o Vicente Calderón de antes da chegada do falcoeiro como uma “casa de pombos”, em que se jogava 500 quilos de sementes para tratamento do gramado apenas para as aves comerem tudo e danificar o piso.

O papel do especialista no palco da final da Liga dos Campeões, portanto, consiste em garantir que cada cantinho do Metropolitano esteja seguro contra aves. Espaços grandes como um gramado de futebol têm inúmeros buracos que podem servir como ninho para diferentes pássaros, e permitir que isso aconteça “estragaria as instalações e, mais importante, o gramado. As sementes que se utiliza são muito especiais, para que seja como um tapete. Se deixar que as aves as comam, você joga fora todo esse trabalho”, explicou o falcoeiro ao El País.

Jorge Castaño Romero, falcoeiro do Atleti (Divulgação)

Segundo Jorge Castaño Romero, o trabalho que realiza há quase 20 anos no Atlético de Madrid é único no futebol. “Houve mais de um clube interessado, mas sempre me senti orgulhoso de ser o falcoeiro do Atlético de Madrid, e nunca considerei voar em outros estádios ou para outras equipes”, conta o especialista, torcedor colchonero desde a infância. Juntar duas paixões em uma profissão é coisa para poucos, e isso explica sua lealdade ao Atleti. E, assim como o futebol, seu entusiasmo pela falcoaria vem de muito cedo.

Romero revela ao El País que sentiu uma “explosão interior” ao ver pela televisão, aos seis anos de idade, o naturalista Félix Rodriguez de la Fuente com um falcão no braço, no programa “El hombre y la Tierra”. O falcoeiro do Atlético de Madrid então se aprofundou no tema, estudou por conta própria e trabalhou vários anos no norte da Alemanha, no maior centro de criação de falcões do mundo. Com o conhecimento acumulado, retornou à Espanha e criou em 1999 sua própria empresa. Dois anos depois, por meio de sua amizade com Miguel Ángel Gil Marín, acionista majoritário do Atleti, começou a trabalhar no Vicente Calderón, inicialmente para evitar a entrada de pombos no campo.

Castaño Romero conta que, só para cuidar do Wanda Metropolitano, comanda cinco aves: quatro falcões e uma águia. “Dependendo da época, ou da semeadura do gramado, elas vêm voar mais ou menos (frequentemente) ao estádio, mas sempre estão preparadas.”

Se no futebol um bom treinador é aquele que sabe lidar com os humanos que comanda, entendendo a personalidade e o que motiva cada um dos jogadores, na falcoaria não é muito diferente. “Em dois meses (de treinamento), se chega a uma etapa de confiança, que te permite começar a trabalhar com eles. Depois disso, são como as pessoas, tem que se tratar cada um em função de seu caráter.” E não é por aí que param as coincidências.

“Com os rebeldes, tem que se trabalhar mais. Ao contrário do que você poderia pensar, não se trata de ser mais duro, mas, sim, de ser mais tranquilo com ele e conquistá-lo com muito amor.” Dica preciosa para os técnicos lidando com estrelismo de jogadores, se você for me perguntar.

A ligação de Jorge com suas aves e o Atlético de Madrid transparece também no nome dos pássaros a seu serviço: Diego Forlán, Kun Agüero, Fernando Torres… Ele não cita nenhum falcão chamado García, mas o mínimo que espero é que um deles leve o nome do Tigre. Castaño Romero conta que os jogadores adoram a homenagem, o que para ele é “uma honra”. Os nomes, no entanto, são apenas o início das semelhanças com as estrelas do campo.

“Eles vivem como verdadeiros jogadores. Têm um jardim condicionado para eles, com gramado recém-cortado, banheiras onde cuidam da plumagem, tomam sol. No verão ficam na sombra, fresquinhos”, detalha o falcoeiro.

Jorge Castaño Romero, falcoeiro oficial do Atlético de Madrid (Reprodução)

Quis o destino que a primeira grande final internacional recebida pelo Wanda Metropolitano fosse protagonizada por dois clubes que, coincidentemente, têm como símbolos dois pássaros. O Tottenham com o galo, ícone do clube graças à paixão de Harry Hotspur por galos de briga equipados com esporas – Harry Hotspur, como você adivinhou, também inspirou a criação do nome do próprio clube.

A primeira aparição do galo no símbolo dos Spurs aconteceu em 1921, quando a equipe venceu sua segunda Copa da Inglaterra. Pelo sucesso na competição e pela superstição, o animal passou a fazer parte do escudo.

Já o Liverpool tem sua história ainda mais entrelaçada com o pássaro em seu emblema. Chamado de Liver Bird, a ave é uma criatura mítica que, desde o século XIV, é também o emblema da cidade de Liverpool. Parecida com o cormorão, ela teria sido avistada séculos atrás voando sobre o rio Mersey, outro símbolo local importante e em cuja foz a cidade foi fundada.

Com tamanha representação, é seguro dizer que as aves de rapina de Jorge Castaño Romero abrirão uma merecida exceção neste sábado. Depois disso, caminho fechado. O Metropolitano tem donos.

[via El País]