Azeglio Vicini não desfrutou de uma carreira como técnico tão longa ou respaldada na elite do futebol italiano. De fato, sua passagem por clubes é pouquíssimo expressiva – limitada a um par de anos no comando de Brescia, Cesena e Udinese. Ainda assim, seu nome será sempre lembrado entre os principais comandantes da seleção. Sob as ordens do veterano, os azzurri lapidaram alguns de seus grandes talentos nas equipes de base, fazendo boas campanhas nos campeonatos continentais. Já o ápice de sua trajetória aconteceu em 1990, à frente do elenco principal, na Copa do Mundo disputada em casa. O tetracampeonato mundial não aconteceu, mas o desempenho até as semifinais já foi suficiente para encher o peito dos compatriotas de orgulho, à frente de uma geração que certamente merecia mais. Ficaram marcadas como as “Noites Mágicas”. Treinador condecorado no país, que faleceu nesta quarta, aos 84 anos.

VEJA TAMBÉM: Enzo Bearzot, o “velho” que renovou a seleção italiana e encerrou a espera de 44 anos pelo tri mundial

Nascido em Cesena, Vicini passou por clubes relevantes em sua carreira como jogador. Ganhou projeção vestindo a camisa do Vicenza, com o qual conquistou a Serie B. Depois, se estabeleceu na Sampdoria, defendendo os genoveses por sete temporadas. Não era exatamente um dos melhores do país, mas mantinha firme o seu espaço entre os titulares dos blucerchiati, reconhecido como um meio-campista de boa visão de jogo e muita disciplina tática. Já na reta final de sua caminhada, passou pelo Brescia. Novamente faturou a Serie B e pendurou as chuteiras no clube, em 1968, para iniciar sua caminhada como técnico.

Apesar do rebaixamento sofrido no comando do Brescia, Vicini seguiu em frente dentro do departamento técnico da seleção italiana. Seu trabalho começou a ser reconhecido nos corredores da federação. Assistente de Enzo Bearzot no time sub-23, sucedeu o “Velho” em 1975, quando este assumiu o time principal. Os resultados de Vicini eram consistentes, sempre garantindo os azzurri nas fases finais. Já os melhores momentos vieram em meados da década de 1980, com o limite de idade reduzido ao sub-21. Em 1984, o time foi semifinalista, apresentando talentos como Giuseppe Bergomi, Roberto Mancini e Daniele Massaro. Já em 1986, o título escapou por um triz. Os italianos eliminaram Bélgica, Suécia e Inglaterra, mas perderam a decisão nos pênaltis para a Espanha. De qualquer forma, as revelações não pararam de eclodir. Nesta safra, despontaram Walter Zenga, Gianluca Vialli, Fernando De Napoli, Roberto Donadoni e Giuseppe Giannini. Muito do que se estabeleceu no nível principal para os anos posteriores.

Assistente de Enzo Bearzot e um dos responsáveis por ajudar o time na conquista da Copa de 1982, Vicini acabou escolhido como o sucessor do técnico tricampeão do mundo, após a campanha frustrada no Mundial de 1986. Tinha como missão principal justamente empreender esta transição das promessas que se firmavam, a exemplo de Paolo Maldini e Roberto Baggio, que ganharam suas primeiras convocações neste período. Classificou o time à Eurocopa de 1988 sem grandes dificuldades e fez bom papel na competição, parando nas semifinais diante da União Soviética. Manteve a confiança, então, para ajeitar a seleção rumo ao Mundial de 1990. Uma grande responsabilidade, considerando que os italianos jogariam em casa, em tempos nos quais contavam com o melhor campeonato nacional do mundo.

Se o futebol não enchia os olhos e o excesso de placares magros parecia um problema, a Itália soube se encaixar durante a preparação. Montou uma defesa fortíssima, capaz de sofrer apenas quatro gols nos 15 amistosos disputados após a Euro. O time foi derrotado apenas duas vezes, por Romênia e Brasil, enquanto chegou a segurar Argentina, Inglaterra e Holanda. A tônica se seguiu durante o começo da Copa do Mundo. Em um grupo no qual era a força evidente, a Azzurra bateu Áustria, Estados Unidos e Tchecoslováquia. Eliminou o Uruguai nas oitavas de final, antes de derrubar a Irlanda nas quartas. Chegava às semifinais, diante da Argentina, sem ter buscado a bola no fundo das redes uma mísera vez. Era o novo recorde de invencibilidade da competição. Apresentava um futebol pragmático, mas eficiente, e que contava com sua dose de fantasia – seja pelo momento imparável do surpreendente Totò Schillaci ou pelas inspirações de Roberto Baggio. O suficiente para garantir a empolgação da torcida naquelas noites mágicas de vitórias.

Na partida inesquecível do San Paolo, Claudio Caniggia superou Walter Zenga, mas o gol de Schillaci anotado ainda no primeiro tempo garantiu prorrogação e pênaltis. Já na marca da cal, coube a Sergio Goycochea se consagrar, tirando a Itália da Copa e garantindo a Argentina na final. Na decisão do terceiro lugar, os anfitriões bateram a Inglaterra por 2 a 1. O bronze não era exatamente o que os compatriotas esperavam, mas ainda assim valeu a dignidade pelo bom papel demonstrado por aquele timaço – de Baresi, Bergomi, Maldini, Giannini e tantos outros. Há quem questione as decisões de Vicini, ao manter no banco Roberto Mancini e Vialli, brilhando na Sampdoria, ou por barrar Roberto Baggio justamente na semifinal contra a Argentina, limitando o craque ao segundo tempo. Nada que apague, de qualquer forma, o feito registrado pelos azzurri, invictos no torneio. A campanha serviu para gerar um sentimento de identidade e união no país, comparável com o que ocorreu na Alemanha durante a Copa de 2006.

“Eu alcancei um grande conquistas, estou satisfeito com minha vida e tive muitos momentos felizes, apesar de outros tristes. Mesmo em posições de muita responsabilidade, eu realmente aproveitei o que vivi”, afirmou Vicini, durante as comemorações de seus 80 anos. “Em 1990, nós merecíamos o título, mas não tivemos sorte. Vencemos seis jogos e empatamos um, mas quem chegou à final foi a Argentina. Porém, aquelas noites conquistaram os italianos. O afeto demonstrado pelas pessoas foi incrível”.

Não à toa, Vicini seguiu comandando a Itália nos anos seguintes e dando espaço a outros jovens. Não experimentou, porém, a mesma alegria. Em um grupo bastante duro nas Eliminatórias da Euro 1992, que contava com União Soviética, Hungria, Noruega e Chipre, a única vaga na fase final do torneio acabou com os soviéticos. O empate por 0 a 0 em Moscou não foi suficiente aos italianos e marcou o fim da trajetória de Vicini no comando da seleção, substituído por Arrigo Sacchi. Ainda assim, voltaria anos depois como presidente do setor técnico da federação, posição que ocupou até 2010, ao ser suplantado justamente por Roberto Baggio. Foram quatro décadas de serviços prestados à equipe nacional. Uma história que termina eternizada.


Os comentários estão desativados.