É só olhar as tabelas. O Botafogo definha no Campeonato Brasileiro, está na vice-lanterna, com salários atrasados, jogadores sendo demitidos, e o presidente Mauricio Assumpção passa mais tempo falando de impostos do que de bola. O Vasco consegue estar ainda pior porque a primeira divisão disputa, está em terceiro na Série B e, não faz muito tempo, levou 5 a 0 do Avaí em São Januário.

TEMA DA SEMANA: O seu clube também terá eleições para presidente, e você sabe o que esperar?

Os dois cariocas têm eleições presidenciais neste fim de ano, mas Dinamite e Assumpção não vão fazer seus sucessores, pela pura e simples ausência de chapas da situação. Há candidatos mais ou menos identificados com as administrações deles, mas o temor de todos eles é ser associado a figuras muito arranhadas das políticas internas desses clubes. Por quê? Releia o primeiro parágrafo e você vai entender perfeitamente.

Vasco

Há vários critérios para avaliar a gestão de um clube de futebol. Pode ser o resultado em campo, a superação (ou não) de expectativas, a saúde financeira ou a formação de jogadores. E Roberto Dinamite, presidente do Vasco entre 2008 e 2014, conseguiu fracassar em todos eles. Mas talvez nenhum seja tão emblemático quanto a fragmentação quase total da sua administração e o frágil ambiente político que antecede a próxima eleição. Tão frágil que abriu as portas para o retorno de Eurico Miranda.

Isso é particularmente sério porque Dinamite assumiu o poder em 2008 justamente para encerrar o reinado do folclórico dirigente fã de charutos, homem forte do futebol de São Januário desde 1986. Conseguiu vencer a eleição, mas prestou um desserviço muito grande ao demonstrar que era muito possível colocar o Vasco em uma situação pior do que a da época de Eurico. Exceto por um breve período de bonança que teve um título de Copa do Brasil, um vice do Brasileirão e uma boa campanha na Libertadores, foram dois rebaixamentos, uma dívida de aproximadamente R$ 500 milhões e seguidos golpes na auto-estima do cruz-maltino.

Nesse contexto, Eurico Miranda renasceu e parece forte para buscar mais um mandato na presidência do Vasco. A sua chapa ligeiramente egocêntrica (Volta Vasco! Volta Eurico) tem como principal proposta o resgate da “grandeza” do clube e não economiza críticas a Roberto Dinamite, desde os problemas a fiscais a contratações duvidosas com salários altos e contratos longos. Problemas de gestão, como ele diz. Dentro desse cenário fragmentado, a habilidade política de Eurico e as lembranças de tempos gloriosos da época dele eram o mel que atrairia as abelhas para o seu nome na cédula eleitoral, mas apareceu um outro grupo forte para dividir esses votos. Julio Brant tem apenas 37 anos e um rosto que representa exatamente a imagem que a chapa “Sempre Vasco” deseja passar: renovação.

Esse grupo político ajudou Roberto Dinamite a ganhar o primeiro mandato, mas, naquela época, todos se uniram contra Eurico Miranda. Agora, a candidatura não tem vínculo com a situação e bate muito nessa tecla e na da gestão empresarial, resquício da experiência profissional de Brant na Vale do Rio Doce, Odebrecht e Andrade Gutierrez, na qual trabalha atualmente. Há 10 anos, vive viajando e atualmente mora em Portugal, mas ele acredita que isso pode ser benéfico para “integrar o Vasco ao mundo”. O jovem tem o apoio do ídolo Edmundo, de um grupo de empresários (ao estilo da chapa que se elegeu no Flamengo) e do ex-presidente da Assembleia Geral do Vasco, Olavo Monteiro de Carvalho, que renunciou em setembro deste ano. Ele é um dos dirigentes mais influentes dos bastidores do clube e neste momento o cenário está equilibrado.

Correndo por fora, está o ex-vereador e ex-presidente da Força Jovem, Roberto Monteiro, o mais próximo que existe de uma chapa da situação porque tem em seu grupo várias pessoas que trabalharam na gestão Roberto Dinamite. Quer se apresentar como uma terceira via, para os que não querem a volta de Eurico Miranda, nem a manutenção de Roberto Dinamite. Como se não fosse o bastante, ainda existem mais três dissidências do grupo de Dinamite. Tadeu Correia foi vice-presidente do Infanto Juvenil até o finalzinho da gestão do ex-atacante. Coronel reformado do exército, é sócio do Vasco há 44 anos e tem como uma das suas propostas mais curiosas usar o xadrez para desenvolver senso tático nos jovens jogadores.

Nelson Rocha deixou o clube em 2012 depois de ter sido vice-presidente geral e de finanças. Quer de qualquer jeito colocar jovens no time principal, mesmo que eles sejam ruins, e pretende resgatar a “mística do uniforme preto”, sem, por enquanto, explicar como isso ajudaria os jogadores a acertarem passes e chutes a gol. O último dissidente é Eduardo Nery, que lançou suas propostas no Facebook e ninguém sabe muita coisa sobre ele, além de que se trata de um empresário de 43 anos, que apoiou Dinamite no primeiro pleito que ele venceu.

As eleições vascaínas já deveriam ter acontecido, mas um fenômeno de adesões entre março e abril do ano passado (quase 3 mil) fizeram com que a chapa de Julio Brant entrasse com um pedido para que ela fosse adiada para 11 de novembro, e a Justiça acatou. Apesar de serem eleições indiretas, a chapa mais votada pelos sócios elege 120 conselheiros, que se juntam aos 30 da segunda mais mencionada e aos 150 conselheiros natos. Todos decidem o próximo presidente.

Botafogo

Os quatro candidatos à presidência do Botafogo fizeram um acordo de paz, vão evitar ataques entre si e prometeram juntar as propostas depois da eleição. Sem o passatempo favorito de qualquer político, que é falar mal do adversário, a metralhadora de todos eles se voltam para um alvo fácil: o atual presidente Mauricio Assumpção. O dirigente que contratou Seedorf e levou o Botafogo de volta à Libertadores deixa o cargo em um momento melancólico. Afundado em dívidas, o clube está com os salários atrasados, caindo pelas tabelas do Campeonato Brasileiro e institucionalizou o desespero ao montar uma comissão de crise. Nem tanto pela (boa) ideia de permitir que os pleiteantes acompanhassem a situação de perto, mas pelo nome simbólico que o grupo ganhou.

Assumpção também não se ajuda. Outro dia rescindiu o contrato de quatro jogadores que figuravam entre os principais líderes do elenco, como Emerson Sheik e Bolivar. Sofreu ataque de todos os lados e dois candidatos um pouco mais ansiosos querem que ele saia da presidência do clube antes mesmo do fim do mandato. Um deles é Carlos Eduardo Pereira, um dos membros da comissão de crise, e um dos maiores opositores que o presidente tem dentro do Botafogo. Certamente tem alguma coisa a ver com a derrota acachapante que ele sofreu no pleito de 2011, quando conseguiu apenas 27% dos votos contra 73% de Assumpção. Desde então, ele assumiu uma postura ainda mais crítica e já protagonizou algumas discussões bem acaloradas no conselho deliberativo do clube.

A persistência não deve bastar para ele porque os principais músculos dos bastidores da política botafoguense estão fortalecendo outra campanha. Carlos Augusto Montenegro apoia Carlos Thiago Cesário Alvim, vice de comunicação e uma figura folclórica, amiga de todo mundo, mas que não exala aquele ar presidencial. Seu vice, por outro lado, é forte. O empresário Durcésio Mello era para ser o candidato de Montenegro, mas apenas integrará a chapa de Alvim.

A surpresa da eleição pode ser Vinicius Assumpção que, para deixar bem claro o quanto vale o apoio de Assumpção nessa disputa, mudou de nome para Vinicius Presidente para evitar que haja qualquer relação entre os dois. Ex-vereador, secretário municipal de Eduardo Paes e político por natureza, defende o voto direto dos sócios-torcedores para presidente e gosta de fazer um corpo a corpo na sede do Botafogo para conversar com os eleitores. Foi o outro que pediu que Assumpção se afastasse.

A quarta via é Marcelo Guimarães, elogiado ex-gerente de marketing, demitido em fevereiro do ano passado pelo próprio Maurício Assumpção. Dentro da política atual do Botafogo, isso é até um fator positivo para Guimarães porque ninguém quer se associar ao atual presidente. Assumpção, esgotado, já disse que vai se afastar da política e não pretende apoiar ninguém oficialmente (Alvim é o nome mais próximo a ele). E os candidatos agradecem.

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