Os estaduais podem não ter muita valia a diversos clubes de massa no Brasil. É a taça para satisfazer a ânsia da torcida, e só. O caminho para se impor sobre os rivais e falar que, sim, a grandeza que todos querem proclamar no país se justifica com o grito de campeão, por mais ilusório que possa se tornar nos meses seguintes. À maioria dos times brasileiros, porém, o estadual ainda marca. É o momento que pode os retirar da pequenez. Que dá sentido ao amor abnegado dos torcedores, após a provação de arquibancadas vazias e jogos aos quais quase ninguém se interessa. Que atenua a dor de enfrentar o calendário esburacado e a falta de estrutura oferecida pelas federações. Que cria a esperança de melhorar as condições do clube e da vida àqueles jogadores que têm emprego apenas em parte do ano, por mais que isso nem sempre se concretize. O Novo Hamburgo cruzou esta fronteira em 2017, ao conquistar o Campeonato Gaúcho. E a torcida anilada será sempre grata a Beto Campos, um dos grandes responsáveis por fazer a história se tornar real.

No Rio Grande do Sul, ainda mais, as limitações aos times pequenos ou do interior são claras. Desde 1940, apenas quatro clubes conseguiram quebrar a hegemonia de Grêmio e Internacional: Renner, Juventude, Caxias e, por fim, o Novo Hamburgo – que alcançou a façanha em 2017, com o gosto de derrubar os dois gigantes em sua caminhada. Primeiro, superou o Grêmio nos pênaltis, em esboço de crise que logo se apagaria quando os tricolores pegaram embalo na Libertadores. Já na decisão, a marca da cal seria igualmente redentora diante do Inter. O Noia encerrou os 106 anos de espera por um título de primeira grandeza. Era um troféu com diversos protagonistas: o goleiro Matheus, o zagueiro Julio Santos, o atacante João Paulo, o capitão Preto. E também do técnico Beto Campos, o comandante capaz de aglutinar aquele grupo em busca da taça.

O Gauchão, afinal, tinha um significado especial a Beto Campos. Nascido em São Borja, o ex-centroavante jogou profissionalmente durante duas décadas. Iniciou a carreira ao final da adolescência, quando largou a autoelétrica onde trabalhava, impulsionado pelo faro de gols talhado no futsal. Era mais um desses que tentam a sorte nos clubes do interior, rodando por várias cidades do Rio Grande do Sul e disputando as durezas do estadual até pendurar as chuteiras, em 2001. Sabia, inclusive, o peso que tinha a camisa do Novo Hamburgo. Vestiu o manto anilado em duas passagens pelos anos 1990 e deixou suas lembranças, através dos frequentes gols.

Beto Campos assumiu a prancheta em 2002, trabalhando de início na terceira divisão do Campeonato Gaúcho. Depois, tornou-se assistente e atuou nas categorias de base, até viver a sua ascensão como técnico na virada da última década. Passou por uma extensa lista de clubes do interior ou pequenos da capital: Pelotas, Avenida, São Paulo, Cruzeiro, Santo Ângelo, São José, Caxias, Passo Fundo. Conhecia como ninguém o peso de se disputar o Gauchão e o valor que o torneio tinha para as equipes, não apenas esportivamente, mas também em relação à sobrevivência financeira. Chegou a conquistar o acesso à elite estadual mais de uma vez. Mas nada comparado ao que viveu em 2017, à frente do Novo Hamburgo, derrotando Grêmio e Inter. Há uma marca que fica.

Logo após ser campeão estadual, Beto Campos deixou o Novo Hamburgo. Passou por um estágio no Flamengo, dirigiu o Náutico e o Criciúma, voltou ao Noia. O desempenho modesto no último Gauchão culminou em sua demissão, mas nada que diminuísse a imagem que construiu naquele 2017 memorável. Agora, ainda mais eterno. Aos 54 anos, o treinador faleceu na madrugada desta segunda-feira, em sua casa, na cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul. Foi vítima de um enfarto enquanto dormia. Deixa dois filhos – um deles, Willian, atacante igualmente tarimbado em clubes do interior gaúcho – e de dois netos.

Beto Campos talvez não tenha um nome que será lembrado de imediato, especialmente fora do Rio Grande do Sul. Teve uma carreira sem tantos holofotes, assim como a maioria absoluta daqueles que vivem de futebol no Brasil. Mas construiu histórias, e é isso o que realmente importa. Entrelaçou caminhos e chegou ao topo de uma das maneiras mais difíceis, o suficiente para marcá-lo para sempre no Gauchão, sobretudo no coração da torcida do Noia. É através deste tipo de gente que o futebol fora dos grandes centros resiste. O respeito a Beto vai além, neste momento de dor para familiares e amigos.