O nome de Joaquín Peiró suscita lembranças gloriosas aos torcedores mais velhos na Espanha e na Itália. O atacante, afinal, participou de momentos vitoriosos em ambos os países. Nascido em Madri, colocou-se como um dos grandes ídolos do Atlético na virada dos anos 1950 para os 1960 e acumulou por lá as suas primeiras taças. Sua fama superou as fronteiras e ele se aventuraria como um dos primeiros craques espanhóis no exterior. Seguiu ao Torino, foi campeão europeu pela Inter e até usaria a braçadeira da Roma. Neste ínterim, ainda disputou duas Copas do Mundo pela Espanha. Uma verdadeira lenda que, em meio a semanas apreensivas na Europa, se despediu de seus saudosos fãs. Aos 84 anos, Peiró faleceu nesta quarta-feira, em Madri. A causa da morte não foi divulgada até a publicação deste texto.

Peiró começou nas categorias de base do Atlético de Madrid, mas não seria aproveitado de imediato na equipe principal colchonera. O atacante foi emprestado ao Real Murcia, que defendeu por uma temporada. E logo ficaria claro que existia um projeto de craque por ali: o rapaz de 18 anos seria fundamental ao acesso dos murcianos na segunda divisão. Anotou 15 gols em 22 partidas, vice-artilheiro na campanha do título na segundona 1954/55. Voltaria de imediato ao Atleti, ao lado de Enrique Collar – outra lenda rojiblanca.

O retorno a Manzanares garantiria ao Atlético de Madrid um novo ídolo. Peiró ainda não seria titular logo de cara em sua primeira temporada, mas conquistou a posição na reta final de La Liga e registrou a respeitável marca de nove gols ao final das campanhas. Jogando como “interno esquerdo” na linha de cinco atacantes do Atleti, entre o ponta e o centroavante, o prodígio chamava atenção por sua imensa velocidade. Costumava deixar os marcadores comendo poeira quando acelerava em suas arrancadas, facilitando o caminho ao gol. Assim, ganhou o apelido de “Galgo’, uma referência aos cães de corrida.

A partir da temporada 1956/57, Peiró se tornou intocável nas escalações do Atlético de Madrid. E sua importância era expressa dentro de campo, sempre com dois dígitos em seu número de gols. Naquele momento, os colchoneros passariam a formar uma linha de ataque mítica: tinham Miguel Jones, Adelardo, Vavá (ou Mendonça), Peiró e Collar. Particularmente na esquerda, o entrosamento entre os canteranos Peiró e Collar rendeu o apelido de “ala infernal”. Faziam jus à fama, elevando o nível do Atleti no fim dos anos 1950.

Não eram tempos fáceis aos torcedores colchoneros. Após o bicampeonato em 1949/50 e 1950/51, o Atlético passou a transitar em posições medianas no Campeonato Espanhol. Quando a equipe se alavancou com seu quinteto famoso, porém, esbarrou nos portentosos times de Real Madrid e Barcelona. Assim, com os merengues dominando a Copa dos Campeões e os blaugranas bicando por vezes La Liga, os rojiblancos precisaram se contentar com taças paralelas. O que, no entanto, não diminuía o brilho daquela geração.

Enquanto Peiró jogava no Atlético, por duas vezes terminou com o vice no Espanhol, além de um terceiro lugar. Suas primeiras alegrias vieram na chamada Copa do Generalíssimo (a atual Copa do Rei), com o bicampeonato em 1960 e 1961. Foram dois títulos sobre o Real Madrid, ambos dentro do Estádio Santiago Bernabéu com mais de 100 mil torcedores. El Galgo seria protagonista em ambos. Primeiro, fechou a vitória por 3 a 1 contra os merengues em 1960. Um ano depois, de volta a Chamartín, Peiró guardou mais dois tentos na virada por 3 a 2.

Os títulos na copa nacional abriram as portas da recém-criada Recopa Europeia ao Atlético de Madrid. E os colchoneros conquistaram seu primeiro título continental em 1962, derrotando a Fiorentina na decisão. Quem apareceu outra vez? Joaquín Peiró. O atacante anotou o gol do empate em Glasgow e, em tempos nos quais não havia pênaltis, sacramentou o triunfo por 3 a 0 no replay da final em Stuttgart. Nome frequente nas convocações da seleção, disputou sua primeira Copa do Mundo entre um jogo e outro da Recopa. Esteve no Mundial do Chile, enfrentando México (com um gol marcado) e Brasil. A Fúria, todavia, caiu na primeira fase.

A fama gerada pela Recopa tornou Peiró cobiçado pelos clubes da Serie A, a liga nacional mais poderosa da época. O Atlético de Madrid viu uma oportunidade, em um momento no qual precisava de dinheiro para as obras do Estádio Vicente Calderón. Assim, o Torino acertou a transferência em outubro de 1962. El Galgo completou seu ciclo no Atleti com 219 partidas disputadas ao longo de oito temporadas. Anotou 129 gols, ocupando atualmente o posto de sétimo maior artilheiro da história colchonera. A torcida rojiblanca lamentou bastante o adeus.

Peiró levou um tempo para se adaptar ao Torino. Depois de uma temporada morna em seu primeiro ano na Itália, o atacante deslanchou na Serie A 1963/64. Foram nove gols em 32 partidas pelo campeonato, em campanha na qual o time de Nereo Rocco terminou com o sétimo lugar. Melhor seria a campanha na Coppa Italia, com o vice ante a Roma. Contudo, El Galgo deixara as convocações da Espanha naquele período e veria de longe a conquista da Euro 1964, que coroou uma série de craques do país.

O prestígio de Peiró voltaria a se elevar a partir de 1964/65, quando o espanhol acertou sua transferência para a Internazionale. Juntaria-se ao compatriota Luis Suárez Miramontes no time que faturara a Copa dos Campeões na temporada anterior, sob as ordens do célebre Helenio Herrera. Por causa do limite de estrangeiros, Peiró disputaria apenas 13 partidas na Serie A, com o privilégio dado pelo treinador a Suárez e ao brasileiro Jair da Costa. Em compensação, El Galgo seria titular absoluto na reconquista da Champions. Esteve em campo nos 90 minutos das sete partidas da campanha continental.

Em Milão, Peiró seria readaptado. Passaria a atuar como centroavante. Até mesmo seu apelido mudaria: El Galgo começou a ser chamado de Il Rapinatore, o “ladrão”. O espanhol anotou dois gols nas quartas de final contra o Rangers e ficaria marcado sobretudo por sua participação na semifinal contra o Liverpool. Os Reds ganharam em Anfield por 3 a 1 e, ainda assim, a Inter avançou com os 3 a 0 no San Siro. Peiró assinalou o segundo gol, num lance de malandragem, que deu motivos à sua alcunha: enquanto o goleiro Tommy Lawrence quicava a bola, Il Rapinatore bateu a carteira e mandou às redes vazias. Depois, ergueria a taça contra o Benfica, na final dentro do próprio San Siro, e também faturaria o Mundial em cima do Independiente.

O tri da Champions não veio, com a derrota na semifinal para o Real Madrid, apesar de gols importantes marcados por Peiró nas fases anteriores. Já no Italiano, as aparições raras faziam o atacante almejar um novo clube para ganhar mais minutos. Antes de se transferir, ainda teve a chance de disputar sua segunda Copa do Mundo. Em 1966, foram mais duas aparições no Mundial da Inglaterra, contra Argentina e Suíça. De novo, a Fúria sucumbiu logo na primeira fase. Aos 30 anos, o atacante despediria-se da equipe nacional naquele momento, com 12 partidas disputadas.

Ainda em 1966, Peiró assinou com a Roma. Voltou a desfrutar a titularidade nos giallorossi, que acumulavam campanhas de meio de tabela na Serie A. De qualquer maneira, deu tempo para levantar mais uma taça. O reencontro com Helenio Herrera rendeu frutos e, como capitão no lugar do idolatrado Giacomo Losi, Il Rapinatore ergueu o troféu da Copa da Itália em 1968/69. De novo, a estrela do espanhol brilhou nos jogos finais e ele acumulou quatro gols no quadrangular decisivo da competição. O título era um alento aos romanistas, após a morte repentina do atacante Giuliano Taccola em março de 1969, aos 24 anos. Já a última temporada da carreira de Peiró aconteceu em 1969/70. Foram 39 partidas e seis gols, ajudando o clube da capital a alcançar a semifinal da Recopa Europeia.

Joaquín Peiró ainda ensaiou um retorno ao Atlético de Madrid aos 34 anos, mas acabou pendurando as chuteiras após uma grave lesão antes da reestreia. E não se afastaria totalmente do futebol. O veterano se tornaria treinador, em trabalhos concentrados sobretudo entre os anos 1980 e 1990. Dirigiu o time B do Atleti e também a equipe principal. Também passaria por clubes como Granada, Málaga e Murcia. Seu destaque com a prancheta, entretanto, não seria tão grande quanto aquilo que construiu nos gramados.

A consideração por Peiró segue muito grande, sobretudo no Atlético de Madrid. El Galgo continua tratado como um dos maiores ídolos do clube. Além do mais, sua grandeza permaneceu também preservada na Serie A. As reverências são amplas diante da triste notícia de sua morte, feitas por seus diferentes times. Uma pena que as homenagens não possam vir de onde o craque tanto reinou: dentro dos estádios.