Os números falam sozinhos. Cesc Fàbregas, anunciado pelo Monaco na última sexta-feira, foi um dos grandes jogadores da história da Premier League, uma lenda detentora de títulos e de recordes. No entanto, sua imagem parece mais relacionada ao futebol inglês do que aos dois clubes que defendeu. Por diferentes circunstâncias, deixa a Inglaterra sem ser unanimidade nem no Arsenal e nem no Chelsea.

LEIA MAIS: Fàbregas oferece muito ao Monaco na luta do rebaixamento, mas também vai para provar o que ainda pode

 

Fàbregas ganhou duas vezes o Campeonato Inglês. Ainda soma duas conquistas da Copa da Inglaterra e outra da Copa da Liga. Com exceção da FA Cup de 2004/05, todos esses troféus vieram com a camisa do Chelsea. São 501 jogos no futebol inglês, sendo 350 na Premier League – 69º na lista histórica. Ele é o segundo jogador da liga inglesa moderna com mais assistências (111), atrás de Ryan Giggs (162). O segundo com mais passes completados (19,187) e o líder de bolas enfiadas (376). O terceiro com mais toques na bola (24,391).

Deixou a sua marca, sem dúvida. Mas ele entraria na lista de dez maiores ídolos de Arsenal ou Chelsea? Restringindo para a era Premier League, talvez dos Gunners, mas o coração dessa torcida levou dois golpes profundos de Fàbregas. Primeiro, ele decidiu ir embora para defender o clube da sua infância, o Barcelona, em busca dos títulos que rarearam no Emirates. Depois, ao retornar à Inglaterra, fixou residência no oeste de Londres, e não no norte.

Ele talvez pudesse ter sido perdoado pela torcida do Arsenal se, entre 2003 e 2011, tivesse contribuído decisivamente para expandir as prateleiras de troféus do clube. Mas, nos primeiros anos, era um jovem buscando espaço entre os craques invencíveis de Arsène Wenger. Na montagem de uma nova equipe, assumiu o protagonismo, mas encarou as dificuldades financeiras impostas pela construção do Emirates e o começo do ocaso do trabalho do francês. Não participou sequer do tricampeonato da Copa da Inglaterra.

Nesse aspecto, a falha foi muito maior do Arsenal do que do próprio Fàbregas. Seu desempenho vestido de vermelho foi irreparável, com 59 gols em 306 partidas e muitas atuações de destaque. Wenger e seus diretores, sem muita grana para gastar naquela época, não foram capazes de cercá-lo com um time candidato às principais glórias da Europa, ou de impedir que jogadores importantes fossem embora. Eventualmente, o próprio Fàbregas decidiu que era hora de respirar outros ares.

Não cumpriu as expectativas no Barcelona. Era para ser o sucessor de Xavi, mas acabou sendo utilizado em outras funções. Chegou a ser falso 9, atacante mesmo, e pegou justamente o hiato de conquistas europeias entre os times de Guardiola e de Luis Enrique, o que contribuiu para a má impressão. Em 2014, Fàbregas decidiu voltar à Premier League. Por contrato, o Arsenal tinha a preferência, mas Wenger não quis recontratá-lo. O destino acabou sendo o Chelsea de José Mourinho, grande nêmesis de Wenger e dos Gunners na década anterior. Independente de quem foi a culpa, a torcida do Arsenal não ficou feliz de vê-lo vestindo a camisa de um rival.

Fàbregas jogou bem no Chelsea. Foi essencial para o título conquistado em sua primeira temporada, com 18 assistências em 34 rodadas, quase todas como titular. Foi, na época, a segunda maior marca em uma única campanha da Premier League, ao lado de Frank Lampard, em 2004/05, e perdendo apenas para Henry, em 2002/03 (20). Depois, foi superado por Mesut Özil, na época seguinte (19), e igualado por De Bruyne, em 2016/17.

Embora tenha se mantido como titular, a segunda temporada não foi tão boa, prejudicado pela situação do próprio Chelsea, que foi apenas décimo colocado, entre a demissão de Mourinho e a interinidade de Guus Hiddink. A chegada de Antonio Conte relegou-o ao banco de reservas. Seu estilo não se adequou à característica do treinador e à formação adotada. Aquele Chelsea era um time reativo, de boa defesa e saída rápida para o contra-taque. Tinha três zagueiros e dois volantes, geralmente Kanté e Nemanja Matic, ambos com um poder de marcação muito superiores ao de Fàbregas.

Ele atuou mais como um dos dois meia-atacantes. Mas, na fila, estava atrás de Hazard, Pedro e Willian. Na temporada do título de 2016/17, disputou 29 partidas da Premier League, apenas 13 desde o início. Ainda deu uma boa contribuição, com 12 assistências, e decidiu jogos importantes, principalmente na reta final, quando foi mais titular que reserva. Atuou mais na campanha seguinte, porém produziu menos e, outra vez, o Chelsea era um clube em chamas. E, então, chegou Maurizio Sarri.

Fàbregas talvez tenha ficado feliz com a contratação. O estilo de jogo característico de Sarri favoreceria um meia com passe apurado e faro de gol – o que o Chelsea anda precisando desesperadamente no momento. No entanto, a realidade foi bastante diferente. Fàbregas atuou apenas seis vezes com Sarri na Premier League, e 16 no total, geralmente em competições secundárias como a Liga Europa e as copas inglesas. Quando chegou a proposta do Monaco, o treinador não fez nenhuma questão de segurá-lo. “Na minha opinião, ele tem que ir embora”, respondeu o italiano.

Fàbregas jogou muita bola na Premier League. No entanto, por circunstâncias diferentes, como o contexto do clube em que estava ou treinador que o comandava, não conseguiu recolher os outros aspectos exigidos pela imortalidade. Não foi campeão com o Arsenal, nem, para muitos, fiel. No Chelsea, conquistou os títulos que queria, mas em poucos momentos pareceu um jogador indispensável. Evidentemente, há torcedores nas arquibancadas de Chelsea e Arsenal que amam Fàbregas. Mas em nenhum deles atingiu o índice de unanimidade que um ídolo necessita.


Os comentários estão desativados.