Pouco depois da Copa do Mundo fui para a Argentina. Durante o tempo em que fiquei por lá, algumas coisas me chamaram a atenção. Obviamente, a zoeira, sempre ela, era presente diariamente pelo 7 a 1 recente e o ótimo Mundial da Albiceleste que, segundo os hermanos com quem conversei e boa parte da imprensa esportiva local, “só não venceu a Alemanha porque foi roubada e a Fifa não quis”. Mas um ponto bem interessante foi a pergunta que todos, sem exceção, me faziam: “o Brasil não tem nenhum centroavante melhor que esse Fred?”. Com aquela inveja dos vizinhos que têm um caminhão de excelentes opções ofensivas, respondia que não e a questão era complicada.

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“Uns garotos promissores como Pato e Keirrison surgiram muito bem anos atrás, mas não vingaram. O mesmo vale para Leandro Damião. Luís Fabiano, nosso centroavante em 2010, nunca foi unânime na seleção e não vem jogando bem. Alan Kardec não tem feito o suficiente para isso e o pior: Diego Costa, que seria nosso titular fácil e é um dos melhores do mundo na posição, escolheu jogar pela Espanha por vários motivos. O jeito foi ir de Fred mesmo, mas acho que podíamos ter jogado sem centroavante. O Brasil passa por uma crise na posição”, dizia eu, que nem sempre dava uma resposta tão extensa, obviamente.

Nota: nada contra Fred, que já provou, diversas vezes, que é o melhor nove em atividade no Brasil. Não é por sorte que foi artilheiro do último Brasileirão mesmo com o ano conturbado. No entanto, também já é fato comprovado que não é jogador de nível de seleção nacional, como o Mundial escancarou e sua passagem pelo futebol europeu também

Os argentinos não acreditavam ser possível que, num país que contou com Careca, Romário e Ronaldo em sequência, e ainda teve Adriano durante um tempo, não existia nenhum camisa 9 melhor que o avante do Fluminense. É algo que muitos brasileiros também não digeriram ainda. Não é culpa apenas da safra, que realmente não é lá essas coisas, mas também da estrutura do futebol brasileiro. As categorias de base precisam ser tratadas com mais profissionalismo, tanto na estrutura quanto na qualidade e pessoas certas para realizar o trabalho. Falta planejamento e organização. O descaso, principalmente por parte da CBF, que não faz os devidos investimentos, reflete nessa crise. Os talentos não surgem apenas por geração espontânea e sorte. Falta investimento. Falta profissionalismo.

As categorias de base brasileiras estão entregues aos empresários e ao futebol de resultado, essa mentalidade e cultura tão atrasadas que ainda perduram nas terras tupiniquins. Ao invés de priorizar a formação de talentos, preferem garotos de força física, que possam desequilibrar no corpo para ganhar campeonatos. Além disso, os empresários estão, cada vez mais, prejudicando o setor. Muitos garotos talentosos não conseguem futuro no futebol e espaço na base pelos acordos de empresários nos clubes. O velho “QI” ou “peixada”. Não à toa, vira e mexe um talento tupiniquim faz sucesso na Europa e acaba jogando por outro país, como Diego Costa e Deco, por exemplo. A CBF, atualmente, está tentando evitar isso, o que, no fundo, é mais um erro. A confederação não deve ir para a Europa evitar que um brasileiro jogue por outro país, mas sim evitar o êxodo e garantir que o talento tenha espaço em sua própria terra.

O reflexo

Colhemos o que plantamos, e a situação do nosso futebol é refletida não apenas na ausência de um camisa 9 típico na seleção, mas também nos clubes. Os dois principais times brasileiros nos últimos dois anos, Atlético Mineiro e Cruzeiro, comprovam tudo isso. Enquanto a Raposa apostou em Borges no ano passado e em alguns jogos revezou Willian e Ricardo Goulart no lado esquerdo do ataque e como referência, o Galo contou com Jô. Willian e Goulart são meias que se infiltravam para fazer a função na ausência de opções para o setor. Borges sofre com lesões e não é o melhor centroavante que você já viu. Jô, por sua vez, teve um bom período, foi artilheiro da Libertadores em um esquema peculiar de Cuca, mas depois não fez muita coisa. Se firmou na seleção com alguns gols na Copa das Ilusões, no entanto, nunca fez nada no futebol europeu e no Brasil, tirando uma boa fase no Galo. Não à toa, está para deixar o clube – além da péssima fase, por indisciplina.

Já em 2014, o Cruzeiro apostou no boliviano Marcelo Moreno. Um estrangeiro foi o centroavante do bicampeão brasileiro. Enquanto isso, o Atlético Mineiro, após os seguidos insucessos de Jô e André, achou o caminho com uma formação diferente de Levir Culpi. O treinador optou por um esquema sem um camisa 9 fixo. Carlos, Diego Tardelli e até os meias se revezevam e infiltravam para atuar na função no momento dos ataques. A revelação do Galo e o atacante da seleção brasileira não jogam como referência, mas sim abertos pelos lados do campo, se movimentando muito e fazendo a função dependendo do ataque. Tardelli, por sinal (que atuou aberto pela esquerda durante o título da Libertadores e boa parte de 2013 e 2014), tem extrema liberdade para jogar e aparece em todos os setores do campo.

E isso não mudará em 2015. Galo e Raposa correram atrás de estrangeiros para reforçar seus ataques. Os alvinegros contrataram o argentino Lucas Pratto. Já os celestes vão contar com o camaronês Joel, que veio do Coritiba. Se você ainda tinha dúvidas ou não acreditava muito nessa história de crise do centroavante no país, não tenha mais: os dois principais times brasileiros foram atrás de estrangeiros para usar a camisa 9 e a seleção tupiniquim não tem um centroavante (ou pelo menos um jogador que não tem atuado como centroavante típico) trajando a camisa que já foi de Ronaldo. Nada contra Tardelli, que é um excelente jogador e merece ser o atacante do escrete canarinho. É o melhor “9” em atividade no futebol brasileiro.

Levir com mais opções

Voltando aos rivais mineiros, Lucas Pratto é um jogador que me chama a atenção desde que estava na Universidad Católica. Corpulento e com um jeitão meio desengonçado, não levava muita fé nele, mas só até vê-lo jogar pela primeira vez. Foi na Libertadores de 2011, curiosamente, numa vitória dos chilenos sobre o Vélez Sarsfield, por 4 a 3, com dois gols de Pratto. Naquele mesmo torneio, o atacante ainda marcou dois gols no Grêmio, nas oitavas de final, e teve o mesmo número de tentos de Neymar, que brilhou no Santos campeão, com seis bolas nas redes.

Depois, vi o corpulento atacante ter uma passagem apagada pelo futebol italiano mas acumular bons jogos pelo Vélez. Pratto não é um poste e tem intimidade com a redonda: possui bom domínio de bola, técnica e sabe driblar. Mas, principalmente, é um excelente finalizador, algo que fez falta para o Galo neste ano. Ele não treme na frente do goleiro adversário e finaliza bem de curta, média e inclusive longa distância. Também é bom cobrador de faltas e pênaltis.

Não à toa, ele foi o artilheiro do Campeonato Argentino com 11 gols e eleito o melhor jogador argentino de 2014. Nos anos anteriores, Pratto não alcançou o topo da artilharia nacional, mas sempre esteve próximo disso e marcando gols importantes para o Vélez, como os sete no título do Torneio Inicial de 2012, quando, por sinal, atuou como segundo atacante, formando dupla com o centroavante Facundo Ferreyra.

Além disso, ele ajuda na marcação, voltando para marcar os homens de meio-campo e os laterais adversários, e, apesar de ser centroavante, também cai pelos lados da cancha, como Diego Costa faz no Chelsea, por exemplo. O camisa 9, como tudo no futebol, se modernizou.

Falando assim, parece que Pratto é um gênio. Não é assim, mas é um bom jogador e ótimo reforço para o Atlético Mineiro. Tem tudo para ir bem, não só pela qualidade que tem, mas por chegar numa equipe pronta, que não deve sofrer muitas mudanças e está em lua de mel com a torcida. O Vélez tinha propostas melhores de León e Flamengo, mas o próprio jogador quis ir para o Galo. Bom para Levir Culpi ter em mãos um centroavante que também pode jogar mais recuado ou aberto pelos flancos, revezando com Tardelli e Carlos na referência e pelos lados do campo, com Luan e Dátolo vindo de trás. São mais alternativas de jogo para o treinador que fez um ótimo trabalho em 2014.

Africano na Raposa

Do outro lado da rivalidade mineira, o estrangeiro também me chamou a atenção. Afinal, um forasteiro do outro lado do mundo fazendo sucesso no Brasil não é algo exatamente comum. Kazuyoshi Miura, um dos maiores jogadores da história do futebol japonês, fez sucesso no país, principalmente pelo mesmo Coritiba de Joel e pelo Santos, onde Maezono, outro nipônico, também teve seus momentos, mas não passa disso.

De qualquer forma, os oito gols do camaronês no Brasileirão, sendo que ele chegou ao Coxa apenas em setembro e se tornou peça fundamental para Marquinhos Santos, sendo titular em 17 das 20 partidas que fez, merecem destaque. Adaptado ao Brasil, Joel está no país desde 2009 e seus momentos de brilho não se resumem ao Coxa. Ele também foi muito bem no Londrina, onde teve sua formação profissional, antes de ir para um dos grandes do Paraná.

O Cruel merece a chance dada pelo Cruzeiro e tem tudo para se destacar. O africano tem qualidade e chega num time pronto, que não deve sofrer profundas mudanças. É bem verdade que a Raposa ainda corre atrás de outro centroavante, mas Joel deve ter suas oportunidades. Inicialmente, não deve ser titular incontestável como Pratto será no rival, mas deve ganhar a posição dependendo do mercado celeste para a posição.

O time azul tenta manter Marcelo Moreno ou então contratar Fred ou Leandro Damião. As duas primeiras opções não devem se concretizar, mas a terceira, pelo que se fala na Toca, está próxima de ser confirmada. No início do texto citei Damião como um jogador que surgiu como esperança, mas não passou disso e teve anos ruins recentemente, inclusive no Santos. Naturalmente, ele não inspira muita confiança. Pode dar certo caso reforce o Cruzeiro, já que chegaria em um time pronto e sabe jogar – ninguém desaprende -, mas a expectativa não é das melhores. Ao que tudo indica, os dois melhores clubes do país na atualidade terão estrangeiros como centroavantes em 2015, enquanto o futebol brasileiro sofre com a falta de camisas 9 de qualidade.