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Muito do fracasso nas últimas décadas da seleção inglesa, que já teve Peter Shilton e Gordon Banks debaixo de suas balizas, passou pela ausência de um goleiro confiável. A procura parecia ter terminado com Jordan Pickford, decisivo na Copa do Mundo de 2018, mas as suas atuações desde então precisam colocar uma pulga atrás da orelha do treinador Gareth Southgate.

Pickford chegou ao Sunderland aos oito anos e passou pelas quatro divisões inferiores antes de ganhar uma chance pelos Black Cats na Premier League. Foi um típico goleiro de time rebaixado: era bombardeado, fazia grandes defesas e levava vários gols. Deixou impressão boa o bastante para ser contratado pelo Everton e, com a decadência de Joe Hart, assumiu a primeira camisa da Inglaterra para a Copa do Mundo de 2018.

Foi decisivo no mata-mata, especialmente contra a Colômbia, quando defendeu um chute de Mateus Uribe nos minutos finais e depois brilhou na disputa de pênaltis, parecendo afastar antigos fantasmas da Inglaterra. Tem jogado regularmente com Gareth Southgate e, por enquanto, nada indica que perderá a posição para a Eurocopa deste ano.

A questão é: deveria? O momento de Pickford está longe de ser o melhor e, para não ficar apenas em impressões, vamos aos números.

No último domingo, Pickford levou quatro gols do Chelsea. Não falhou em nenhum deles, mas chegou a 46 sofridos nesta temporada da Premier League. Um a mais que Tim Krul, protetor de uma defesa consideravelmente mais frágil que a do Everton. Passou apenas seis jogos sem ser vazado. Segundo dados da Sky Sports, ele comete 0,17 erros que resultam em finalização adversária por partida desde agosto de 2017, pior apenas que Fraser Foster e Joe Hart entre arqueiros ingleses, e nas últimas duas temporadas, nenhum goleiro da liga inglesa cometeu mais falhas que terminaram em gol do outro time do que ele.

Foram sete, empatado com De Gea, que também não passa pelo seu melhor momento, Dubravka, do Newcastle, e Bernd Leno, do Arsenal. E não ajuda que muitas delas aconteçam em grandes jogos, como contra o Liverpool ou o Manchester United, a última notável ao deixar passar o chute de Bruno Fernandes por baixo de seus braços. Errou feio também contra o Crystal Palace.

O momento hesitante de Pickford, que ainda é capaz de fazer grandes defesas, não passou despercebido por nomes como Gary Neville e Roy Keane. Keane foi taxativo e, depois da falha contra o United, disse que nem precisava ver as estatísticas para saber que o titular da Inglaterra não era um bom goleiro.

Antes, Neville havia criticado Pickford por dar risada quando estava perdendo para o Manchester City por 3 a 1 porque, segundo o ex-lateral direito, ele deveria ter defendido o segundo gol e quase custou o quarto ao Everton. Os ex-jogadores comentaristas do futebol inglês também não fazem as críticas mais construtivas do mundo, como Pickford vem descobrindo em primeira mão.

“Acho que a imprensa e todo mundo, os comentaristas, querem apenas atacar os jogadores da Inglaterra. Todo mundo é criticado. Alguns ganham muito mais elogios que outros. Faz parte de ser um jogador da Inglaterra. Todo mundo o odeia, por algum motivo. Você tem que lidar com isso, você tem que aprender. Eu sei do que sou capaz e sei no que sou bom. É o que é. Joe Hart, quando era o número um, era criticado toda semana”, disse.

“Você tem que manter isso fora da sua mente porque a única pessoa que pode resolver as coisas é você, como indivíduo, no campo e nos treino. É engraçado porque todo mundo gosta de você quando você está com a Inglaterra, mas, quando volta ao clube, todos querem criticá-lo. Como pessoa, não deixo isso me afetar, mas me irrita”, completou.

Southgate, por enquanto, não está preocupado. “Ele jogou excepcionalmente bem para nós nos últimos três anos e teve momentos nos quais foi crucial para algumas grandes vitórias. Eu entendo a questão e ele sabe que provavelmente houve alguns gols nos quais ele gostaria de ter se saído melhor. E quando você é jogador da seleção inglesa, os holofotes são sempre maiores em cima de você, dentro e fora de campo. Mas ele sabe disso e é mais do que capaz de lidar com a situação”, afirmou o treinador da Inglaterra.

O que Pickford fez na Copa do Mundo dá motivos para Southgate manter confiança em seu futebol. A curva de Joe Hart, porém, serve de alerta. Parece loucura dizer isso agora, mas houve um momento em que também pareceu que ele havia resolvido o problema inglês debaixo das traves, apenas para logo em seguida começar a decadência que o levou do Manchester City à reserva do Burnley.

Além disso, há goleiros ingleses em melhores fases, como Nick Pope, do Burnley, e Dean Henderson, do Sheffield United, líderes da tabela de partidas sem ser vazado nesta Premier League, com 11 e 10, respectivamente, e em clubes com até menos recursos do que o Everton, embora os Blades, extremamente bem organizados, façam uma campanha espetacular. Alisson, do Liverpool, tem 10.

A Inglaterra tem amistosos contra Itália e DInamarca no fim do mês, e Southgate poderia pelo menos aproveitá-los para testar alternativas a Pickford, caso sua forma continue a piorar até a Eurocopa – isso se os amistosos e o próprio torneio ao fim da temporada sejam mantidos, em meio a tantas incertezas pelo surto global de coronavírus.

Kick and Rush

– O governo britânico descarta, no momento, cancelar eventos esportivos por causa do surto de coronavírus. Há mais de 300 casos confirmados no Reino Unido, com cinco mortos, por enquanto. Caso o quadro piore, medidas mais drásticas do que a inócua suspensão do protocolo pré-jogo da Premier League – para evitar que jogadores que vão passar 90 minutos se agarrando apertem as mãos uns dos outros – são discutidas. Clubes da Football League, especialmente da terceira e da quarta divisão temem os prejuízos financeiros se não poderem vender ingressos, e o Liverpool está preocupado com a possibilidade de ser campeão inglês pela primeira vez em 30 anos sem ninguém nas arquibancadas para testemunhar.

– Bruno Fernandes fez maravilhas pelo Manchester United, invicto há dez jogos por todas as competições, oito deles desde sua chegada. Ganhar pela terceira vez do Manchester City nesta temporada, com a primeira Dobradinha pela Premier League desde 2009/10, fortalece Ole Gunnar Solskjaer, embora o encaixe estilístico do duelo lhe seja favorável: uma equipe de contra-ataque contra outra que sofre com contra-ataques.

– Ainda não dá para confiar plenamente no Chelsea, mas a goleada por 4 a 0 sobre o Everton, praticamente sepultando o sonho de Champions League do time de Carlo Ancelotti, e a vitória sobre o Liverpool foram boas respostas de Frank Lampard após a vexatória derrota para o Bayern de Munique e o empate contra o Bournemouth. Caso consiga atuações parecidas com um pouco mais de regularidade, a chance de manter o quarto lugar é boa.

– Nenhum dos últimos sete colocados da Premier League venceu na última rodada. Depois de uma certa recuperação, o Bournemouth agora ocupa a terceira posição do rebaixamento, empatado em 27 pontos com Watford e West Ham. O Brighton tem apenas dois a mais. O Aston Villa, com 25, tem dois jogos a menos (um deles nesta segunda-feira contra o Leicester). Diante desse cenário, até o Norwich pode sonhar com a permanência se emendar uma sequência de três ou quatro vitórias. A briga está completamente aberta.