A Argentina ainda tentava recuperar o fôlego depois da pior crise econômica da sua história, cuja eclosão aconteceu no final de 2001, com cinco presidentes em 12 dias, bloqueios bancários, protestos violentos, recessão, desemprego e crescimento da pobreza, quando a seleção de Marcelo Bielsa embarcou para a Ásia cheia de expectativas. Era uma das favoritas para a Copa do Mundo de 2002, com a esperança de encerrar um jejum de títulos que já durava nove anos e dar aquele alento à sofrida população que às vezes apenas o futebol pode proporcionar. E, no fim, foi uma grande decepção: marcou apenas dois gols, ganhou um único jogo e foi eliminada ainda na fase de grupos.

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Bielsa era prestigiado pelos trabalhos à frente do Newell’s Old Boys e do Vélez Sarsfield quando assumiu a seleção argentina no lugar de Daniel Passarella. El Loco havia acabado de acertar com o Espanyol, no início da temporada 1998/99, quando recebeu a proposta do time nacional. Um caso mais ou menos parecido com o de seu pupilo Jorge Sampaoli, que recusou a primeira abordagem da AFA no momento em que iniciava seu projeto no Sevilla, mas não conseguiu dizer não duas vezes e, depois de apenas uma temporada na Espanha, deixou o clube para treinar Messi.

Bielsa não resistiu tanto quanto Sampaoli e ficou pouquíssimo tempo à frente do clube catalão. Recebeu a abordagem da AFA em 17 de agosto de 1998, segundo o EL País, e deixou o Espanyol um mês depois. Havia acordado com a diretoria que ficaria até o fim do ano ou até que o seu substituto fosse encontrado, mas um começo ruim de temporada no Campeonato Espanhol – uma vitória em seis rodadas – abreviou ainda mais a sua passagem. Despediu-se com derrota para o Valladolid, por 2 a 1, e deu lugar ao compatriota Miguel Ángel Brindisi. O Espanyol terminou aquela edição de La Liga em sétimo lugar.

Bielsa teve à disposição uma mistura quase perfeita de experiência, juventude e muita qualidade. Havia ajudado a moldar alguns, como Pochettino, Batistuta e Samuel (esses dois últimos, ainda nas categorias de base) e contava ainda com Ayala, Zanetti, Sorín, Simeone, Aimar, Véron, Crespo, Batistuta e um envelhecido Caniggia. Havia uma concorrência tão grande que um jovem Riquelme, mesmo comendo a bola pelo Boca Juniors de Carlos Bianchi, bicampeão da Libertadores entre 2000 e 2001, foi quase ignorado. Bianchi, aliás, foi a primeira opção da AFA para o lugar de Passarella, mas preferiu tentar a sorte no Boca.

Com um grupo enxuto, a Argentina fez uma campanha brilhante nas Eliminatórias Sul-Americanas, com 13 vitórias, quatro empates e uma única derrota, marcando 42 gols e sofrendo apenas 15. Terminou com 12 pontos de vantagem para o segundo colocado, o Equador. A trajetória ganha ainda mais destaque em contraste com a do Brasil, que sofreu para se classificar à Copa do Mundo de 2002: ficou em terceiro, com 30 pontos, mesmo número do quarto lugar Paraguai e apenas três a mais que Uruguai – repescagem – e Colômbia, sexta colocada.

As análises da época colocavam a Argentina lado a lado com a França como as duas grandes favoritas do Mundial da Coreia do Sul e do Japão, como mostra este texto do guia da Placar: “À exceção de 1978, quando era favorita por ser país-sede, nunca a seleção argentina desfrutou de tanto prestígio internacional, nem mesmo na Era Maradona. Desta vez, só se fala que o título fica entre França e Argentina”. O texto argumentava que a espinha-dorsal da equipe, formada por Ayala, Simeone, Verón, Zanetti, Claudio López, Batistuta e Crespo, atuava junta há bastante tempo e recebeu aquisições de novos talentos, como Aimar.

Destacava que os tropeços nos amistosos pré-Copa eram resultados de experiências táticas do treinador, o que é sempre possível tratando-se de Marcelo Bielsa, mas alguns dos principais jogadores apresentaram-se com problemas físicos ou contraíram-nos durante a preparação. Ayala sequer entrou em campo por ter se machucado durante o aquecimento para a estreia contra a Nigéria. Verón havia terminado mal a temporada, atuando em apenas duas das últimas oito rodadas do Manchester United na Premier League, também se recuperando de lesão. Simeone teve que correr para estar disponível para o Mundial.

Os atacantes não estavam nada embalados. Crespo havia marcado 13 gols na temporada do Campeonato Italiano pela Lazio, uma marca razoável, mas longe do que poderia fazer. No ano anterior, anotou exatamente o dobro. Batistuta, a poucos anos da aposentadoria, estava ainda pior. Foi às redes apenas seis vezes pela Roma, em 2001/02, e seu último tento havia sido contra o Piacenza, em janeiro do ano da Copa do Mundo. Uma das críticas realizadas contra Bielsa foi não ter encontrado uma maneira de colocar os dois juntos em campo. Começou todos os jogos com Batistuta, e em todos os jogos substituiu-o por Crespo no segundo tempo.

O esquema de Bielsa era o familiar 3-3-1-3, com Samuel, Pochettino e Placente (ou Chamot) na defesa, Simone encaixado entre os alas Zanetti e Sorín, Verón de enganche e Ortega, Batistuta e López ou Killy González no ataque. Com esses jogadores, a Argentina chegou à terceira rodada da fase de grupos precisando vencer para se classificar. Teve muito volume de jogo contra a Nigéria, e venceu apenas por 1 a 0, gol de Batistuta. Até ficou com a bola contra a Inglaterra, mas foi derrotada, também pelo placar mínimo, com gol de David Beckham, que afugentava os fantasmas do Mundial da França.

Somou três pontos, contra quatro da Inglaterra, que enfrentaria a Nigéria, e o mesmo tanto da Suécia, a adversária daquela tarde em Miyagi. O negócio era ganhar de qualquer jeito, mas o nervosismo levou a melhor da Argentina. Duas chances de cabeça foram desperdiçadas no primeiro tempo: uma para fora, e outra em boa defesa de Magnus Hedman. Da ponta esquerda, Claudio López mandou outras duas oportunidades para fora. Ao fim da primeira etapa, Caniggia foi expulso, no banco de reservas, por insultar o árbitro, encerrando a viagem turística do veterano pela Ásia: não entrou em campo nem um minuto.

No começo do segundo tempo, Anders Svensson esboçou o crime que cometeria pouco depois, com uma perigosa cobrança de falta, que assustou Cavallero. Aos 14, o sueco acertou o pé, quase do mesmo lugar, e abriu o placar para a Suécia. A Argentina precisava da virada para seguir viva na Copa do Mundo. Hedman defendeu forte chute cruzado de Zanetti. Andreas Andersson respondeu acertando a trave. Aos 43, no mesmo minuto em que um jovem Zlatan Ibrahimovic substituiu Henrik Larsson, Ortega sofreu pênalti. Ele mesmo cobrou, mas Hedman defendeu. Crespo, em flagrante invasão da grande área, marcou no rebote. Mas o empate não foi suficiente: a Argentina estava eliminada.

A albiceleste sofreu para entrar no melhor ritmo em um grupo muito difícil e, como muitas vezes acontece na Copa do Mundo, poderia ter se reagrupado e crescido no mata-mata, caso tivesse se classificado. Nunca saberemos a resposta. Apesar da decepção, Bielsa seguiu no cargo por mais dois anos e conseguiu conquistar a Olimpíada de 2004, um alento para a oportunidade desperdiçada no Mundial da Coreia do Sul e do Japão.