Praticamente unânime como maior goleiro alemão de todos os tempos, Sepp Maier iniciou sua carreira na seleção em 1966. O jovem de 22 anos já era titular absoluto do Bayern de Munique, então uma força em ascensão na Bundesliga, quando fez sua estreia às vésperas da Copa do Mundo. Maier, no entanto, passaria o Mundial da Inglaterra no banco de reservas. E sua ausência em campo diz muito sobre as qualidades daquele que se tornou um exemplo: Hans Tilkowski, dono da camisa 1 durante a competição. O veterano foi um dos precursores da fortíssima escola de goleiros formada pelos alemães.

“Til” unia segurança e ótimo posicionamento sob as traves, além de exibir muita qualidade técnica. Em tempos nos quais os arqueiros revolucionavam sua maneira de atuar, o rapaz nascido em Dortmund agregava com seus predicados. E o auge de sua forma marcou bastante o futebol alemão. Ídolo do Borussia Dortmund, o camisa 1 liderou a campanha rumo ao título da Recopa Europeia em 1966, na primeira conquista continental de um clube do país. Além disso, também contribuiria na caminhada da Alemanha Ocidental à final da Copa de 1966. A derrota para a Inglaterra em Wembley, todavia, não diminuiria sua importância à seleção. Seu nome permaneceu como referência e, nesta segunda, é relembrado em forma de luto. Aos 84 anos, Tilkowski faleceu em Dortmund.

Parte da enorme comunidade imigrante que se estabeleceu em Dortmund para trabalhar nas minas de carvão, Tilkowski teve uma infância modesta. Filho de um mineiro, ele escapou dos conflitos na Segunda Guerra Mundial, mas lidou com as consequências da miséria que afetou a Alemanha Ocidental após a derrota. Aos 11 anos, o garoto iniciou sua trajetória num clube local como ponta direita. Entretanto, a ausência do goleiro titular levou Til a ser remanejado para a meta e, a partir de então, o adolescente encontrou sua vocação.

Em 1949, Tilkowski começou a defender as categorias de base do Kaiserau, que integrava as divisões regionais na Renânia do Norte-Vestfália. Por lá, o garoto de 14 anos conciliava as atividades como goleiro e o boxe, que o ajudou no desenvolvimento como atleta. Além disso, costumava visitar os treinos de Borussia Dortmund e Schalke 04 para observar o trabalho realizado pelos goleiros. Til chegou a passar por um curso da federação alemã ocidental, em que teve aulas com Dettmar Cramer (futuro comandante do Bayern) sobre os exercícios específicos a um goleiro. Assim, aprimorou suas técnicas na posição.

Antes de chegar ao primeiro time do Kaiserau, Tilkowski começou a trabalhar como aprendiz de serralheiro em uma siderúrgica da região. Ainda assim, sua carreira no futebol não demorou a deslanchar. Vice-campeão regional com os juvenis, ele ganhou as primeiras chances na equipe principal em 1953, aos 17 anos. E, tratado como uma das maiores promessas do futebol no país, logo encontrou um clube maior. Seu time de infância, o Schalke 04 até se interessou no negócio, mas Til não queria ser reserva. Assim, ele fechou em 1955 com o Westfalia Herne, que disputava a Oberliga Oeste – uma das divisões regionais do Campeonato Alemão Ocidental, ainda não unificado.

No novo clube, Tilkowski conheceria Fritz Langner, treinador já reconhecido por sua atenção especial aos goleiros. Enquanto ainda conciliava a carreira de jogador e o seu trabalho numa companhia elétrica local, o jovem arqueiro contava com o apoio do técnico e realizava turnos extras de treinamentos específicos à sua posição. O Wesfalia Herne se estabelecia na Oberliga Oeste, mas o camisa 1 causou impacto imediato e logo ganharia suas primeiras chances na seleção. Convocado pela primeira vez em 1956, Tilkowski foi inicialmente testado no segundo quadro da Mannschaft. Já em 1957, estrearia no time principal da Alemanha Ocidental, durante amistoso contra a Holanda. Só não permaneceu no grupo rumo à Copa de 1958.

Apesar da ausência no Mundial, Tilkowski seguia brilhando no Campeonato Alemão Ocidental. Seu primeiro grande feito aconteceu em 1958/59, quando o Westfalia Herne conquistou o surpreendente título na Oberliga Oeste. Com ótimas atuações, o goleiro protagonizou a melhor defesa do campeonato naquela temporada. Foram apenas 23 gols sofridos, além de 13 partidas com a meta invicta em 30 rodadas da Oberliga. O Westfalia Herne participaria pela primeira vez da fase nacional da liga, eliminado no quadrangular semifinal. Já em 1959/60, repetiria a classificação, após o vice na Oberliga Oeste.

A boa forma com o clube alçou Tilkowski à titularidade da seleção logo após a Copa de 1958. O goleiro atuou na maioria das partidas depois do Mundial da Suécia, com participações decisivas nas Eliminatórias da Copa de 1962. E o camisa 1, enfim, viajaria ao Chile para disputar sua primeira competição internacional. Não seria uma jornada feliz, porém. Já na América do Sul, Sepp Herberger optou por colocar Wolfgang Fahrian, garoto de 20 anos que estourava na meta do Ulm 1846, como titular. O jovem tinha um estilo explosivo e espalhafatoso, que contrastava com a calma e a segurança de Tilkowski. O preterido não escondeu a decepção e tentou abandonar a concentração, mas não pôde viajar de volta à Alemanha. A partir daquele momento, enquanto anunciava o fim de sua carreira internacional, o goleiro também seria suspenso da seleção.

Tilkowski, entretanto, daria a volta por cima em pouco tempo. Seu primeiro passo para recuperar o prestígio aconteceu em 1963. Às vésperas da primeira temporada da Bundesliga, ele acertou sua transferência ao Borussia Dortmund. Assumiria a posição de Heinz Kwiatkowski, seu antigo companheiro de seleção, e poderia atuar na cidade-natal. Presente no jogo inaugural da Bundesliga, Til ajudou os aurinegros em sua campanha rumo ao quarto lugar. De qualquer maneira, brilharia mesmo na Copa dos Campeões de 1963/64. O Dortmund foi responsável por eliminar (e golear) adversários poderosos, como Benfica e Dukla Praga. Os alemães ocidentais só cairiam nas semifinais, superados pela Internazionale de Helenio Herrera.

Neste mesmo momento, após um ano e meio longe da seleção, Tilkowski também faria as pazes com Sepp Herberger. O primeiro contato aconteceu em dezembro de 1963, após uma atuação fantástica no Estádio da Luz contra o Benfica, apesar da derrota por 2 a 1 para o time de Eusébio. Um mês depois, o arqueiro já estava de volta à meta da Mannschaft. Herberger tinha confirmado sua despedida da equipe nacional na sequência de 1964. Apesar disso, foi importante por garantir o dono da meta durante os primeiros anos de Helmut Schön. Durante a estreia do novo comandante, o camisa 1 não evitou a derrota por 2 a 0 para o Brasil no Maracanã, mas estampou as manchetes por seus milagres e recebeu os elogios de Pelé.

Absoluto na meta do Dortmund, Tilkowski quebrou a clavícula em dezembro de 1964, mas voltou a tempo de conquistar a Copa da Alemanha em maio de 1965. Os aurinegros derrotaram o Alemannia Aachen por 2 a 0, com gols de Aki Schmidt e Lothar Emmerich, além da boa aparição de seu goleiro. E aquele seria só o início de um momento especial. Voando baixo, Til seria eleito o melhor jogador do futebol alemão ocidental ao final de 1965. Levou o Dortmund ao vice-campeonato na Bundesliga 1965/66, enquanto se coroaria campeão da Recopa Europeia em maio de 1966. Os aurinegros eliminaram pedreiras como o Atlético de Madrid e o West Ham, antes da vitória na decisão no Hampden Park, contra o Liverpool.

Tilkowski costumava ser o reserva de Lev Yashin nos compromissos da “seleção da Europa”. E nem tinha como dar a camisa 1 da Alemanha Ocidental para outro goleiro rumo à Copa de 1966. Mesmo com Maier no elenco de Helmut Schön, finalmente Til poderia atuar no Mundial. Foi titular desde a estreia, com apenas dois tentos sofridos nas cinco partidas até a decisão. Teve exibições destacadas contra a Argentina na fase de grupos e contra o Uruguai nas quartas de final, apesar da falha na semifinal diante da União Soviética, quando o duelo já estava resolvido a favor dos alemães ocidentais.

Apesar de um problema no ombro, Tilkowski não deixaria o time de Helmut Schön na final contra a Inglaterra. A Alemanha Ocidental entraria em campo com três titulares do Borussia Dortmund, contra três representantes do West Ham e um do Liverpool. Contudo, o desfecho em Wembley seria bastante diferente do que se viu na Recopa Europeia. Muito exigido nas bolas alçadas à área, Til fez boas defesas durante o primeiro tempo e não teve culpa nos gols ingleses. Inclusive, viu de camarote o tento fantasma de Geoff Hurst – e responderia, pelos próximos 54 anos, que a bola não passou a linha. Diante da derrota por 4 a 2 na prorrogação, não pôde erguer a Jules Rimet. Como consolo, foi eleito o segundo melhor de sua posição no torneio.

Com 31 anos completados durante a Copa do Mundo, Tilkowski logo passaria o bastão a Sepp Maier, que assumiu a posição nos amistosos seguintes da Alemanha Ocidental. A última partida do veterano pelo Nationalelf aconteceu em abril de 1967, durante goleada por 6 a 0 sobre a Albânia na fase inicial da Eurocopa. Neste momento, Til também perdera sua posição no Dortmund ao entrar em conflito com o novo técnico Heinz Murach. Antes da Bundesliga 1967/68, o arqueiro se transferiu ao Eintracht Frankfurt. Titular apenas na primeira temporada, o veterano perderia a posição por já não apresentar a mesma agilidade de outros tempos. Permaneceria nas Águias até 1970, quando pendurou as luvas, aos 35 anos.

Enquanto ainda jogava, porém, Tilkowski iniciou sua preparação para se tornar treinador. Aluno de Hennes Weisweiler na Universidade de Colônia, o ex-goleiro teve uma carreira respeitável também na casamata. Passou por Werder Bremen e Munique 1860, até reerguer o Nuremberg. Na Baviera, Tilkowski assumiu um clube em crise e o levou de volta à primeira divisão, chegando ainda ao vice-campeonato da Bundesliga em 1975/76. Voltaria depois ao Bremen, além de dirigir Saarbrücken e AEK Atenas. Mas não prosperaria por tanto tempo na carreira, desiludido com a influência do lado financeiro sobre o futebol. Já a partir dos anos 1980, organizaria jogos de veteranos em prol de instituições de caridade.

Quase 50 anos depois de sua aposentadoria, o nome de Hans Tilkowski permanece representando a vanguarda no futebol alemão. Seu empenho nos treinos específicos e a importância dada ao posicionamento, bem como à antecipação nas saídas, moldaram a mentalidade dos arqueiros no país. Outros superariam seus feitos, seja pela seleção ou pelo Borussia Dortmund. De qualquer forma, o respeito à história prevalece. O falecimento de Til, nesta segunda, gerou manifestações pesarosas e o luto de suas antigas equipes. O ídolo será eterno, sobretudo ao Dortmund e ao Nationalelf.