Todo torcedor vive com um pouco de esperança. O objetivo final pode variar, mas todo apaixonado pelo seu clube vive com um pouco de esperança. Uma vitória. Um título. Vá lá, ao menos uma atuação um pouco melhor. No caso do torcedor do Liverpool, era preciso ter muita esperança diante de um Barcelona com Lionel Messi e que trouxe um 3 a 0 de vantagem do jogo de ida. Por tudo isso, Brenda Botelho, de 23 anos, tomou uma decisão no calor do momento e com a esperança no coração: fazer uma tatuagem em homenagem ao Liverpool, caso o time conseguisse a classificação. E conseguiu. Ela cumpriu a promessa.

Eu tuitei: ‘Vou tatuar’. Chamei alguém para beber comigo. Escrevi que se saísse o quarto gol, eu tatuaria. Aí saiu o quarto gol, liguei para um amigo para arrumar um tatuador com horário para hoje [terça]. Fomos lá e o cara me pediu uma hora e meia para fazer”, contou Brenda à Trivela. “Eu estava assistindo no trabalho. Gritei no escritório. Estou muito nervosa. Ainda não tinha feito [a tatuagem] por medo da agulha”. Ela decidiu fazer a tatuagem com Guilherme Moraes (@riscoreal no Instagram), que fez no mesmo dia.

Na terça-feira, o dia do jogo, Brenda foi trabalhar vestida de verde. Na copa da empresa, ela ouviu de uma companheira de trabalho: “Vamos ter muita esperança hoje”, associando, claro, à cor da sua roupa. Para Brenda, porém, já pareceu um sinal. Um sinal que era preciso ter esperança. E essa é a palavra chave que agora a auxiliar administrativa levará para sempre gravado na pele e certamente lembrando do que aconteceu no dia 7 de maio em Anfield.

“Eu sou torcedora do Vasco e até alguns anos atrás o Liverpool não era essa máquina”, ela conta. “Então imagina a sofrência (risos). Eu tive que ver Borini”, diz Brenda, rindo. Fabio Borini jogou no Liverpool de 2012 a 2015. Foi contratado pelo técnico Brendan Rodgers, sua primeira contratação pelo clube, aliás. O atacante italiano deixou o clube por falta de oportunidades – sempre que ele entrava, não ia tão bem para justificar mais minutos.

“Eu vou tatuar ‘Walk On, walk on with hope in your heart’. [A tatuagem] É uma coisa que eu queria há cinco anos, e a gente foi para o jogo hoje carregado pela esperança, do começo ao fim. Não tinha como [não fazer]”, conta Brenda. O trecho é parte da música “You’ll Never Walk Alone”, que se tornou um hino não oficial para a torcida do Liverpool, que entoa com força antes, durante e depois dos jogos.

A relação com futebol

“A minha primeira lembrança do futebol é meu pai não querendo me levar num Flamengo e Vasco no maracanã e a gente indo num jogo bem aleatório, eu odiei”, disse Brenda. “Minha família inteira é flamenguista”, ela continua. “A ideia era que eu também fosse. Até o dia que meu pai descobriu que não. Quando eu achei que era grande o suficiente, falei que era vascaína. Foi quando o Vasco caiu pela primeira vez”.

“Eu cheguei a ir em alguns jogos no Maracanã, antes da reforma, com meu pai, na torcida do Flamengo, mas eu não gostava. Com o tempo, eu comecei a ver que gostava de ver futebol. E quando eu estava na quinta série, se não me engano, tinha um jogo do Fluminense e eu fui com um menino da minha sala, para ir ver futebol”, conta Brenda.

“Eu jogava com os meninos do trabalho da minha mãe, em uma fundação, que tinha educação física. E a professora de educação física da fundação foi a goleira da primeira seleção feminina. E essa fundação era da prefeitura, tinha uma parceria com o Vasco, porque ficava em comunidade. Então para os adolescentes e as crianças não ficarem no morro, tinha todo um projeto. Se não me engano, às terças e quintas eles iam para o Vasco, os meninos jogavam e tal. Daí ela conseguiu, na época o Vasco tinha um time feminino, uma peneira para mim.  Meu pai falou que eu não ia porque era no Vasco. E aí eu peguei mais raiva ainda do Flamengo”, conta.

O Liverpool

Torcida do Liverpool em Anfield Road (Foto: Getty Images)

Brenda conta que o Liverpool entrou na sua vida por causa de três homens. Dois deles do Liverpool e um, curiosamente, um rival: Steven Gerrard, Philippe Coutinho e David Beckham. “Eu amava o Beckham e odiava o Manchester United, jogava no Bomba Patch [um mod para jogos de futebol, especialmente o então popular Winning Eleven, no início dos anos 2000]. Então eu sempre odiei o United”, afirmou

“Eu sabia quem era o Gerrard por lembranças vagas da final de 2005 da Champions League. Até chegar a Copa de 2010. Eu gostava muito da banda McFly e eles são ingleses. Então eu e uma amiga acompanhamos a Inglaterra. Fui pesquisar. Vi Gerrard, vi vídeos da torcida no Youtube e vi a torcida do Liverpool cantando You’ll Never Walk Alone”, conta. “Vi uns vídeos do Gerrard com Xabi Alonso, Fernando Torres. Comecei a acompanhar”.

“Até o Coutinho, meu menino da base do Vasco, que morava no bairro da minha tia e eu morria por nunca ter esbarrado com ele, foi para o Liverpool (risos)”, diz Brenda. “Eu comecei a acompanhar mais, mas muito difícil ter informação, até por ser outra língua”.

“Eu achava que não tinha ninguém que torcida pelo Liverpool, até me mudar para São Paulo. Acho que na Copa de 2014, que tinha muitos jogadores do Liverpool na seleção inglesa foi quando eu consegui acompanhar os jogos da Premier League, eu conseguia ver direitinho. Então, todos os fracassos recentes do Liverpool eu vi (risos), vendo com a mesma intensidade que via o Vasco”, disse Brenda.

“Depois que eu vim para São Paulo, sem querer, vi um perfil, segui uma menina, ela me seguiu, do nada a gente marcou de ver uma final contra o Manchester City pela Copa da Liga, se não me engano, que perdemos nos pênaltis. Coutinho perdeu pênalti, se não me engano. E aí tinha um grupo, dois meninos e quatro meninas, que assistiam sempre os jogos. Agora são quatro meninas e um menino só. E depois eu nunca mais parei”, disse a torcedora.

“Começou a chegar camisa do Liverpool no Brasil, porque não tinha quando era a Warrior, então até a camisa era difícil. Eu lembro quando o Gerrard ia sair do Liverpool, eu comprei uma camisa de 25 reais no camelô que é a camisa mais falsa que você pode ver na sua vida, porque eu queria ter uma camisa do Gerrard e só tinha por 800 reais no Mercado Livre. Então agora as coisas estão muito mais fáceis, a gente consegue assistir jogo ainda”, disse Brenda.

Além de conhecer outros torcedores do Liverpool e ter companhia para assistir jogos do clube, Brenda ainda conseguiu outra coisa importante. “Eu conheci o Joga Miga por conta de uma das meninas que conheci por causa do Liverpool”, ela conta.

“Eu queria que a gente pegasse o Ajax”, disse Brenda sobre o possível adversário na final, que será o Tottenham. “E espero essa mesma vontade de ganhar. E sinceramente, por que não a taça? A gente tem time pra isso, vontade e a temporada foi maravilhosa”, continuou. “Acho de coração que o título do inglês não vem, não depende só da gente. Mas dá pra sonhar”, diz Brenda.

Ela ainda elogia Virgil van Dijk, que foi eleito o melhor jogador da Premier League pela PFA, a Associação dos Jogadores Profissionais da Inglaterra. “Van Dijk foi para a gente nesta temporada o que Salah foi na temporada passada”, disse a torcedora, se referindo ao excelente desempenho do egípcio. Na temporada passada, 2017/18, foram 52 jogos, 44 gols, 16 assistências. Nesta, são 50 jogos, 26 gols, 13 assistências.

Apesar do momento de alegria, Brenda não deixa de dar uma boa cornetada. “Eu acho que o Klopp pecou em não contratar mais reforçar setores como na zaga, por exemplo. Lesionou todo mundo a gente só empatou e perdeu a ampla vantagem [na Premier League]”, explica ela. “Mas desistir eu e o Liverpool não vamos nunca”.

Nada mais apropriado para o que foi o Liverpool contra o Barcelona. Até o clube publicou, já na quarta-feira, uma foto com essa frase.