Falece André Neles: além do “Balada”, um jogador cuja história se aproxima de tantos outros pelo Brasil

Aos 42 anos, faleceu nesta quinta-feira o ex-atacante André Neles, de longo currículo no futebol. Aposentado dos gramados, o veterano morava em Uberlândia e sofreu uma parada cardíaca durante a madrugada. “André Balada” nunca se firmou em grandes clubes ou conquistou a idolatria das massas, mas ainda assim é lembrado como um personagem um tanto quanto folclórico do futebol brasileiro. Sua história, afinal, se aproxima das trajetórias de tantos outros futebolistas pelo país.

Nascido na cidade de Patrocínio, Minas Gerais, André começou sua carreira no Uberlândia e teve suas principais oportunidades no início dos anos 2000. Levado como promessa pelo Atlético Mineiro, anotou seus gols com a camisa do Galo. Foi campeão mineiro em 2000 e até balançou as redes da Bombonera, durante um duelo com o Boca Juniors pela Copa Mercosul de 2000. Assim, descolou uma oportunidade no exterior pouco depois: assinou com o Benfica em 2001, embora suas chances em Lisboa tenham sido restritas. Disputou dez jogos, quase sempre saindo do banco, e anotou apenas um gol. Ainda passaria por empréstimo ao Marítimo, antes de retornar ao Brasil.

A passagem pelo Vitória guardou os momentos mais reluzentes de André Neles na elite nacional. Artilheiro e campeão do Supercampeonato Baiano em 2002, também brilhou no Brasileirão. Chegou a anotar quatro gols num jogo contra o Paysandu e outros três para cima do Goiás. Saindo do banco, ainda fechou uma vitória por 4 a 3 sobre o Palmeiras, que selou o inédito rebaixamento dos alviverdes na competição.

Tanto fez seu nome que, em 2003, André se tornou alternativa no mercado a outras equipes de peso. Jogou os primeiros meses do ano no Internacional, com o qual foi campeão gaúcho, antes de integrar o próprio Palmeiras na Série B. Todavia, trazido pela diretoria sem qualquer consulta a Jair Picerni, terminou escanteado pelo treinador.

O apelido de “Balada” surgiu justamente no Palmeiras, quando André não se controlava e só não frequentava as noitadas quando estava concentrado. Ficou a fama de atleta descompromissado. Por tabela, também veio o envolvimento com o álcool e com as drogas. “Foi o momento mais crítico da minha vida toda. Não só no profissional, mas também no lado pessoal. Porque eu bebia, eu fumava e eu cheirava pra tentar suprir aquele vazio. E o que era esse vazio? Jogar futebol. Era a única coisa que eu sabia fazer na vida. Eu não jogava futebol por dinheiro”, contou ao UOL, em janeiro de 2019, relatando o período na reserva palmeirense.

Após deixar o Palmeiras, André passou novamente por Marítimo e Atlético Mineiro em 2004, antes de assinar com o Figueirense. E a estadia no Orlando Scarpelli, ainda que não tenha gerado tantas lembranças à torcida, valeu à própria vida do atacante. Ele virou evangélico e evitou que sua carreira entrasse em colapso, afastando-se dos vícios. Nada que negasse a fama de “Balada”, ainda assim. Atrapalhado também pelos problemas no joelho, nunca retomou o início promissor e rodou por diversas equipes de menor projeção ao longo dos anos seguintes.

O currículo de André incluiria ainda Ceará, Ipatinga, Grêmio Barueri, Oeste, Icasa, Marcílio Dias, Uberlândia, São Carlos, Operário-MT, Litoral, Unitri e Auto Esporte. Ficou um tempo no futebol da Arábia Saudita, com o Al-Ittifaq. Seus melhores momentos aconteceram quando conquistou o estadual de 2005 pelo Fortaleza, quando levou o Troféu do Interior com o Botafogo de Ribeirão em 2010 e quando ajudou o América de Natal a faturar o acesso à Série B do Brasileiro em 2011. Já o último clube foi o Alecrim, em 2017. E não foi a falta de continuidade que o impediu de disputar as Eliminatórias da Copa do Mundo – mas não pelo Brasil.

O folclore ao redor de André Neles também se concentra em sua ligação com a seleção da Guiné Equatorial. A partir das Eliminatórias da Copa de 2010, o país africano passou a recrutar diversos jogadores brasileiros ao seu elenco, mesmo que eles sequer tivessem viajado antes para lá. A presença de treinadores brasileiros facilitava a convocação, assim como a influência de um dos filhos do ditador Teodoro Obiang sobre a federação. A prática se manteve por alguns anos, justificada pelos “antepassados” dos atletas. Isso até que a Fifa deixasse de fazer vistas grossas e o esquema fraudulento ficasse claro.

André Neles dizia que seu bisavô tinha ascendência na Guiné Equatorial. Segundo números do Transfermarkt, o atacante disputou seis jogos e anotou três gols pela seleção, presente em uma partida contra Serra Leoa pelas Eliminatórias da Copa de 2010. Nem teve uma trajetória tão longa quanto outros brasileiros, em especial o goleiro Danilo, que disputou até Copa Africana de Nações. No entanto, André revelaria que recebeu U$ 200 mil para se naturalizar e mais U$ 10 mil por cada partida disputada.

Além do futebol, André Neles compôs mais de 100 músicas religiosas e lançou 15 discos como cantor gospel. Apesar da fama de baladeiro, conseguiu fazer o seu pé de meia e ter uma situação confortável após pendurar as chuteiras. Segundo seu primo, ao UOL, ele mantinha uma vida saudável e estava na casa da namorada quando a fatalidade aconteceu nesta quinta. André deixou três filhos e, mesmo com uma carreira instável, suas histórias para contar. Não deixa de ser uma face comum a tantos jogadores profissionais que compartilham vidas parecidas.