Num país dominado por três grandes times (juntos, Benfica, Porto e Sporting ganharam 80 dos 82 campeonatos nacionais desde a criação da Primeira Liga, em 1934/35), ser a quarta força é o objetivo de muitos pequenos e médios clubes portugueses. Sem condições financeiras e técnicas de bater de frente com o trio de ferro, permanecer no quarto posto – eventualmente, até beliscando o terceiro ou segundo lugar – e se dar bem nas taças eliminatórias acaba sendo um bom negócio.

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Nos últimos anos, o Braga vem se consolidando nesta posição. Nas últimas 10 temporadas, a equipe fechou o campeonato nacional em 4º lugar cinco vezes e ainda obteve uma terceira posição e um vice-campeonato. Também foi campeã da Taça da Liga (em 2012/13) e da Taça de Portugal (2015/16).

Os objetivos para esta temporada iam além de permanecer como “o maior entre os menores”. Os focos principais estavam em fazer boa campanha na Liga Europa e obter o bicampeonato da Taça de Portugal. Isso, porém, não é mais possível. Na competição internacional, o time ficou em terceiro lugar no seu grupo e nem sequer passou para o mata-mata. No torneio doméstico, foi eliminado pelo Sporting Covilhã, da segunda divisão, nas oitavas de final.

Ambos os fiascos causaram um clima muito ruim no clube – alguns torcedores chegaram a tentar invadir o vestiário depois da queda na Taça de Portugal. Sem seus grandes objetivos a cumprir e tendo ainda mais da metade da temporada por jogar, quem pagou o pato foi o técnico José Peseiro, demitido.

Para seu lugar, a diretoria contratou José Simão. Aos 40 anos de idade e atualmente no Desportivo Chaves, ele é considerado um expoente no mercado de treinadores portugueses e antigo sonho de consumo do presidente minhoto, Antonio Salvador. Simão vem fazendo grande campanha no pequeno Chaves, que se mantém entre os 10 primeiros colocados, e já obteve a façanha de classificar o Belenenses para a Liga Europa.

Antes de sua chegada, porém, o Braga foi comandado interinamente por Abel Ferreira na partida diante do Sporting, pela 14ª rodada do Campeonato Português, neste domingo (18). Jogo que teve a vitória bracarense por 1 a 0 e que ajudou a lembrar como as coincidências que o futebol é capaz de proporcionar fazem dele este jogo maravilhoso.

A derrota que eclodiu a crise no Braga foi para uma filial do Sporting (como a coluna explicou aqui). A vitória que pode dar novo ânimo ao clube foi sobre o alviverde original. E os personagens da partida têm história no clube de Lisboa.

Abel Ferreira foi jogador do Sporting em cinco temporadas. Depois que pendurou as chuteiras, trabalhou nas divisões de base do clube por três anos, até ser dispensado. Após a saída conturbada, foi contratado pelo Braga para dirigir a equipe B, posto que ocupa até hoje.

Justamente por ter passado tanto tempo nos leões, o técnico conhece bem como as coisas funcionam em Alvalade. Na entrevista coletiva após o jogo de domingo, ele lembrou que havia ajudado a formar vários jogadores que hoje atuam como titulares do Sporting. E, recheado de sinceridade, contou como trabalhou para chegar à vitória: “A mensagem que passei aos jogadores era que, da mesma forma que o Sporting Covilhã ganhou do Braga, também nós poderíamos ganhar aqui (em Alvalade). Mais do que o lado estratégico, que também trabalhamos, ainda que de forma mais pausada, previmos fazer exatamente o que fizemos numa situação de vantagem. Esse era o nosso plano B. Ao contrário do que o treinador rival (Jorge Jesus) disse, que é impossível preparar uma equipe em três dias, foi exatamente isso que eu fiz: preparei a equipe em três dias.”

Um dos que ouviram a preleção de Abel Ferreira foi o atacante Wilson Eduardo. Autor do gol da vitória do Braga, ele é formado na base do Sporting e atuou pela equipe na temporada 2013/14 (fez cinco gols em 24 jogos). O jogador não comemorou seu gol no domingo, mas certamente sabe da importância do feito. O Braga não ganhava um jogo fora de casa desde outubro e não batia o Sporting como visitante desde 2009.

O resultado foi mais do que uma injeção de ânimo aos arsenalistas. A vitória fez com que o Braga ultrapassasse o próprio Sporting e assumisse o terceiro lugar na classificação, com dois pontos de vantagem sobre o rival. De quebra, ainda fez aumentar a crise nos leões (assunto que a coluna abordou na semana passada), que saíram de campo sob vaias e lenços brancos acenados ao técnico Jorge Jesus, que comandou um time pela 500ª vez na primeira divisão lusitana.

No seu momento de maior crise, o Braga achou uma vitória que pode ser a chave para uma reviravolta. Se conseguir voltar aos trilhos, um novo objetivo pode ser traçado e cumprido: o de ficar entre os três primeiros no Campeonato Português.