Em 1998, a Champions League não era apenas uma obsessão do Real Madrid para se referendar como o clube mais poderoso da Europa. A competição também era um elo perdido com o passado arrebatador dos merengues, que ficara para trás. Após o penta continental de 1956 a 1960 e a reconquista em 1966, o clube passou mais de três décadas sem arrebatar a Europa. Até levou um bi da Copa da Uefa nos anos 1980, mas nada que satisfizesse por completo os anseios titânicos dos madridistas. A espera se encerrou naquele 20 de maio de 1998, em Amsterdã, quando finalmente La Séptima se concretizou. Lorenzo Sanz era o presidente que conduziu os blancos de volta ao topo. E, neste sábado, a comunidade ao redor do Real Madrid se relembra do dirigente, vítima do coronavírus aos 76 anos.

Lorenzo Sanz havia sido internado na terça-feira. O empresário sentia dificuldades para respirar desde uma semana antes, segundo seu filho, mas evitou a visita ao hospital por não achar sério o suficiente para saturar mais os atendimentos. Quando já estava em um estágio mais crítico, aceitou consultar o médico e acabou levado à UTI. Por já ter problemas de diabetes, rins e circulação, suas condições eram graves e o idoso não resistiu à doença. A notícia foi confirmada em comunicado oficial pelo Real Madrid.

Nascido em Madri, Sanz veio de uma família humilde, irmão mais velho entre dez filhos. E a relação com o Real Madrid começou desde cedo: sua avó vendia água na entrada do então chamado Estádio de Chamartín, o atual Santiago Bernabéu, e o garoto de sete anos a acompanhava. Por vezes, também ia com seu pai assistir aos jogos no anel superior, onde as entradas eram mais baratas. Esteve presente na final da Copa dos Campeões de 1957, faturada contra a Fiorentina dentro de casa. E, ante o gosto pelo esporte, chegou a atuar como goleiro em equipes amadoras. Defendeu até mesmo um time da terceira divisão, mas, precisando de dinheiro para ajudar em casa, buscou outros caminhos.

Sanz primeiro abriu uma fábrica de botões e tentou negócios em diferentes áreas. Inclusive, em anos de reabertura política após o fim da ditadura franquista, chegou a comandar a publicidade da Fuerza Nueva, um partido extremista de ordem neofascista que defendia até mesmo atentados – do qual fizeram parte outros personagens do futebol, entre eles Javier Tebas, atual mandatário de La Liga. Já a fortuna do madrileno se formou quando apostou na especulação imobiliária e passou a ter cavalos de corrida.

No hipódromo, Sanz retomou seu sonho no futebol. Conheceu Ramón Mendoza, então presidente do Real Madrid, e foi convidado para integrar a diretoria dos merengues a partir de 1985, ascendendo depois à vice-presidência. Integraria anos vitoriosos, com os dois títulos da Copa da Uefa e o pentacampeonato espanhol alcançado pela Quinta del Buitre. Já em 1994, diante de uma séria crise financeira, Sanz salvou os madridistas da bancarrota. Avalizou parte do dinheiro necessário à agremiação e, com a renúncia de Mendoza, o empresário assumiu à presidência em 1995. Não era um homem de holofotes, mesmo reconduzindo o time a eles.

Sanz participaria ativamente da retomada do Real Madrid. O clube havia rompido o tetracampeonato do Barcelona no Campeonato Espanhol e, com as dívidas contornadas, montou equipes mais competitivas. Não dá para dizer que os merengues viviam necessariamente uma estabilidade, sobretudo pela vida curta de muitos de seus treinadores neste período, inclusive os vitoriosos, e pelas crises institucionais. Mesmo assim, com a Lei Bosman e a abertura das fronteiras na Europa, a formação de um elenco com estrelas internacionais aconteceu. Através dessa estratégia de mercado, a espera pela Champions se encerrou após 32 anos.

“Devolvemos os sonhos às pessoas: isso é o que me representa a presidência”, diria. E não havia sonho maior do que a conquista continental, celebrada em cima de uma poderosa Juventus, com o inesquecível gol de Predrag Mijatovic em Amsterdã. O Real Madrid, incontestavelmente, se recolocou como uma potência. A data de 20-05-98 virou o número de celular de Sanz. E nem demoraria tanto assim a repetir o feito: seu oitavo título no torneio se consumou dois anos depois, agora em Saint-Denis, numa vitória incontestável sobre o Valencia na decisão de 2000. Sob a estrela de Raúl e outros jogadores icônicos, os merengues redescobriam seu histórico prestígio.

Se não pôde jogar profissionalmente, Lorenzo Sanz viu os seus filhos realizarem seus sonhos – ainda que o espaço dado a eles fosse um pouco contestável. O primogênito, também chamado Lorenzo, chegou a integrar a equipe de basquete do Real Madrid, em curta carreira. Paco atuou na base merengue do futebol, antes de passar por Oviedo, Racing de Santander e Mallorca. Já o zagueiro Fernando teve relativo sucesso, ao integrar o time principal dos madridistas, com aparições esporádicas em campo de 1995 a 1999, antes de defender o Málaga até 2006. Uma de suas filhas ainda foi casada com Michel Salgado, levado ao Bernabéu pelo presidente.

Todavia, os títulos não sustentariam Sanz na presidência do Real Madrid. Em julho de 2000, dois meses após a segunda conquista continental, o dirigente antecipou as eleições e perdeu o pleito contra Florentino Pérez. Manteria uma relação cordial com o rival político, que iniciou a era dos galácticos e de contratações ainda mais expressivas. Sanz tentaria retornar ao cargo em 2004, mas perdeu outra vez para Florentino, que obteve 91% dos votos. A partir de então, seguiria o Real Madrid apenas de longe.

Paralelamente às derrotas no clube, Sanz viu seus negócios perderem força e também acumulou problemas com a justiça – o que o atrapalhou nas eleições, logicamente. Embora o nepotismo fosse a principal acusação contra o dirigente, como empresário ele teve entraves bem mais sérios. Ainda em 1998, seria imputado por uma operação imobiliária na qual se beneficiou, em irregularidade que se repetiria mais vezes. Enfrentou outras acusações, incluindo contrabando de bens culturais. Já em 2018, seria condenado por sonegação.

Na década de 2000, Lorenzo Sanz também chegou a adquirir o Parma e o Málaga, este presidido por seu filho Fernando entre 2006 e 2010. De qualquer maneira, os laços mais fortes são com o Real Madrid. Apesar dos asteriscos óbvios em sua biografia e das necessárias contestações, a torcida merengue não tem muito a reclamar do dirigente. Viveu bons anos com ele e viu o início da ascensão que recolocou o clube no topo da Europa. Além do mais, ao menos o apreço de Sanz pelo clube era inquestionável. Como pontuou a nota oficial: “Hoje, o madridismo está de luto ante a perda de um presidente que dedicou grande parte de sua vida à sua grande paixão, o Real Madrid. Dada as circunstâncias atuais, o Real Madrid renderá quando possível o reconhecimento que merece”.