O Cruzeiro foi rebaixado pela primeira vez na sua história em 2019 e vai enfrentar a Série B, algo que só três times da Série A jamais viveram. Mesmo sendo algo que já aconteceu antes, o que o time celeste viverá será inédito em alguns aspectos. Pela primeira vez, um clube dos grandes que é rebaixado não manterá a sua cota de TV que recebia na primeira divisão. E isso deve fazer muita diferença, especialmente na situação financeira delicada que o clube está.

A divisão de cotas de TV é assunto constante quando falamos de Campeonato Brasileiro, com toda justiça. É um assunto crucial quando falamos sobre a competitividade do nosso principal campeonato nacional. Durante muitos anos, os clubes tinham o chamado pagamento paraquedas, que mantinha a mesma cota de TV recebida na Série A, caso o clube ainda tivesse contrato com a emissora. Com isso, os clubes conseguiam manter um orçamento muito maior que todos os demais da Série B, porque a sua cota era muito maior – muitas vezes maior até que muitos clubes pequenos da Série A. Isso acabou.

O ano de 2019 marca o primeiro com o novo sistema na divisão da cota da TV aberta, com um sistema muito similar ao da Premier League: uma divisão com 40% igual, 30% por posição final na tabela e outros 30% por número de jogos transmitidos. Isso, novamente, apenas na TV aberta. No pay per view, a divisão se dá por uma pesquisa de torcida, o que mantém, ainda, uma enorme diferença entre os clubes com mais torcida para os com menos torcida.

Em 2019, o Cruzeiro teve direito a uma cota de TV de cerca de R$ 70 milhões. Em 2020, a cota cairia para cerca de R$ 30 milhões, só que por já ter antecipado parte das cotas dos próximos anos, o clube só receberá R$ 10 milhões, segundo informa o blog de Rodrigo Capelo, no Globoesporte.com. Isso porque na Série B, o clube rebaixado deve escolher entre a cota acordada para a segunda divisão (R$ 6 milhões + R$ 2 milhões de logística) ou então permanecer com a sua cota do pay per view. O Cruzeiro teria direito a 6,3% do total de assinantes, o que significa um pagamento estimado de R$ 40,9 milhões, informa o blog do Rodrigo Mattos.

Para o clube Celeste, a segunda opção é, evidentemente, mais vantajosa. Mas, para continuar sendo, é preciso que não haja queda na arrecadação do PPV. Isso porque o bolo é dividido de acordo com o número de assinantes do serviço. E será preciso que o Cruzeiro mantenha o mesmo número de torcedores no levantamento de 2020.

São muitas condicionais, mas tudo indica que escolher ficar apenas com o pay per view e incentivar o seu torcedor a assinar será o mais interessante. Por enquanto, os torcedores estão muito machucados, mas como todo torcedor, vai querer acompanhar o time no próximo ano. Será importante que o clube mineiro tenha uma política inclusiva de preço de ingressos, de forma a encher o estádio, e também incentivar seus torcedores a assinarem o serviço de PPV.

A queda de arrecadação, porém, é inevitável, mesmo nos melhores cenários possíveis para o próximo ano celeste. Ainda segundo Rodrigo Mattos, a queda de arrecadação do Cruzeiro deve ser de cerca de R$ 64 milhões comparando 2019 a 2020. Um montante enorme para qualquer clube e muito mais ainda para quem está endividado como o time de Belo Horizonte.

As coisas complicam muito quando olhamos para o tamanho da folha de pagamento do Cruzeiro. O clube tem folha salarial de R$ 7,6 milhões por mês, contando apenas os vencimentos em CLT, sem contar direitos de imagem ou luvas dos jogadores, segundo informação do blog do Mauro Cézar Pereira no UOL. Sacou o tamanho do problema?

Com uma arrecadação muito mais baixa em 2020, o Cruzeiro tem um grande problema nas mãos. Muitos dos seus jogadores possuem salários altíssimos, mesmo para os padrões de Série A, e contratos longos. Isso coloca o Cruzeiro em uma situação muito frágil: precisa negociar os jogadores, seja como for, para baixar drasticamente a sua folha salarial. Só que com a corda no pescoço, dificilmente conseguirá valores de venda alto para esses jogadores. É mais provável que muitos deles saiam até de graça.

Há mais problemas. Alguns jogadores, muito criticados pela torcida, podem fazer jogo duro para deixar o clube e rescindirem seus contratos, porque possuem salários que dificilmente conseguirão manter em outros clubes. Assim, com os atrasos constantes de salários, os jogadores podem acionar o clube na justiça e tornar o montante de dívida ainda maior. Para ficar em um exemplo, o volante Bruno Silva, cedido pela Raposa ao Internacional, acionou o clube na justiça por atraso no pagamento da sua rescisão contratual, na casa dos R$ 2 milhões.

Todo esse cenário é muito diferente de outros clubes. Todos os que caíram viviam problemas financeiros de alguma ordem, mas o que o Cruzeiro vive, somado à queda muito mais vertiginosa da cota de TV sem o paraquedas de ter a mesma cota da Série A, significa que o Cruzeiro terá dificuldades adicionais.

E olha que os últimos clubes grandes que caíram sofreram. Basta lembrar que Vasco, rebaixado em 2015, sofreu na Série B de 2016 e não subiu como campeão – foi apenas o terceiro colocado. O Internacional, rebaixado em 2016, subiu também sem ser campeão, como segundo colocado, em 2017. Ambos tinham a cota de TV da Série A.

Por tudo isso, a situação do Cruzeiro é diferente dos demais clubes que caíram. Será preciso montar um time efetivamente de Série B, ainda que um time rico da segundona. Como fazer isso será bastante complicado para o Cruzeiro, afundado em dívidas. É possível, porque o Cruzeiro, com todos os problemas, segue sendo um gigante, com uma torcida muito maior que a maioria dos times da Série B. Mas será preciso algo que o clube não teve: gerir muito bem o time, montar um time barato e eficiente.

Para o Cruzeiro, o desafio é grande. Enxugar a folha salarial e montar um time de Série B, sem nunca ter feito isso, é difícil. Há uma grande chance do Cruzeiro montar um elenco mais caro do que a maioria da Série B sem que a diferença em campo seja tão grande. O rebaixamento é um problema sério, mas pior do que cair é não subir. E por mais improvável que pareça, o rebaixamento era uma realidade impensável no começo de 2019. É preciso deixar as barbas de molho e começar a trabalhar agora para evitar que o ano novo seja mais um pesadelo para a Raposa.

Enchendo o pé

Primeira página

O Goiás terminou o Campeonato Brasileiro vencendo o Grêmio por 3 a 2 em Goiânia. Tudo bem, era um Grêmio recheado de reservas. Mesmo assim, o Goiás, um time que veio da Série B, o que por si já o torna um candidato ao descenso, conseguiu terminar o Brasileirão em 10º, na primeira página da classificação, à frente de clubes como Vasco, Atlético Mineiro, Fluminense, Botafogo e, claro, Cruzeiro.

Última página

O técnico Argel Fucks, do Ceará, que até outro dia estava no CSA – ele saiu do clube uma rodada antes do rebaixamento matemático dos alagoanos, migrando para os cearenses -, disse que “missão dada é missão cumprida”, em referência ao fato do Ceará ter se salvado. Em três jogos sob o comando de Argel, Ceará fez dois pontos. O clube teria se salvado mesmo que tivesse perdido os três jogos. Foi o Cruzeiro que não conseguiu sair da lama. São cinco derrotas consecutivas do Cruzeiro. Argel não salvou o Ceará. Foi o Cruzeiro que não conseguiu fazer a sua parte. Não por acaso, o Ceará é o time com a menor pontuação a se salvar na história dos pontos corridos com 20 clubes, 39 pontos.

Apoteose

Aquela que pode ter sido a despedida de Jorge Sampaoli foi daqueles jogos marcantes. Santos e Flamengo têm muitos grandes jogos na história e a última rodada do Brasileirão foi caprichosa ao colocar o primeiro contra o segundo, ainda que com o campeonato definido há muito tempo. O Santos jogou como se espera de um jogo desse tamanho, jogou muito e contou com Carlos Sánchez e Yeferson Soteldo brilhando, como fizeram em grande parte do ano. Um 4 a 0 sobre o Flamengo, que jogou com o seu time principal, exceto por Rafinha, é algo enorme. Mesmo que se questione a motivação do time rubro-negro, o que rolou na Vila Belmiro é daqueles jogos que devem ficar marcados.

Pequeno  gafanhoto

O meio-campista Igor Gomes terminou o ano em alta no São Paulo. O clube deu férias antecipada a boa parte do elenco e levou um time de garotos para a rodada derradeira do Brasileirão, com Igor Gomes sendo o principal destaque, praticamente o único titular em campo. Vestiu ainda a braçadeira de capitão. O meia se tornou um jogador importante em um time que rendeu muito abaixo do esperado, inclusive com grandes contratações no começo do ano, como Hernanes e Pato. Um meia inteligente, participativo e bom em vários aspectos técnicos, é um jogador que tem tudo para crescer ainda mais em 2020. O São Paulo termina o ano sabendo que começará o ano com Fernando Diniz como técnico e Raí como diretor. No time, tem um meia, alto, elegante e um camisa 10 na posição (embora 26 na camisa) que dá alguma esperança.