Poucos campeonatos no mundo cultuam tanto os seus artilheiros quanto La Liga. O prestigioso Troféu Pichichi é reconhecido em diversos cantos do planeta. E há alguns nomes célebres entre seus vencedores. Nos últimos anos, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo monopolizam a honraria. Telmo Zarra, Alfredo Di Stéfano e Ferenc Puskás também desfrutaram de seus períodos de hegemonia. Já entre os maiores “campeões”, há um mito que, a quem vê de fora do país, nem sempre costuma ser relacionado entre os maiores matadores do Espanhol. Quini está no mesmo patamar de Di Stéfano e Hugo Sánchez, com cinco artilharias cada, abaixo apenas de Telmo Zarra. Se juntarmos a segunda divisão, então, são sete Pichichi’s ao goleador. Figura lendária no Sporting de Gijón e adorado também no Barcelona, que faleceu nesta terça, aos 68 anos, vítima de uma parada cardíaca.

Mais do que o ídolo-mor do Sporting de Gijón, Quini também é considerado um embaixador das Astúrias. O centroavante não era o mais alto e nem o mais forte, mas possuía um faro de gol impressionante. Resolvia as jogadas com inteligência, em poucos toques, com uma velocidade de raciocínio tremenda. E unia o gatilho rápido à precisão em seus arremates (sobretudo de cabeça) e ao bom posicionamento. É o oitavo maior artilheiro da história do Campeonato Espanhol, com 219 gols na primeira divisão. Foram oito temporadas na carreira com pelo menos 20 gols anotados pela liga – considerando aí também a segundona. Era ‘El Brujo’, por suas magias com a bola rumo às redes.

Quini nasceu em Oviedo, filho mais velho em uma família de três irmãos boleiros. Talvez, de tanto sofrerem com os chutes do primogênito, os mais novos aprenderam a arte de defender o gol: tanto Rafael quanto Jesús foram goleiros, este acompanhando o próprio Quini no Sporting de Gijón. O atacante chegou ao clube em novembro de 1968, aos 19 anos. Na época, se destacava na terceira divisão pelo Ensidesa e chegou a recusar uma proposta do Real Oviedo. A chave na negociação foi o confronto com a filial dos rojiblancos, em que anotou quatro gols. Não havia dúvidas sobre o talento que despontava.

Não demorou a Quini causar impacto em Gijón. Na sua segunda temporada, ajudou o clube a retornar à elite do Campeonato Espanhol após uma década na segundona. Mais do que isso, registrou a artilharia da competição. Em outubro de 1970, ganhou a primeira convocação à seleção espanhola principal, chamado por László Kubala. E foi com a camisa da Fúria que viveu o primeiro dos grandes dramas da carreira. Em fevereiro de 1972, durante um amistoso contra a Irlanda do Norte, levou uma cotovelada de George Best e fraturou o osso malar – a popular “maçã do rosto”. Por isso, permaneceu um ano parado.

O retorno, mais uma vez, foi arrasador. Em sua primeira temporada completa desde então, Quini terminou com a artilharia do Espanhol em 1973/74, ajudando o Sporting de Gijón a escapar do rebaixamento. O clube não tinha grandes ambições e, apesar da nova artilharia de Quini, amargaria a queda em 1975/76. E mesmo com ofertas suntuosas pelo craque, a diretoria rojiblanca recusava a vendê-lo. O Barcelona era o maior interessado, oferecendo fortunas aos asturianos, que não se rendiam. Em tempos nos quais os jogadores eram praticamente reféns de seus passes, o centroavante pensou mesmo em pendurar as chuteiras. Mas, apesar do descontentamento público, seguia fazendo sua parte em campo. Certa feita, antes de um jogo contra o Espanyol no Molinón, entrou em campo vaiado por declarações à imprensa local. Terminou o dia aplaudido, pelos quatro gols que fez.

Na segunda divisão, Quini deu o acesso rápido ao Sporting desta vez, novamente goleador da liga. E protagonizaria sua melhor forma a partir da volta à elite. Em 1977/78, os rojiblancos se classificaram pela primeira vez à Copa da Uefa, com uma honrosa quinta colocação. E o centroavante disputou a sua primeira Copa do Mundo, na Argentina. Entrou em apenas um jogo, saindo do banco contra a Áustria. A seleção espanhola caiu na fase de grupos.

Já o melhor ano da carreira de Quini aconteceria em 1978/79. O Sporting de Gijón disputou ponto a ponto o topo do Campeonato Espanhol com o Real Madrid. Chegou a liderar o campeonato em seis rodadas durante o segundo turno, até os merengues recuperarem a ponta no confronto direto, com o triunfo por 1 a 0 no Molinón. Ao final, a taça terminou no Bernabéu. O vice, porém, já representava demais aos asturianos, quatro pontos atrás. Quini foi o grande artífice daquele time, autor de 23 gols – incluindo uma tripleta contra o Barcelona. Na meta, o titular era seu irmão mais novo, Jesús Castro.

Quini permaneceu no Sporting de Gijón por mais uma temporada. Foi o Pichichi pela terceira vez na elite em 1979/80, auxiliando os rojiblancos a terminarem na terceira colocação, novamente classificados à Copa da Uefa. Em junho, o centroavante também integrou a seleção espanhola que participou da Euro 1980, eliminada na fase de grupos. E o seu destino seria diferente na sequência da carreira. Aos 30 anos, enfim, ganhou o passe livre para deixar o Molinón. Juntou-se ao Barcelona, cumprindo o sonho de consumo dos catalães. Seria o homem de referência no time treinado inicialmente por László Kubala, depois substituído por Helenio Herrera. Atuaria ao lado de Allan Simonsen e Bernd Schuster, seu grande amigo.

Seria uma temporada de sonho a Quini no Camp Nou. Seria, não fosse o acontecimento que marcou sua vida. Em março de 1981, após uma goleada sobre o Hércules, o centroavante foi rendido por dois indivíduos e sequestrado. Permaneceu 25 dias no cativeiro, até ser liberado com ajuda da polícia, depois que os meliantes exigiram o pagamento do resgate pelo Barcelona. Neste intervalo, os jogadores blaugranas ameaçaram uma greve até que o caso se resolvesse, mas seguiram jogando e deixaram a corrida pelo título no Campeonato Espanhol, especialmente após uma derrota para o Atlético de Madrid no Calderón. Ainda assim, o centroavante terminou como Pichichi. E voltaria a tempo de conquistar o primeiro título na Catalunha. Esteve presente na decisão da Copa do Rei de 1981, justamente contra o Sporting de Gijón. O Brujo anotou dois gols na vitória por 3 a 1.

Pichichi pela sétima vez na carreira em 1981/82, a quinta na primeira divisão, Quini viveu seus últimos grandes momentos. O Barcelona competiu com a Real Sociedad até o fim do Espanhol, mas terminou com o vice. Compensou a tristeza com o título da Recopa Europeia de 1982. Na decisão, coincidentemente disputada no Camp Nou, coube ao camisa 9 assinalar o gol que determinou a vitória por 2 a 1 sobre o Standard de Liège. Também teve a honra de disputar a Copa do Mundo de 1982 em seu país. Apareceu em três partidas, com a Espanha caindo na segunda fase de grupos. Neste momento, encerrou sua história pela Fúria, com 35 jogos e oito gols. Muitas vezes sem atuar como homem de referência, não repetiu o sucesso dos clubes com a equipe nacional.

Já veterano, Quini viveu o declínio de sua carreira depois disso. Já não conseguiu ser tão importante ao Barcelona nas duas temporadas seguintes, nas quais reconquistou a Copa do Rei em 1983, como reserva. Em 1984, decidiu se aposentar, ganhando uma partida de homenagem que contou com a presença de Diego Maradona (a despeito da recusa inicial do presidente blaugrana José Luis Núñez, em litígio com o argentino) e Johan Cruyff, entre outros. Depois, o centroavante mudaria de ideia. Retornou ao Sporting de Gijón, onde atravessou os três últimos anos da carreira, ainda idolatrado no Molinón. Aposentou-se aos 37, com uma carreira respeitabilíssima. Adorado por seu cavalheirismo em campo e por sua postura ética com os companheiros, se tornou figura adorada além de rojiblancos ou blaugranas. Foi, de fato, um símbolo do futebol espanhol na virada dos anos 1970 para os 1980. Em 2003, recebeu ao lado de Zarra o “Pichichi de Ouro”, como espanhóis vivos com mais gols em La Liga.

O tamanho de Quini? Nada define melhor que as declarações de David Villa, seu conterrâneo, diante da notícia sobre o falecimento: “Quando dava meus primeiros passos nesta profissão, tive a sorte de ser abençoado pelos conselhos do melhor atacante espanhol de todos os tempos. Nunca poderia ter chegado onde cheguei sem sua ajuda ao começar minha carreira. Serei eternamente agradecido, amigo. Recordo que me pediu para algum dia ser melhor atacante que você. Peço perdão por não ter conseguido. Essa era uma missão impossível para qualquer atacante que quisesse tentar. Estou seguro que aí em cima te chamaram, porque a equipe do céu necessita de gols e levaram o melhor. Vamos sentir muito a sua falta. Estará sempre nas minhas lembranças. Te amo muito”.


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