Quando o Fair Play Financeiro foi criado, em 2011, a Uefa tinha um objetivo claro: reduzir o endividamento dos clubes, um problema sério na época. Em 2019, a Uefa divulgou resultados (com contas até 2017) que pela primeira vez os clubes europeus tiveram lucro, na soma total.v O problema é que outro objetivo, de impedir lavagem de dinheiro, ainda é questionado, porque os mecanismos parecem insuficientes – com o caso do Manchester City, que conseguiu reverter no Tribunal Arbitral do Esporte uma punição da Uefa por maquiar injeção de dinheiro como patrocínio.

Erroneamente, muitos acham que o objetivo da iniciativa é equilibrar forças na Europa. A ideia é ter mais transparência e menos endividamento dos clubes, que frequentemente ficavam com problemas e acabavam criando reação em cadeia no ambiente do futebol: falta de pagamento de dívidas fiscais, eventualmente atraso de salários e mesmo falta de pagamento a outros clubes. Ao criar o Fair Play Financeiro, a Uefa tentou dar mais transparência às contas dos clubes, obrigando que apresentem seus balanços com um limite de endividamento – gradualmente reduzido até chegar a não ter endividamento nenhum.

“O Fair Play Financeiro não é um movimento socialista, que busca o equilíbrio financeiro entre os clubes. Se você tem mais dinheiro, você vai gastar mais”, confirma Pedro Daniel, diretor-executivo de esportes, mídia e entretenimento da Ernst & Young, em entrevistas ao site de apostas Betway. A Ernst & Young foi consultada pela CBF para a elaboração de um modelo que será aplicado no Brasil.

“A partir do momento que você tem uma gestão eficaz, com a visão de que as despesas não podem superar as receitas, cresce a possibilidade de atrair os investidores”, afirma Maurício Corrêa, presidente da Comissão de Direito Esportivo do Instituto de Advogados Brasileiros, sobre o Fair Play Financeiro.

“O Fair Play Financeiro não foi criado para punir ninguém, nem criar sanções. Ele visa apenas o desenvolvimento sustentável, sem lavagem de dinheiro”, diz Pedro Daniel. “Os donos têm permissão para fazer aportes de até 30% da receita do clube. Se não passar disso, não há por que punir”.

Isso, claro, é a teoria. Na prática, o que acontece é que clubes como o Manchester City e o PSG são acusados de maquiarem aportes dos seus donos como patrocínios, o que foi justamente o motivo para que o Manchester City acabasse punido pela Uefa – algo que foi revertido no Tribunal Arbitral do Esporte (TAS), que tirou a exclusão da Champions League e reduziu a multa de € 30 milhões para € 10 milhões.

O clube escapou das punições porque uma das acusações prescreveu e a outra o tribunal considerou que não tinha fundamento porque executivos do clube disseram que houve na verdade um mal entendido. No fim, o clube escapou, como já tinha acontecido em 2012, quando fez um acordo, mesmo caso do PSG. Os questionamentos ao sistema acontecem porque clubes como o Manchester City e o PSG escapam da punição mais dura, de exclusão da competição, enquanto outros como o Estrela Vermelha, da Sérvia, recebe sentença máxima.

Esse tipo de questionamento levanta ainda mais dúvidas em relação a como o Fair Play Financeiro seria aplicado no Brasil. Em agosto de 2019, a CBF anunciou que começaria a aplicar o sistema no Brasil em 2020. A ideia é que a aplicação funcione de forma escalonada nos próximos quatro anos. Novamente, a ideia não é equilibrar as forças, mas sim sanear as contas. “A previsão é que seja implementado de maneira definitiva ainda esse ano”, conta Maurício Corrêa.

Clubes com finanças em dia acabam gerando melhores frutos ao campeonato: manutenção dos melhores jogadores, pagamentos de salários em dia, mais dinheiro para investimento, seja na base ou em contratações, e mesmo ter mais poder de barganha nas negociações de patrocínio e de venda de direitos de TV.

Isso, porém, precisará de algo que os clubes não estão acostumados: transparência nas contas. E uma coisa que nos faz duvidar: uma fiscalização eficiente da CBF. A Uefa conseguiu melhorar as finanças dos clubes com o Fair Play Financeiro, é verdade, mas mostrou no mínimo uma incompetência grande para lidar com os clubes que tentaram maquiar gastos que seriam contra as regras.

Um dos itens do Fair Play Financeiro da Uefa, por exemplo, é que os clubes não podem gastar mais do que 70% das suas receitas com salários. É uma prática de gestão que ajuda a impedir o endividamento. No Brasil, alguns clubes gastam mais do que 100% das receitas em salários, por mais louco que possa parecer.

Será que a CBF será capaz de fazer melhor? Esperamos que os consultores contratados pela CBF passem boas instruções e que sejam ouvidos pela entidade para adotar boas práticas. O desafio é grande. Resta ver como esse processo será feito, ainda mais em um ano tão atípico quanto este com a pandemia do coronavírus e tantos meses com paralisação do futebol.