A Nike deu um belo sinal aos fãs de futebol com o lançamento das camisas de Coreia do Sul, Estados Unidos e Nigéria para 2020. Um aceno de que, em breve, suas equipes poderiam ter uniformes mais distintos do que o que nos acostumamos a ver nas criações da empresa. Logo, veio a confirmação: os designers da companhia tiveram 65 chassis disponíveis, a partir dos quais estariam indo em busca de desenhos que melhor distinguisse seus times do restante.

A mudança de percurso é notícia excelente, mas não se trata de algo brusco. Isso está no horizonte da Nike há anos, e o processo foi gradativo, mas acelerado recentemente. No cerne do que devemos ver a partir de agora para camisas da empresa está o sucesso estrondoso do uniforme da seleção nigeriana para a Copa de 2018. No dia de seu lançamento, em 1º de julho daquele ano, a enorme fila na loja da empresa na Oxford Street, em Londres, e o esgotamento quase imediato do estoque, já comprovavam o acerto.

De certa forma, aquela peça, assim como as coleções do PSG com a Jordan, antecipou uma tendência que cresceu ao longo da temporada passada europeia e estourou definitivamente em 2019/20: a junção entre moda e futebol de uma forma sem precedentes. Nada mais emblemático que isso do que os materiais de divulgação das camisas para a atual campanha europeia, largando os ensaios 100% com estrelas do clube e focando muito mais modelos vestindo os uniformes também com suas peças casuais.

Camisa alternativa da Roma para 2019/20 (Divulgação)

Buscando entender melhor o que está por trás do redirecionamento e das camisas que devemos ver a seguir, a Trivela teve um papo exclusivo com Heidi Burgett, diretora sênior para futebol da Nike, sobre a questão dos templates em transição. A executiva respondeu a todos os questionamentos da reportagem, exceto aqueles que tratavam de valores, por política da empresa.

Abaixo, reproduzimos a interação.

Trivela: Qual o motivo por trás desta mudança de estratégia?

Heidi Burgett: O amplo leque de federações vestindo a Nike tem, em cada uma delas, histórias e culturas únicas. Em 2020, a Nike está celebrando seus atributos distintos com coleções altamente diferenciadas (entre si). A partir dos aprendizados da bem-sucedida coleção da Nigéria de 2018, embarcamos em uma imersão cultural profunda e colaboramos com cada federação para entregar desenhos que personificam a personalidade e ressoam com cada país.

Trivela: Por que demorou tanto, visto que o apelo dos torcedores por uniformes mais distintos vem de longa data?

HB: A Nike desenvolveu várias peças de design único ao longo dos anos, e uma rápida olhada em nossas ofertas de clubes no site revela que temos ido nessa direção há algum tempo. Um exemplo recente no Brasil é o da terceira camisa do Corinthians, em homenagem ao piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna. Uma camisa muito única e que foi um sucesso mundial.

Trivela: Houve quem dissesse nas redes sociais que na verdade os templates permanecem e que apenas detalhes em mangas, gola e desenhos seriam feitos. É isso?

HB: Os designers da Nike tiveram 65 opções de chassis disponíveis, variando golas, mangas, punhos, posição de distintivo etc. Em muitos casos, eles também trabalharam com estampas desenhadas à mão e fontes personalizadas. Em parceria estreita com cada federação, as equipes chegaram aos designs que sentiram serem os certos para elas.

Coleção da Nigéria lançada em 2018 (Divulgação)

Trivela: Qual foi o peso do sucesso da camisa da Nigéria em 2018 para esta alteração na política de templates?

HB: Temos muito orgulho da camisa de 2018 da Naija (apelido da equipe) e apreciamos a oportunidade de soltar nossa criatividade em colaboração com a Nigéria. A camisa claramente teve uma boa resposta e ajudou a estabelecer um novo padrão que estamos empolgados de manter.

Trivela: As camisas de Nigéria, Coreia do Sul e Japão para 2020 mostram certa influência do streetwear, com peças que parecem mais prováveis de serem acrescentadas ao guarda-roupa casual das pessoas do que as camisas de futebol normalmente são. Essa mudança de política é também uma consequência da influência do streetwear nas camisas?

HB: Nos propusemos a fazer as melhores camisas possíveis e damos as boas-vindas às preferências individuais em termos de como as pessoas integram esses looks em sua vestimenta casual do dia a dia.

Trivela: A Nike, assim como outras marcas, mostrou em seus lançamentos de camisa no início da temporada europeia que quer que as camisas de futebol tenham seu alcance para além do torcedor. Modelos vestindo roupas casuais junto com as camisas estiveram em todos os ensaios de divulgação. Como a Nike vê essa intersecção de moda/streetwear e futebol que tem crescido nos últimos dois anos e como isso vai influenciar as próximas criações? Existe alguma estratégia específica neste sentido que vocês podem revelar?

HB: O esporte é uma parte integral da cultura ao redor do mundo. Atletas e fãs apaixonados levam inspiração do esporte para sua vida e, por fim, a formas de expressão como moda e estilo de vida. O mesmo acontece ao contrário, com atletas levando sua inspiração e seu estilo das ruas ao gramado. O diálogo entre esporte e estilo é inevitável.