A seleção peruana estava repleta de jogadores simbólicos naquela noite de setembro de 2003, diante de 42 mil no Estádio Nacional de Lima. A Blanquirroja entrava em campo pelas Eliminatórias e encarava o Paraguai. Claudio Pizarro, Nolberto Solano, Roberto Palacios, Juan José Jayo, Jorge Antonio Soto: todos eles estavam entre os titulares para enfrentar os guaranis, comandando uma sonora goleada por 4 a 1. O último tento veio de um garoto que saiu do banco e, aos 18 anos, balançou as redes pela primeira vez em uma partida oficial com a camisa alvirrubra: Jefferson Farfán. A promessa que, 14 anos depois, se transformou no herói da classificação à Copa do Mundo.

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Revelação do Alianza Lima, Farfán nunca escondeu o seu potencial. Conquistou três títulos nacionais com os blanquiazules e não demorou a atrair o interesse do futebol europeu. Em 2004, ano em que foi eleito o melhor jogador de seu país, acabou pinçado pelo PSV. Chegou a um clube reconhecido por seu trabalho com jovens talentos. No Estádio Philips, atravessou o melhor momento da carreira por um clube. Foi tricampeão da Eredivisie com os Boeren, disputou a semifinal da Liga dos Campeões, era o artilheiro da equipe. Combinava uma potência física impressionante com a capacidade de definição. Afirmou-se, também para a seleção.

Farfán estava entre as referência que ascendiam na seleção peruana. A velha guarda começava a perder terreno, enquanto Claudio Pizarro se mantinha como principal estrela. Enquanto isso, surgiam também outros bons jogadores. Juan Manuel Vargas, um meio-campista de grande qualidade técnica, mas inconstante. E um novato Paolo Guerrero, atacante tão perigoso quanto esquentado, que vinha sendo lapidado pelo Bayern de Munique. Um velho conhecido de Farfán. Afinal, La Foca e El Depredador já se conheciam desde muito antes, colegas na escola e nas categorias de base do Alianza Lima. A Blanquirroja ajudou a fortalecer os laços entre os jovens. Companheiros de ataque, amigos e até mesmo compadres. Além disso, dividiam as mesmas penúrias com a equipe nacional.

Por mais que o Peru contasse com seus destaques individuais, coletivamente não conseguia render. O ataque não funcionava tão às mil maravilhas assim, a defesa era uma água. Passou longe da classificação à Copa de 2006, ficou na lanterna durante a campanha rumo ao Mundial de 2010. O próprio Farfán ajudaria pouco a Blanquirroja nesta última campanha. Em novembro de 2007, após um empate contra o Brasil, o atacante se meteu em “uma festa com mulheres e álcool” na concentração. Dias depois, os Incas acabaram goleados pelo Equador por 5 a 0. E a culpa recaiu sobre o astro, julgado nacionalmente pelo escândalo, ao lado de outros três companheiros. Foi multado e suspenso, atravessando um longo exílio da seleção.

Neste intervalo, Farfán se transferiu ao Schalke 04. Que seus números não fossem tão impressionantes quanto na Holanda, era um dos principais jogadores dos Azuis Reais. A regularidade não era tão grande e os títulos se limitaram à Copa da Alemanha, além de outra semifinal de Champions. De qualquer maneira, não se negava a adoração que o peruano desfrutava em Gelsenkirchen. Em 2010, enfim, retornou à seleção. De novo se envolveu em problemas disciplinares, embora tenha voltado a reforçar sua importância nas Eliminatórias para a Copa de 2014. Anotou cinco gols e vivenciou mais um fracasso, passando longe do Mundial.

E então, veio o momento que parecia decretar o declínio de Farfán. Foi para o banco no Schalke 04, antes de transferir-se ao Al-Jazira, onde também não emplacou. Se houve um alento, este aconteceu em 2015, quando ajudou o Peru a chegar nas semifinais da Copa América e a vencer o Paraguai no primeiro turno das Eliminatórias, em rara alegria naquele início difícil de campanha. Para piorar, uma séria lesão no joelho atrapalhou qualquer sequência do veterano. Ficou de fora da Copa America Centenario por isso, assim como da maioria absoluta dos jogos no qualificatório para 2018.

A redenção só aconteceria mesmo neste semestre. Transferido ao Lokomotiv Moscou na temporada passada, finalmente Farfán conseguiu emendar uma série de jogos e voltou a exibir o seu melhor futebol. Logo se tornou um dos destaques do time, surpreendente líder do Campeonato Russo, com direito a uma atuação de gala no confronto direto com o Zenit, que tirou os celestes do topo da tabela. E o embalo respingou na seleção. Em setembro, depois de 18 meses, La Foca retornou a ser escalado por Gareca. Enfrentou Bolívia e Argentina. Não era exatamente uma peça indispensável, mas tinha seu valor no grupo pela experiência. Até que sua importância aumentasse na repescagem. Seria o escolhido justamente para assumir a responsabilidade de seu amigo Guerrero. Era o líder do ataque, diante da ausência do capitão, pego no doping.

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Jogando como homem de referência em Wellington, Farfán não se saiu bem no primeiro jogo contra a Nova Zelândia. Na base da raça, aproveitando um erro da defesa, conseguiu criar a melhor chance da partida. Mas parecia lutar contra si mesmo, sem conseguir ameaçar da devida maneira. Sem surpreender, Ricardo Gareca mudou para o jogo de volta, em Lima. Farfán jogaria um pouco mais recuado, fazendo a ligação entre a linha de meias e o ataque. Reencontrou-se, incomodando pela movimentação. E a sorte sorriu aos 28 minutos. La Foca, o prodígio e o jogador-problema de outros tempos, enfim, se confirmava como protagonista. Como salvador. Como o responsável por abrir o caminho dos Incas rumo à Copa do Mundo.

Cueva merece todos os elogios pela jogada. Mas Farfán também teve participação excepcional. Enquanto o contra-ataque acontecia, arrancou da intermediária. Mas, quando se aproximava da área, desacelerou. Sorrateiro, preferia não causar alarde para não chamar atenção da marcação. Permaneceu livre, pronto para receber o passe. E com um espaço enorme. Dominou e, sem raciocinar muito, desatou sua fúria para estufar as redes. A velocidade máxima só viria na comemoração, correndo por toda a lateral até pegar a camisa de Guerrero. Até chorar durante a homenagem ao amigo. Até se ajoelhar no gramado com o manto peruano.

Farfán ainda quase marcou o segundo, parando em milagre de Marinovic. E foi um dos melhores ao longo dos 90 minutos. Sem ser tão perigoso durante o segundo tempo, reforçou sua importância pela maneira como correu para garantir que a vitória se consumaria, para evitar que os neozelandeses esboçassem qualquer reação. Ao apito final, La Foca de novo não escondeu sua emoção. Caiu no gramado. Chorou outra vez. Chamou a torcida e cantou junto com ela. A noite era sua. O homem capaz de causar um tremor de terra em Lima com o seu gol, e que termina levando parte dos louros pelo retorno ao Mundial após 36 anos.

A história de Farfán na seleção peruana é cheia de percalços. É menor do que poderia ser, considerando o seu potencial no início da carreira e também a maneira como não se ajudou, pela indisciplina. Mas o autocontrole do atacante chegou no momento certo. Em um momento no qual a equipe cresceu, sob as ordens de Ricardo Gareca. No qual ele, mesmo carregando o seu renome, era mais um. Um que não se escondeu na maior partida e teve a felicidade de carimbar o passaporte dos Incas. É isso que fica. Isso que termina por colocar o camisa 10 no panteão de maiores ídolos da seleção, em definitivo. E ele poderá reforçar isso na Rússia, onde já se aclimata e certamente terá o apoio dos torcedores locais.

Uma cena para definir Farfán? Aconteceu nesta quarta, nas ruas de Lima. O herói passeava com seu carro possante, mas em velocidade normal. Era saudado por diversos compatriotas, agradecidos por aquele chute feroz no Estádio Nacional. O gol que perdoou todos os seus pecados e valerá por sua carreira na seleção.


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