Foi em janeiro de 2000 que, pela primeira vez, Marcos Alonso Peña resolveu dar uma chance a um garoto muito promissor que surgia nas categorias de base do Sevilla. Os andaluzes enfrentavam o Zaragoza fora de casa. Faziam uma péssima campanha no Espanhol, ocupando a última colocação, e perdiam por 2 a 1. Ainda assim, o treinador fez sua cartada. Já aos 41 do segundo tempo, mandou a campo o prodígio: José Antonio Reyes. Aos 16 anos, ele se tornava o mais jovem da história a vestir a camisa rojiblanca na Liga. E essa precocidade fez com que nos acostumássemos tão rápido ao seu nome, seja integrando também os Invincibles do Arsenal, seja defendendo os dois grandes de Madri, seja retornando à Andaluzia para se tornar tricampeão da Liga Europa. Mesmo distante dos holofotes, Reyes seguia na ativa, jogando pelo Extremadura na segundona. E entristece saber que, mesmo tão jovem para a vida, aos 35 anos, o veterano do futebol faleceu em um acidente automobilístico neste sábado. Um dia de festa ao futebol europeu, com a decisão em Madri, também é de luto e condolências.

Reyes era cria da casa, nascido na própria região de Sevilha. Vinha de uma família humilde, de origem cigana. Chegou às categorias de base do Sevilla quando tinha somente dez anos e passou por todos os times menores – mesmo que isso representasse uma ascensão meteórica, imparável: aos 15 anos, assinou o seu primeiro contrato profissional. E não fosse a legislação espanhola, que só permite a um jogador entrar em campo acima dos 16 anos, poderia até ter estreado antes. Assim, naquele janeiro de 2000, se apresentava aos torcedores andaluzes como a próxima grande sensação do Ramón Sánchez-Pizjuán.

Ainda levou um pouco mais de tempo até que Reyes desabrochasse totalmente na equipe principal. O Sevilla, de fato, terminou a temporada rebaixado e ele disputaria apenas um jogo na segunda divisão. O momento da virada aconteceu em 2001/02. Sob as ordens de Joaquín Caparrós, o ponta virou titular na reestreia dos rojiblancos na elite. Mais do que isso, virou um fenômeno. Era deslumbrante o seu futebol de dribles, de jogadas incisivas, sem medo de encarar os marcadores. Logo virou um xodó no Nervión. Logo virou um dos jogadores mais efetivos do clube. Aos 18 anos, anotou oito gols em 29 partidas no Campeonato Espanhol de 2001/02. Ninguém tinha dúvidas de que, naquele momento, surgia um talento especial. Algo referendado com a seleção espanhola sub-19, campeão europeu da categoria em um timaço no qual também despontavam Fernando Torres e Andrés Iniesta.

A temporada seguinte de Reyes guardou sua afirmação. Não seria apenas a revelação de um ano isolado. Ele conseguiu manter o nível de desempenho altíssimo com o Sevilla, anotando mais oito gols em La Liga 2002/03. Seu futebol parecia maduro suficiente para as exigências de alto nível, especialmente por sua intensidade. Como comparou o Guardian, na época, era um “jogador de PlayStation” pela maneira como atuava com velocidade e rompia defesas. A seleção espanhola não perdeu tempo, promovendo sua estreia na equipe principal em setembro de 2003, durante amistoso contra Portugal. Um mês depois, pelas eliminatórias da Eurocopa, o prodígio já anotava dois gols na goleada por 4 a 0 sobre a Armênia. Contudo, acabou ficando de fora da lista ao torneio internacional.

Naquele momento, estava claro que a permanência de Reyes no Sevilla não duraria tanto. Os espanhóis o apontavam como um “projeto de galáctico”. De qualquer maneira, seu estilo parecia ideal para a Inglaterra, e o Arsenal levou a melhor. O ponta começou a temporada 2003/04 na Andaluzia, embalando a reafirmação dos rojiblancos com cinco gols durante o primeiro turno do Espanhol. Outros clubes se seduziram com seu futebol, mas o excelente momento do Arsenal certamente pesou para seduzi-lo. Era uma aposta cara dos Gunners. Arsène Wenger pagou €20 milhões pelo adolescente, um recorde para o clube – após o Sevilla recusar a proposta inicial de €10 milhões dizendo que “não valia nem as chuteiras” do xodó. O dinheiro ajudaria um clube que enfrentou sérios problemas de dívidas naqueles anos e logo ascenderia ao bicampeonato da Copa da Uefa. Enquanto isso, Wenger tinha em suas mãos uma das maiores promessas da Europa.

Reyes desembarcou no norte de Londres em janeiro de 2004. Vice-presidente do Arsenal, David Dean chegou a questionar se ele não estava no mesmo nível de Cristiano Ronaldo. Mesmo em um elenco tão tarimbado, que não havia perdido um jogo sequer na Premier League até então (e terminou se consagrando como os ‘Invincibles’), o espanhol conseguiu suas primeiras chances. Disputou 13 partidas pela liga, muitas vezes saindo do banco, mas já com contribuições fundamentais. Foi dele a assistência para Thierry Henry no empate por 1 a 1 com o Manchester United, em confronto direto ao topo da tabela. E na reta final, quando o time já era campeão, assegurou a invencibilidade com gols no empate contra o Portsmouth e na vitória sobre o Fulham. Seu tento mais notável, porém, não valeu tanto assim. Ele abriu o placar no jogo de volta contra o Chelsea nas quartas de final da Champions, mas sua equipe tomou a virada e foi eliminada em Highbury.

Não importava se o Arsenal tinha um elenco repleto de craques. Reyes já se tornou titular da equipe durante a temporada 2004/05. Atuando em qualquer uma das pontas, justificava a badalação com um desempenho fora do comum para um rapaz de 21 anos. Tanto é que, se a série invicta do Arsenal se ampliou um pouco mais no início da Premier League, a contribuição do Espanhol foi gigantesca. Anotou cinco gols nas cinco primeiras rodadas do campeonato, um por jogo. Após nove rodadas, somava seis gols e cinco assistências, levando os londrinos novamente à liderança. A badalação era tamanha que ele foi apontado como o “Jogador do Mês” em agosto de 2004. Embora a equipe tenha sido ultrapassada pelo Chelsea e seus números acabassem caindo, ainda assim foi um bom ano. Somou nove gols e 11 assistências em 30 partidas. Seria também campeão da Copa da Inglaterra, em vitória sobre o United na decisão.

Se em campo tudo parecia confluir para a idolatria de Reyes no Arsenal, fora dele o ponta não estava feliz. Mesmo vivendo com a família e recebendo o apoio do clube, ele sofreu com a adaptação a Londres e chegou a manifestar seu descontentamento com a cidade. Assim, por mais que continuasse como um nome recorrente na equipe de Wenger, ficaria por somente mais uma temporada em Highbury. Em 2005/06, seu nível de desempenho caiu, mas seguiu razoável. Ajudou com cinco gols e 11 assistências na Premier League, além de manter a titularidade durante quase toda a campanha até a final da Champions. Logo depois, foi reconhecido com a convocação à Copa do Mundo, sua primeira (e única) competição internacional pela seleção. Permaneceu no banco da Fúria, dando uma assistência na vitória sobre a Arábia Saudita, durante a fase de grupos.

A trajetória de Reyes no Arsenal, de qualquer maneira, estava próxima do fim. A recusa em participar de um jogo contra o Dinamo Zagreb acelerou sua transferência. Seu destino? Virar um galáctico, às vésperas de completar 23 anos. Ainda no início da temporada de 2006/07, os Gunners acertaram a transação com o Real Madrid, com a ida de Júlio Baptista a Londres, ambos emprestados. O que parecia ser a realização de um desejo ao espanhol, porém, custaria toda a badalação ao seu redor. Ele não se encaixou no Santiago Bernabéu. Integrou a conquista de La Liga, mas perdendo espaço no time ao longo da temporada. Ao final, virou um mero substituto, ainda que tenha sido decisivo ao título. Definiu a apertada vitória contra o Espanyol e, na última rodada, saiu do banco para buscar a virada contra o Mallorca, anotando dois gols no jogo que coroou os campeões. De qualquer maneira, aquele “jogador de PlayStation” não gerava as mesmas impressões positivas, sem a mesma efetividade vista no Sevilla ou no Arsenal.

Na temporada seguinte, sem desejar o retorno ao Arsenal, Reyes assinou com o Atlético de Madrid e não agradou. Era execrado pelos torcedores porque, na temporada anterior, recusou o pré-contrato que tinha com o Atleti para se juntar ao Real. Pior, seu desempenho em campo era péssimo. Depois, ficaria emprestado por uma temporada ao Benfica, onde recuperou um pouco de seu futebol. Já na volta ao Vicente Calderón em 2009/10, apesar das participações irregulares, elevou seu moral na reta final da temporada. Encerrou o jejum de gols, fez as pazes com a torcida e teve contribuição decisiva na conquista da Liga Europa. Anotou um gol e serviu três assistências, inclusive a que garantiu a vaga na final, municiando Diego Forlán na prorrogação contra o Liverpool. Depois, ainda balançou as redes na conquista da Supercopa Europeia contra a Internazionale.

Reyes faria uma boa temporada em 2010/11, entre os melhores jogadores do Atlético. Foram seis gols e oito assistências no Espanhol. Só que a paz não duraria tanto ao ponta. Apesar da recusa a uma proposta do Galatasaray, ele entrou em rota de colisão com o técnico Gregorio Manzano. Deixou o Calderón pela porta dos fundos, no inverno de 2011/12, exatamente no momento em que Diego Simeone assumia o comando dos colchoneros. A tranquilidade do espanhol estaria na velha casa, o Nervión. Aos 28 anos, com perspectivas bem diferentes sobre a sua carreira, retornou ao Sevilla. Por lá, desfrutaria um pouco mais da gratidão e da idolatria dos seus conterrâneos.

Nesta volta à Andaluzia, Reyes teve participações intermitentes no Campeonato Espanhol. Em compensação, era uma referência no grupo, tantas vezes utilizado a partir do banco de reservas. E faria história na Liga Europa. O veterano acumulou aparições importantes durante o tricampeonato continental dos rojiblancos. A grande contribuição no primeiro destes títulos já seria suficiente para torná-lo realmente eterno entre os ídolos do clube. Nas oitavas de final, o Sevilla encarou o Betis. Perdeu a ida por 2 a 0, mas buscou a remontada contra os rivais dentro do Benito Villamarín. O ponta abriu o placar em troco por 2 a 0, com a heroica classificação conquistada nos pênaltis. Na segunda campanha vitoriosa sob as ordens de Unai Emery, Reyes não foi titular sempre, mas usou a braçadeira quando começou jogando. Inclusive na final, a vitória por 3 a 2 sobre o Dnipro, em que deu uma assistência e ergueu a taça. Por fim, no tri, jogaria menos por uma contusão, ainda assim ajudando nas oitavas contra o Basel.

A despedida de Reyes no Sevilla aconteceu logo depois daquele título. Seu desejo era permanecer e encerrar a carreira no Ramón Sánchez-Pizjuán, mas a diretoria optou por não renovar o seu contrato. Diante da adoração da torcida, por toda a paixão que o ponta sempre demonstrou pelo clube, o rompimento seria doloroso. “Na primeira vez, deixei o clube entre lágrimas, mas contente porque minha ida ajudaria a sanar as dívidas do clube. Sabia que voltaria e assim fiz. Agora volto a ir entre lágrimas e quero que vocês se lembrem de mim como alguém que lutou até o final por nosso escudo”, declarou na época. Entre suas duas passagens, incluindo o tempo na base, vestiu as cores sevillistas por 15 anos. Foram 242 partidas, 37 gols e 37 assistências pelo clube, além de quatro taças conquistadas.

O final de carreira de Reyes vinha sendo opaco. Em 2016/17, assinou com o Espanyol e não teve grande rendimento no clube. Na temporada seguinte chegou às divisões de acesso e vestiu a camisa do Córdoba, antes de juntar um dinheiro no Xinjiang Tianshan Leopard, da segunda divisão chinesa. Por fim, desde janeiro estava no Extremadura, já satisfeito em auxiliar na permanência da equipe na segundona. Na última quarta-feira, permaneceu no banco durante o empate contra o Lugo. Já neste sábado, veio a triste notícia. Reyes faleceu em um acidente de automóvel, aos 35 anos. O desastre também vitimou dois primos do jogador, um deles ainda socorrido, mas sem resistir às queimaduras em seu corpo.

O respeito a Reyes e as condolências ao jogador foram imediatas. O Sevilla homenageou o seu ex-capitão e declarou luto, ganhando o apoio do Betis, assim como de diversos outros clubes da Espanha e da Europa. Os demais times nos quais o ponta atuou também manifestaram seu pesar. “Estou devastado em ouvir as notícias terríveis sobre José. À sua família e aos seus amigos, todo o apoio da família do Arsenal. Ele permanecerá para sempre em nossos corações”, declarou Arsène Wenger. Que não tenha sido tudo aquilo que apontou no começo da carreira, Reyes deixou seu nome marcado. Os sevillistas, principalmente, sabem a sua verdadeira dimensão. Carregarão nas lembranças o talento irresistível dos primeiros anos e também o capitão das glórias continentais. Uma lenda do Nervión, agora eternizada apenas na memória.